Economia

Unanimidade

Por Carlos Magno Lopes (*)

Carlos Magno Lopes é professor do Departamento de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação

É importante registrar o óbvio: ideologia, teoria e política econômica fazem parte de dimensões distintas e nem sempre são coerentes entre si, basta uma rápida consulta à história para validar essa assertiva. Em que pese a tendência divisionista de sociedades em vários países, a busca pelo bem-estar é sempre destacada como objetivo de todos os segmentos sociais, ainda que expressem posições políticas distintas. A disputa é sobre quais segmentos da população devem recair os benefícios das políticas econômicas e se alguém deve ser excluído. No governo Trump, por exemplo, os vulneráveis e imigrantes devem ser privados de benefícios oriundos de políticas públicas, ou porque não podem pagar por serviços públicos ou por subtraírem empregos da baixa classe média branca. Na França, Holanda e, em menor escala no Reino Unido, por exemplo, são poderosos os grupos políticos que defendem tais princípios. O argumento é sempre o mesmo: é preciso ampliar o bem-estar para alguns, deixando à margem do progresso humano e material os demais grupos. Nada pode ser mais anticapitalista do que esse tipo de ideário. Não há como deixar de concluir que a construção de unanimidades burras ganhou fôlego e já é capaz de mobilizar maiorias, necessárias para chegar ao poder. O mesmo observador que constatara os malefícios da unanimidade, também profetizou: “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”.

O fato é que expandir o bem-estar continua a ser o objetivo declarado de todos, mas não para todos, na visão de muitos grupos na sociedade. Não há mais desfaçatez. Mais uma vez, o mesmo observador de sempre já avisara: “Existem situações em que até os idiotas perdem a modéstia”. Em outras palavras, líderes idiotas começaram a pregar o que outrora tinham constrangimento em dizer e conseguiram convencer multidões de outros idiotas. Eis o novo mundo. Com a fronte salpicada de suor e dominado pela ânsia da curiosidade, o inculto leitor perguntará: “Quem é o observador citado? Quem? Quem? Responda!”. Com o ar contemplativo de um monge tibetano, respondo, no modo James Bond: “Rodrigues. Nélson Rodrigues”.

(*) Professor do Departamento de Economia da UFPE.

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