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Perfil » Alma de mascate dos vendedores ambulantes Pesquisa inédita da Fundaj atesta que trabalhadores do comércio informal preferem o dia a dia das ruas a ter empregos em fábricas ou escritórios

Rosa Falcão

Publicação: 24/08/2014 08:00 Atualização: 22/08/2014 20:42

Hoje, existem cerca de 5 mil vendedores informais cadastrados na Prefeitura de Recife. Foto: Ivan Melo/Esp. DP/D.A.P
Hoje, existem cerca de 5 mil vendedores informais cadastrados na Prefeitura de Recife. Foto: Ivan Melo/Esp. DP/D.A.P

Pesquisa inédita da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) sobre o avanço do comércio informal no Recife  revela que a opção de emprego precário dos camelôs vai além das circunstâncias econômicas. A alma de mascate  fala mais alto. Tanto que muitos destes trabalhadores preferem passar o dia a dia nas ruas do  que  ficar trancado na fábrica ou no escritório para ter a segurança da carteira assinada. Hoje, existem cerca de 5 mil vendedores informais cadastrados na Prefeitura de Recife.

Muitos até tentam sair do universo da carrocinha, do tabuleiro ou da lona estendida no chão.  Acabam voltando para o mundo da informalidade, da insegurança e das precárias condições de trabalho.  A liberdade e  a autonomia de  fazer a jornada de trabalho, ganhar mais e não ter patrão são os motivos apontados pelos entrevistados para ganhar a vida no comércio informal.

“O crescimento do comércio informal no Recife não se deve ao desemprego e aos salários baixos, mas é também um modo de vida. Um jeito de viver”, comenta a pesquisadora da Fundaj Maria do Socorro  Pedrosa de Araújo, coordenadora da pesquisa.  O estudo mapeou o centro expandido de cinco bairros (São José, Santo Antônio, Boa Vista, Bairro do Recife, Ilha do Leite ),onde se concentram os vendedores informais.  

Eles vendem de tudo: frutas, verduras, roupas, sapatos, óculos, coco verde e lanche. Paulo José Souza de Santana, 28 anos, é vendedor de  frutas desde pequeno. A barraca fica perto do Mercado de São José.  Começou ajudando o pai. Pega no batente às seis da manhã e só sai às sete da noite. “Eu me orgulho de ter o meu próprio negócio. Meu pai criou os cinco filhos trabalhando na rua. Aqui eu não preciso levar grito de ninguém. Todo dia eu pego em dinheiro.”

A pesquisa da Fundaj enumera vários casos de comerciantes informais que  fizeram cursos técnico e  superior para tentar uma nova profissão e depois regressaram à vida de mascates. “As pessoas não se acostumam a trabalhar em lugar fechado. Além disso, o poder de mando da época da escravidão e o autoritarismo das relações de trabalho ainda estão muito presentes na realidade brasileira e no imaginário das pessoas”, diz a pesquisadora da Fundaj.

O estudo detalhado do comércio informal coincide  com o início das novas ações da Prefeitura do Recife , de relocação dos camelôs para os centros populares de compras.  Um documento a ser consultado. A pesquisadora da Fundaj Maria do Socorro alerta que não existe uma solução homogênea. “Uma solução simples será desumana porque o conjunto de informais não é homogêneo  As causas de permanência nas ruas são diferentes. Existe o apego ao lugar, à história de cada um, o enraizamento”.

Depoimentos
Confira abaixo alguns depoimentos dos vendedores informais que participaram da pesquisa da Fundaj. Os nomes são fictícios, porque as normas de pesquisa científica não permitem a identificação dos entrevistados.

A liberdade
“Trabalhando pra mim eu me sinto solto, livre. Mesmo que fosse pra ganhar mais, eu não queria trabalhar pros outros. Aqui, se eu não puder vim, tiver uma dor de barriga ou outra coisa, não preciso ir pra UPA atrás de atestado. Depois que a gente experimenta isso, não quer mais sair... Se não fosse a chuva e a chateação da prefeitura, era um paraíso.” (Valdemir)

A tentativa
“Comecei nesse ramo com 11 anos, ajudando o meu pai. Estudava de noite e  fiz até o curso de enfermagem. Trabalhei no Hospital da Restauração e numa clínica particular, mas não gostei... Já estava acostumada a trabalhar livre e decidi voltar a ser comerciante informal.” (Amarildes)

A herança
“Comecei a vim pra a rua com 5 anos de idade (hoje estou com 59), para ajudar meu pai, que era comerciante informal e morreu trabalhando na rua. Teve uma parada cardíaca e dobrou-se em cima do banco. Quando completei 14 anos e o meu pai faleceu, eu, na condição de filho mais velho, assumi o negócio com a ajuda de minha mãe, para poder sustentar a família.” (Mário)

“O jeitinho”
“Sou aposentada e há vinte anos trabalho como ambulante, vendendo vestidos que compro em Caruaru. Isso me ajuda a passar o tempo e a complementar a minha aposentadoria. Acho o trabalho na rua muito divertido e não penso nem de longe em largar ele. Quando eu vejo os fiscais, enfio os vestidos nas bolsas e saio correndo feito uma doida. Às vezes eles me pegam, ficam puxando as bolsas e eu puxando de volta. Aí eles terminam desistindo, eu dou um tempo e volto pro mesmo local. E assim vou vivendo...” (Maria do Carmo)

O movimento
“Gosto do comércio informal porque nele me sinto vivo, com disposição para trabalhar, vendo o movimento da rua e me distraindo com os conhecidos que vêm me visitar no ponto.” (Nélson)

O meu mundo
“A rua é alegre, aqui eu me divirto, tenho amigos pra conversar e ganho o meu trocadinho. Daqui do meu canto eu vejo o mundo.” (Vicente)

O território
“Se eu for retirado daqui, eu vou brigar pelos meus direitos de poder trabalhar na rua, porque eu gosto de trabalhar conhecendo as pessoas e vendo o movimento da rua. Eu não sou passarinho pra viver trancado.” (Fernando)

A alma de mascate
“Se eu for retirado da rua, eu volto. “É o que sei fazer desde novo; tá no sangue”. (Alex)

A escravidão
“Prefiro viver assim.  No trabalho anterior (formal) eu não aguentava mais ser humilhado... Gosto de trabalhar pra mim porque trabalho sem levar “esporro” e as pessoas me respeitam.”  (Mauricio)

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