Economia

A sabedoria chinesa

Por Carlos Magno Lopes (*)

 

Carlos Magno Lopes é professor de Departamento de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo

 

Eis que o cerne da política econômica de Mr. Trump é promover a desglobalização da economia, a panaceia para todos os males que afligem os trabalhadores americanos, especialmente a baixa classe média branca. A receita para restaurar o padrão de vida dos “blue collars” e demais desempregados, em decorrência de avanços tecnológicos, é de uma simplicidade franciscana, senão vejamos. O protecionismo comercial inviabilizará a importação de bens produzidos no exterior, porquanto os tornariam mais caros que os fabricados domesticamente. Assim, a indústria americana contrataria mais trabalhadores e os salários, naturalmente, aumentariam. Todos sairiam ganhando como o aumento dos lucros e dos salários. Os perdedores seriam os países que atualmente exportam para os Estados Unidos, que roubam os empregos dos americanos. É simples assim. Muitos acreditam nesse argumento. Isso é conhecido como “post-truth”, ou seja, quando fatos objetivos são menos influentes em moldar a opinião pública que o apelo à emoção e à crença pessoal” (Oxford Dictionary).

 

Adam Smith, convencido que suas ideias haviam triunfado e provado os benefícios do livre-comércio, apesar do desserviço prestado por alguns de seus seguidores, resignou-se diante de tantas ideias estapafúrdias. Afinal, dava como concluída sua magnífica contribuição. O que pode ser o início de uma reação, contudo, não tardou. No Cantão Grisões, precisamente na comuna de Davos, na Suíça, ecoaram palavras que lhe produziram certo conforto. O presidente chinês Xi Jinping, cujo país é reconhecido como protecionista, afirmou, sem identificar o destinatário de suas palavras: “Seguir o protecionismo é como se trancar em uma sala escura. O vento a chuva são mantidos do lado de fora, como também a luz e o ar”.  Perguntará o curioso leitor: “Será apenas mais um milenar provérbio chinês?”. Não há como saber. No entanto, da mesma forma que a eleição de Mr. Trump pode ter dado um susto na história, uma eventual transformação da China em ícone do livre-comércio também terá um impacto monumental nos rumos da moderna civilização. O mundo pode virar de cabeça para baixo.

(*) Professor de Departamento de Economia da UFPE.

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