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Conjuntura » Situação econômica assume contornos diferentes conforme a região do Brasil

Correio Braziliense

Publicação: 18/08/2014 08:12 Atualização:

Apesar de os números recentes mostrarem que o país está à beira da recessão, a situação econômica ainda é favorável em regiões como o Norte e, principalmente, o Nordeste, cenário que pesa a favor da candidatura da presidente Dilma Rousseff nas eleições de outubro. Se, ao sul, a indústria encolhe, as vendas do varejo rareiam e os investimentos empacam, do lado de cima do mapa brasileiro a economia cresce em ritmo acelerado, a inflação se mostra mais calma e os trabalhadores são disputados por um mercado de trabalho que ainda não dá sinais de enfrentar uma crise.

A economia do Norte avança desde junho de 2013. Nesse período, de acordo com o Índice de Atividade Econômica Regional do BC (IBC-R), a região registrou apenas um resultado negativo, entre março e maio do ano passado. Já o Nordeste cresce sem parar há dois anos ininterruptos. E os números têm avançado em velocidade cada vez maior.

No trimestre encerrado em fevereiro deste ano, o crescimento do IBC-R do Nordeste já havia sido o maior do país: 1,2%. Nos três meses seguintes, essa alta acelerou para 3,6%. Anualizado, o desempenho é de15,2%, mais de duas vezes o ritmo de crescimento da maior locomotiva do mundo: a China, que avança a uma velocidade de 7% ao ano. “Nessas regiões, a visão de que o país está à beira de uma catástrofe econômica não cola”, avalia o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito.

Para uma alta fonte da equipe econômica, no Norte e no Nordeste “o crescimento é forte porque o Estado está presente por meio dos programas sociais, que garantem emprego e renda para a maioria da população”. Não chega a ser uma surpresa, dessa forma, que as duas regiões sejam as maiores beneficiárias do carro-chefe social do governo, o Bolsa Família.

Crédito farto

O Nordeste concentra mais de metade dos benefícios pagos pelo programa. Em julho, o governo destinou R$ 1,2 bilhão para as cerca de 7,2 milhões de famílias na região. O Norte, que representa 12% da folha de pagamento do programa federal, leva vantagem não pelo número de famílias atendidas, de 1,7 milhão, mas por ter benefícios de maior valor. Em média, cada família recebe 25% mais do que é pago no Sul.

Norte e Nordeste também estão entre os maiores beneficiados de programas como o Minha Casa, Minha Vida, de moradias populares, e o Minha Casa Melhor, de crédito para a compra de móveis e eletrodomésticos. Os resultados são claros. No Norte, a construção civil foi o setor que mais empregou neste ano. Já no Nordeste, as vendas de móveis e eletrodomésticos subiram 10,5% nos últimos 12 meses até junho.

O cenário é ainda melhor, observa a fonte do governo, se for levado em conta que, ao contrário do que acontece na maioria das capitais, que têm preços nas alturas, o custo de vida encontra-se “relativamente controlado” no Norte e no Nordeste, “devido à alimentação, cujos preços estão, atualmente, em queda.”
 
Reversão

O economista Gesner Oliveira, sócio da consultoria GO Associados, observa, entretanto, que a deflação dos alimentos, que levou o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) à estabilidade em julho, com alta de apenas de 0,01%, pode não durar muito, repetindo o que já aconteceu em 2013. “Em agosto e setembro, os preços voltarão a subir”, diz. Oliveira acredita, no entanto, que a alta do custo de vida só deve surtir efeito na renda das famílias a partir de outubro. “Para a sorte do governo, a inflação só voltará a incomodar após as eleições”, reforça.

Há outro fator decisivo para as diferenças de desempenho entre as regiões. No Sul, os bancos fecharam a torneira do crédito, com medo de uma nova onda de calotes, mas, no Norte e no Nordeste, por determinação do Palácio do Planalto, instituições públicas seguem oferecendo empréstimos a juros subsidiados. Nem mesmo a inadimplência em alta em alguns estados inibiu a atuação dos bancos oficiais nessas regiões. O Nordeste, que abriga o maior percentual de atrasos — média de 5,15% — é a região onde o crédito mais avançou até junho: 18,1%.

Flávio Calife, economista-chefe da Boa Vista Serviços, não têm dúvidas do efeito desses números sobre a intenção de voto. “Quem tem mais acesso a crédito e ao consumo tende a estar mais satisfeito. É natural que deseje a manter o sistema político”, diz.

Os números parecem dar razão ao analista. Se, em regiões como Sul e Sudeste, a candidatura de Dilma vai mal, o mesmo não se pode dizer da parte de cima do mapa. A última pesquisa do Ibope para presidente, divulgada em 8 de agosto, mostra a petista com 51% das intenções de voto no Nordeste, região que responde por um quarto do eleitorado. No mesmo levantamento, o senador Aécio Neves (PSDB) tinha 11% e Eduardo Campos (PSB), morto na semana passada, 12%.

A candidatura petista também encontra cenário confortável no Centro-Oeste e no Norte. O cenário é bem diferente nas regiões onde a crise é evidente. No Sul, Dilma caía para 36%, ficando pouco acima de Aécio. No Sudeste, a presidente tinha 29%, quase o mesmo que o rival do PSDB.

A morte de Campos e a entrada de Marina Silva, porém, têm potencial para embaralhar o quadro político. Para o diretor para a América Latina da consultoria Eurasia Group, João Augusto de Castro Neves, é improvável que a alteração ameace a soberania de Dilma no Norte e no Nordeste. Mas João Paulo Peixoto, da Universidade de Brasília (UnB), considera prematura qualquer análise. “As pessoas votam por situações distintas. Alguns, porque a economia vai bem, outros, porque o candidato é honesto. A comoção com a morte do Campos deve provocar uma reviravolta no quadro eleitoral”, afirma.

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