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Observatório econômico De quem é a culpa?

Publicado em: 28/03/2016 07:00 Atualizado em: 01/04/2016 22:32

Tiago Cavalcanti é Economista, Professor da Universidade de Cambridge e FGV-SP. Foto: Paulo Paiva/DP
Tiago Cavalcanti é Economista, Professor da Universidade de Cambridge e FGV-SP. Foto: Paulo Paiva/DP
Por Tiago Cavalcanti*

Para cada desgraça nossa há um vilão que se beneficiou com nossas perdas e está sorrindo com nosso sofrimento. Na crise atual não é diferente. O governo culpa a crise internacional, a Lava-jato e o Congresso, pela paralização do país. O PT já tentou colocar na conta do ex-ministro Joaquim Levy a queda do PIB em 2015. O Banco Central culpa o aumento de alguns preços administrados, congelados por obra divina, e a depreciação cambial pela inflação de mais de 10% ao ano.

A perda do grau de investimento foi colocada na conta de especuladores internacionais ávidos por juros elevados e na volatilidade nos mercados financeiros. O déficit nominal brasileiro de 10% da renda ao ano, o crescimento de 21,7% da dívida pública em 2015 e o alto percentual da dívida a vencer em 12 meses são só detalhes. Se o país for a bancarrota – espero que não vá - a culpa será da taxa de juros elevada que aumentou o custo da dívida. Após o pedido de ajuda às instituições financeiras internacionais, a recessão terá sido gerada pelo FMI, o grande vilão mundial.

O governo é isento da crise econômica, o Banco Central é inocente da alta dos preços e o Ministério da Fazenda não tem qualquer responsabilidade quanto ao aumento da nossa dívida pública. Contudo, há uma certeza: o contribuinte terá que pagar a conta seja através do aumento de impostos, da piora na oferta dos serviços públicos ou da queda real de benefícios, como a aposentadoria; ou através de todas as alternativas anteriores.

Podemos tentar também como a Grécia um “haircut” negociável da nossa dívida, onde os investidores possam concordar em receber apenas uma fração (no caso da Grécia 50%) dos títulos a vencer. Sem um fiador como o Banco Central Europeu, essa alternativa parece pouco provável. Mas podemos tentar. Ou podemos simplesmente, como a Argentina, decretar a moratória. O problema é que, dada a nossa baixa poupança, precisamos do capital externo emprestado para financiar nossos investimentos.

Uma alternativa é voltar a crescer. Mas como fazer isso no curto prazo? O contexto é difícil. O nosso ciclo de crescimento até 2012 foi baseado na demanda de commodities com o crescimento da China e com o aumento do mercado interno brasileiro. Esse modelo já dava sinais de esgotamento com a alta dos preços e uma infraestrutura precária. Segundo cálculos próprios, devido à conjuntura externa, a taxa de crescimento do PIB em 2015 deveria ter sido de 1,2% ao invés de -3,8%. São 5 pontos percentuais para menos devido à dinâmica interna do país!

O principal avanço do Brasil foi verificar que algumas instituições avançaram no combate à corrupção e isso pode mudar o modelo de fazer negócios no país. Ao invés de procurarmos vilões para os nossos problemas deveríamos nos responsabilizar pelas políticas implementadas que levaram a maior recessão da história republicana do Brasil. O governo Dilma não admite erros. Primeiro sinal de que está difícil mudar.

*Economista, Professor da Universidade de Cambridge e FGV-SP


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