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Negócios Artesãs locais investem no São João como fonte de renda Empreendedores sazonais começam a se planejar para o São Jão logo após o Carnaval

Por: Gabriela Araújo

Publicado em: 19/06/2017 09:46 Atualizado em: 19/06/2017 11:25

A artesã Fátima Santos vende seus produtos em um quiosque no Shopping Plaza. Crédito: Shilton Araújo/ Esp.DP
A artesã Fátima Santos vende seus produtos em um quiosque no Shopping Plaza. Crédito: Shilton Araújo/ Esp.DP
As roupas temáticas, comidas típicas, fogos e forró pé-de-serra não são a alegria do mês de junho apenas para quem gosta de curtir o São João. A festa também acaba sendo a fonte de renda de empreendedores nordestinos, que preferem investir apenas em festividades. Eles caracterizam o empreendedorismo sazonal, modalidade em que os investimentos são feitos com atributos focados no momento, seja de acordo com uma época festiva, mudança de clima ou estação do ano.

A artesã Fátima Santos, 60, por exemplo, escolheu dedicar sua produção apenas ao Carnaval e ao São João. Há cerca de 12 anos, ela já vendia artigos para essas épocas, mas também produzia roupas para bonecas, fantasias e fantoches para crianças. “Mas o tempo foi passando e a demanda já não era a mesma”, diz. Fátima tinha vontade de oferecer mais opções nas festividades, mas não dava tempo. Foi assim que decidiu se dedicar exclusivamente às duas festas.

Além das encomendas, Fátima vende seus produtos em um quiosque junino no Shopping Plaza, que começou no fim de maio e vai até a véspera do São João. Ela vende vestidos de "matuto", camisas xadrez, gravatas, chapéus e acessórios. Neste ano vem com uma novidade: são os aventais, que custam R$ 55, e devem ser utilizados para dar uma nova cara a um vestido antigo. “Resolvi fazer isso como uma forma de inovação. Acredito que vai ser bom, já que muita gente está querendo economizar”, comenta. Ela produziu 25 aventais, e, dependendo da demanda, vai investir em outros. Além disso, confecciona semanalmente cerca de cem acessórios e 25 vestidos, com ajuda de uma tia e uma costureira.

Após o Carnaval, Fátima passa um mês sem produzir, e depois já começa a trabalhar para o São João. Na primeira e maior compra de materiais que realizou neste ano, ela gastou cerca de R$ 15 mil. Em cima disso, recebe um lucro que varia entre 20% a 30%. “Valeu muito a pena começar a empreender sazonalmente. Eu me organizei”. E, para ela, esse é o segredo. Se fosse desorganizada, mesmo que vendesse bem, não ia conseguir administrar o dinheiro de uma forma que ele durasse o ano inteiro.

Outra mulher tem história e nome parecidos com a de Fátima: Fátima Miranda, 61. Apesar de ela trabalhar anualmente na produção e venda de bolsas divertidas, a maior parte do seu sustento vem das vendas de Carnaval e São João. Há cerca de 21 anos  começou sua história na arte, produzindo enxovais de bebês personalizados. “Mas começaram a surgir aquelas lojas enormes que parcelavam e eu não, então tive que diversificar. Apareceu a oportunidade de trabalhar com Carnaval, aí juntei  o útil ao agradável”, conta.

Uma semana após a folia de Momo ela começa a produção para a festa junina. “Eu reservo uma quantia para comprar material, determino os modelos aproximados que vou fazer e compro no centro do Recife”. Fátima compra tudo à vista e negocia descontos. Em sua primeira compra, gasta entre R$ 3 e R$ 4 mil. O lucro é entre 50% e 60%. Disso, ela reinveste uma parte e o resto é dividido para o seu sustento mensal.

Pegando carona no São João

Empreender apenas em períodos específicos é um desafio. Para João Paulo Andrade, analista de atendimento individual do Sebrae-PE, para que as empresas consigam se manter em períodos sazonais, é preciso que exista uma boa gestão de fluxo de caixa e estratégias comerciais bem definidas. “É bom ter um mix de produtos diferentes para épocas que seriam de baixa”, aconselha. Além disso, manter uma estrutura – no caso de existir – que seja facilmente adaptável também é uma boa estratégia.

Carmela Bezerra e Lúcia Nunes são proprietárias de uma loja carnavalesca, mas investem no São João para manter o ateliê ativo. Crédito: Thalyta Tavares/Esp.DP
Carmela Bezerra e Lúcia Nunes são proprietárias de uma loja carnavalesca, mas investem no São João para manter o ateliê ativo. Crédito: Thalyta Tavares/Esp.DP
A Colombina, por exemplo, é uma loja que vende fantasias e acessórios de carnaval durante o ano inteiro, mas pega carona nas festividades. No ano passado, foi  a primeira vez que investiram no São João. “Fica coerente com as atividades da Colombina . É uma festa muito rica para a cultura nordestina, então resolvemos fazer isso como uma forma de manter  o ateliê ativo e chamar atenção”, diz Lúcia Nunes, uma das sócias da loja, que tem parceria com Carmela Bezerra.

Neste ano, elas estão produzindo artesanalmente chapéus (R$ 79), broches (entre R$ 49 e R$ 59) e algumas roupas juninas. Até agora foram feitos 30 chapéus e 20 broches, e investidos cerca de R$ 2 mil. A expectativa de lucro é de 20%. Dependendo da demanda, vão aumentar a produção. O dinheiro vai ser investido na Colombina. Segundo Lúcia, a sazonalidade do mercado não é algo fácil de lidar.

Os chapéus juninos da Colombina custam R$ 79 e os broches entre R$ 49 e R$ 59. Crédito: Thalyta Tavares/ Esp.DP
Os chapéus juninos da Colombina custam R$ 79 e os broches entre R$ 49 e R$ 59. Crédito: Thalyta Tavares/ Esp.DP

De acordo com o analista de atendimento individual do Sebrae-PE João Paulo Andrade, empreender sazonalmente é difícil porque estar dependente de apenas um período de tempo demanda mais planejamento. Apesar disso, há  uma vantagem indireta. “As épocas criam gatilhos mentais e dão mais visibilidade ao negócio, o que pode ser explorado”, explica. Mesmo esse tipo de investimento já seja uma prática de mercado entre os nordestinos, em momento de crise econômica é preciso que os empreendedores tentem inovar. “Customizar roupas antigas é uma das opções. Ele precisa identificar essa oportunidade na crise”, explica Andrade.

O empresário também deve estar sempre  atento ao seu público, sabendo quem são as pessoas e qual a faixa etária delas. O perfil ainda deve ser delineado em termos psicográficos, incluindo comportamento do cliente e quais atributos ele considera relevantes. Paralelamente a isso, o planejamento financeiro também é essencial. Ele inclui quanto deve ser gasto com estoque e investimento, por exemplo. Quando chega perto do São João, de acordo com Andrade, a demanda por esse tipo de orientação aumenta no Sebrae-PE, assim como nas outras festividades em que se enxergam nichos de mercado.
 


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