Economia

Farmácias prosperam até na recessão

Por Fernando Dias (*)

Fernando Dias é professor do Departamento de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação

Os dados oficiais confirmam esta visão. Recorrendo aos registros do Ministério do Trabalho, através da RAIS, temos que de 2010 a 2015 o total de farmácias tradicionais no Brasil cresceu 18%, chegando a 22% no Nordeste. Em termos de emprego foram 100 mil novas vagas no Brasil entre 2010 e 2015, avançando 38,5% na média contra 52% no Nordeste. Para os tempos atuais é um desempenho notável.

Mas há algo diferente que também é notado. Enquanto o setor era tradicionalmente marcado por unidades independentes, de pequeno porte e especializadas em medicamentos, hoje ele é cada vez mais caracterizado por grandes redes, com grandes lojas que vendem um mix significativo de produtos tendo como carro chefe medicamentos e cosméticos. O setor de cosméticos é outro setor que desafia crises e apresenta resultados excepcionais no Brasil mesmo quando se considera países com renda muito mais elevada. A união entre cosméticos e farmacêuticos parece que está dando grandes frutos para as farmácias.

E porque grandes redes? Vai se repetir com as farmácias o que já acontece com o setor de supermercados no Brasil? Aparentemente sim. Não faz muito tempo, de fato, que o próprio segmento de supermercados quis tomar de assalto o varejo de medicamentos colocando os mesmos nas gôndolas, o que acabou esbarrando na legislação. O motivo, no entanto, ficou claro, uma grande rede pode obter preços muito melhores dos distribuidores e produtores que uma unidade isolada, e transformar isto em redução de preço e/ou elevação da margem. Em essência, a mesma razão que faz dos nossos supermercados um segmento em oligopólio pode também fazer das farmácias a mesma coisa.

Ao que tudo indica a ideia é transformar farmácias, na medida do possível, em pequenos mercados. Hoje em dia o mix é liderado por medicamentos e cosméticos, mas já se tentou alimentos em geral e foi barrado pela legislação. Não é por acaso que as farmácias de redes se parecem cada vez mais com lojas de conveniência de luxo, você entra para comprar um remédio para dor de cabeça e sai com um celular, alguns chocolates, um creme para rugas e, quem sabe, até lembra de comprar o remédio.  Bom para a economia, bom para o cliente, bom para os empregados, a sociedade agradece.

Mas nem tudo são flores. O modelo atual lembra muito a formação das grandes redes varejistas brasileiras, e como elas a notícia ruim vem depois. Caso a tendência venha a se consolidar com as farmácias, o que não é certo pois o mercado é aqui muito mais restrito, a presença somente de grandes redes após a fase de consolidação pode ser prejudicial ao consumidor em função da prática de preços elevados já que não haveria concorrência. Pesquisas do Procon já revelam que a prática de preços abusivos em farmácias já é frequente e isto deveria acender um alerta junto aos órgãos de defesa do consumidor. É possível que o CADE tenha de começar a ver este setor antes que pouco mais de 10 redes representem a quase totalidade dos medicamentos vendidos no país.

(*) Professor do Departamento de Economia da UFPE.

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