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Observatório econômico Escolha racional

Publicado em: 03/04/2016 08:00 Atualizado em:

Por Fernando Dias (*)

Fernando Dias é Professor do Departamento de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação
Fernando Dias é Professor do Departamento de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação
A aversão ao risco, estudada na teoria econômica, ajuda a explicar porque é preciso mais do que credibilidade para mudar de lado no jogo político!

Diversas pesquisas vêm apontando que as melhores avaliações do atual governo estão nos segmentos mais pobres da sociedade. No entanto, temos que nas principais manifestações de rua, ocorridas em março deste ano, o público era majoritariamente composto por indivíduos com níveis de renda e instrução muito maiores que a média nacional, tanto do lado da oposição, como do lado do governo. O que pode explicar o fato destes segmentos mais pobres não estarem indo majoritariamente às ruas?

A teoria econômica propõe um interessante conceito que ajuda a entender este tipo de situação: a aversão ao risco. Em termos genéricos, um indivíduo pode ser classificado como avesso, neutro ou amante do risco, e isto representa basicamente como ele se comporta ante uma aposta. Uma implicação desta visão é que para um indivíduo que é avesso ao risco a chance de perder tem uma importância maior que a chance de ganhar, e isto pode ser utilizado para ajudar a entender a presente situação. Vamos supor que este indivíduo que hoje apresenta uma melhor avaliação do governo seja extremamente avesso ao risco, e se isso é verdade ele reluta fortemente em trocar o que ele já ganhou pela esperança que irá ganhar mais em um cenário adverso.

Mas ele ganhou mesmo? Sim, porém é preciso ter claro como opera o modelo desenvolvimentista. Basicamente, há um momento inicial de aceleração do gasto público e ações que impulsionam a demanda (ex. crédito consignado, aumento do salário mínimo). O efeito inicial é tanto maior quanto maior o peso no acelerador, mas depois vem a conta. Os desenvolvimentistas dizem que a conta pode ser paga com o aumento da arrecadação provocado pelo crescimento induzido. A experiência insiste em negar esta hipótese em todos os casos, mesmo no Brasil. O resultado estamos todos vendo, de novo!

Porém, do ponto de vista de quem foi impactado pelo momento inicial o ganho é real. O fato dele ter advindo de uma reorientação da riqueza é irrelevante para ele, e ainda provoca um certo sentimento de justiça social. Não é por acaso que Getúlio, Juscelino e, agora, Lula são aclamados como os melhores presidentes, independente da conta que deixaram para seus sucessores. Visto que houve um ganho certo para este grupo, e todas as pesquisas mostram isso, a questão que se coloca para ele é: até que ponto uma alternativa de governo gera credibilidade suficiente para que ele aceite esta aposta?

Observe-se que não importa o que ele acha do atual governo, o que importa, se ele age racionalmente como pensam os economistas, é que ele precisa de mais que promessas de manutenção de status quo para apostar, para abrir mão do que ele já possui em troca da chance de melhorar. Se ele não está aparecendo nem em uma manifestação, nem em outra, é porque, possivelmente, a oferta da alternativa não é percebida como boa o suficiente, mesmo que os sinais sejam de que a oferta da situação também não é lá estas coisas.

(*) Professor do Departamento de Economia da UFPE.



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