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América Latina » Populismo cobra seu preço

Correio Braziliense

Publicação: 18/08/2014 09:09 Atualização:

A vida anda difícil para a maior parte dos latino-americanos. E as perspectivas, ainda piores. Na semana passada, foi divulgado o Índice de Clima Econômico (ICE) de julho, elaborado em escala global com a participação, no Brasil, da Fundação Getulio Vargas (FGV). O continente atingiu o pior resultado desde 2009 e o Brasil ficou no nível mais baixo desde 1991, após despencar de 71 pontos, em abril, para apenas 55 - uma redução de 22%.

Para muita gente, a culpa é dos ventos que vêm de longe, mais precisamente dos efeitos da crise global de 2008, que teve início no mercado de crédito norte-americano e se espalhou para todo o mundo. Mas o próprio ICE contraria essa tese: no mundo houve melhora, ainda que discreta, de 3% no indicador entre abril e julho. E os nossos principais mercados, China e Estados Unidos, se destacaram, com aumento, respectivamente, de 16% e 6%.

Para vários analistas latino-americanos, a culpa dos nossos problemas está aqui mesmo e é antiga: o persistente populismo, que envolve alguns benefícios imediatos à população e o adiamento de medidas que fariam as economias mais competitivas, favorecendo o crescimento a longo prazo. Há os que discordam dessa avaliação, afirmando que os problemas são diferentes em cada país do continente, ainda que os efeitos da crise externa afetem a todos, em maior ou menor grau.

Meio-termo

Engana-se, porém, quem pensa que o antigo fenômeno latino-americano usa as cores de sempre em todos os lugares, com governantes sorridentes e aclamados calorosamente nas ruas. “O que há é um neopopulismo”, explica o economista Reginaldo Nogueira, coordenador do curso de relações internacionais do Ibmec em Belo Horizonte. Ele identifica esse tipo de modelo nas políticas calcadas em gasto fiscal expansionista e intervencionismo do governo na economia. Venezuela e Argentina são os exemplos mais claros. “O Brasil fica no meio-termo entre esses países e os que não são populistas”, diz Nogueira.

Na região, há nações que trilharam um caminho diferente, baseado em abertura para os mercados globais e solidez fiscal, apontam Nogueira e outros economistas. A lista inclui em primeiro lugar o Chile, depois Colômbia e, mais recentemente, México, Peru e Costa Rica. O grupo forma a Aliança do Pacífico, que assinou, neste ano, um acordo de livre-comércio com os Estados Unidos.

Para o economista boliviano Roberto Laserna, o campeão da lista dos populistas é a Venezuela, do presidente Nicolás Maduro, o herdeiro político de Hugo Chávez. A Argentina, de Cristina Kirchner, vem depois. “Mas é a decana, pela tradição na área”, brinca Laserna, que atua no Instituto Ceres, na cidade boliviana de Cochabamba, e preside a Fundação Milênio, em La Paz. Ele também coloca o Brasil em uma situação mais atenuada, “pelo mercado interno e a força das instituições”.

O economista Raul Velloso, especialista em contas públicas, discorda. “Que nada: o populismo aqui é muito forte. A Argentina foi mais longe, mas o país nada mais é do que um Brasil em miniatura”, afirma. Velloso é o organizador do livro Intervenção estatal e populismo: a Argentina do século 21, lançado em maio.

Para Velloso, os dois principais países da América do Sul adotam políticas de gasto corrente do governo nas alturas, incentivo ao consumo e tentativa frustrada de favorecer a indústria. O objetivo de incentivar a manufatura nacional não deslancha, explica, porque a elevação do consumo acaba resultando muito mais em aumento de importações do que da produção local.

Por outro lado, os serviços, que não podem ser trazidos de fora, crescem muito e elevam os salários de todo o país, inclusive nas fábricas. O setor industrial acaba por se tornar menos competitivo, com aumento nos custos e limites à elevação de preços, devido à concorrência externa. “É um modelo impossível”, alerta Velloso. Ele aponta o sistema como oposto ao chinês, baseado em forte poupança e produção voltada para o mercado externo. O Brasil está entre os países com a menor taxa de investimento do continente, já abaixo da média mundial.

Uma das principais dificuldades para aumentar a poupança está no fato de que o setor público é deficitário. E 60% dos gastos correntes são na área de Previdência e Assistência Social, que faz parte do sistema de incentivo ao consumo. “Praticamente metade das pessoas no país recebem algo do governo.”

Corrupção

Velloso separa o Bolsa Família, uma política eficaz por ser direcionada aos mais pobres. “Mas representa muito pouco do gasto total.” O salário-mínimo, com política de aumento real garantido, não é dirigido necessariamente ao estrato mais baixo, diz o economista. Laserna considera qualquer política de transferência de renda algo populista, mas ressalva que é pior distribuir alimentos — o que se faz na Venezuela — e melhor, dinheiro — casos do Brasil e da Bolívia. “Na distribuição de produtos, há maior margem para corrupção. E no caso do aumento de renda, há incentivo à criação de um mercado interno, o que tende a diminuir o populismo mais tarde”, explica. Nogueira, do Ibmec, também considera necessário fazer distinções. “O Prouni (em que o governo paga as mensalidades de estudantes em faculdades privadas) assemelha-se aos programas de vouchers do modelo liberal”, argumenta.

Nas tarifas públicas, está outro foco de atuação populista. Velloso chama atenção para o dinheiro direcionado pelo governo federal e estatais, que amargam prejuízo, para segurar os valores da energia elétrica e dos combustíveis. Os dois casos inserem-se no incentivo ao consumo, já que, com menor despesa com esses itens, a população tem mais dinheiro para gastar em outros.

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