Economia

Falsa esperteza

Por Carlos Magno Lopes (*)

Carlos Magno Lopes é professor do Departamento de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação

Situações distintas nos Estados Unidos e no Brasil (com seu capitalismo adolescente) ilustram a divergência entre interesses individuais e coletivos. A tentativa de Trump em derrubar o chamado Obamacare (Affordable Care Act), uma promessa de campanha que lhe rendeu milhões de votos, foi um fracasso, pois rejeitada pelo seu próprio partido. Feitas as contas, o diabo dos detalhes apareceram. Constatou-se que a proposta substituta de Trump tornaria planos de saúde inacessíveis para milhões de americanos, inclusive para seus próprios eleitores. O que aconteceu, então? Eleitores pobres e de baixa classe média de Trump, quase exclusivamente compostos por brancos, acreditavam que o Obamacare favorecia apenas pobres não brancos e que eles é que pagavam a conta. Descobriram que a pobreza não é exclusividade de negros e imigrantes. Talvez agora passem a entender que seus interesses pessoais coincidem com o de milhões de outras pessoas de baixa renda: todos querem ter um plano de saúde. Não há, portanto, razão para conflitos. No Brasil, a Reforma de Previdência está em pauta. Há ampla aceitação que o modelo atual é insustentável e que, portanto, deve ser mudado, desde que o custo do ajuste não recaia sobre a sociedade. Ora, sobre quem deveria arcar o ônus necessário para corrigir o déficit da Previdência? Sobre os índios? Ou sobre os marcianos, assíduos frequentadores de Varginha, e os abduzidos? O fato é que quase todos defendem seus privilégios pessoais, mas criticam os dos outros, desta e de futuras gerações. O equilíbrio de longo prazo da Previdência não poderá ser atingido sem custos individuais, sobretudo para os mais beneficiados pelo atual modelo.

Divergências acentuadas entre interesses individuais e coletivos estimulam o que de pior o corporativismo tem a oferecer: defender ideias contrárias ao bem-estar de seus próprios membros. Populistas de todas as matizes se agigantam.  Perguntará o solitário leitor: “Então, o que fazer?”. Não há muito o que fazer, exceto convencer a maioria que o que é melhor para a sociedade pode ser compatibilizado com os interesses individuais. É uma das virtudes do capitalismo democrático, que quando atropelado produz tragédias inesquecíveis.

(*) Professor do Departamento de Economia da UFPE.

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