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Reflexo da inflação » Bancos se protegem com medo de calote

Correio Braziliense

Publicação: 15/08/2014 09:29 Atualização:

Os bancos estão cada vez mais rigorosos na hora de conceder crédito, e não é para menos. Com o brasileiro atolado em dívidas e com o orçamento doméstico estrangulado pela escalada da inflação, o temor é de que o consumidor, mais cedo ou mais tarde, não consiga pagar os empréstimos. Para se precaver de prejuízos, as instituições financeiras estão aumentando as provisões contra perdas. Apenas em junho passado, esse colchão utilizado para momentos de incerteza chegou a R$ 135,2 bilhões, o maior valor já declarado pelas instituições ao Banco Central (BC) desde julho de 1993.

Mais de metade desse montante é destinado a cobrir possíveis prejuízos com clientes que estão em atraso há pelo menos três meses. Levantamento feito pelo Correio em dados do BC mostra que, em junho, os bancos separaram R$ 107 bilhões em provisões para esse tipo de crédito.

Em situação ainda mais delicada estão os empréstimos enquadrados na letra H, segundo classificação adotada pelas instituições financeiras. Nessas operações, o crédito é dado como perdido. Não por outro motivo, as instituições separam R$ 72 bilhões para conter possíveis calotes apenas nessas linhas. “Elas estão tirando o pé do acelerador e colocando no freio”, disse Luis Santacreu, analista da agência de risco Austin Rating.

“Os bancos, hoje, estão mais atentos ao cenário de risco. Eles têm um monitoramento da inadimplência para evitar um possível calote. Então, caso começar a piorar a inadimplência, usam a provisão para se proteger”, disse o analista, para emendar: “O cenário hoje não é dos melhores para dar crédito no país”.

Parte do pessimismo se deve aos juros altos, à inflação em disparada e à piora da economia, que poderá resultar em aumento do desemprego já a partir de 2015. “Nos últimos meses, houve uma elevação importante da taxa de juros no crédito. Como existe uma correlação entre taxas de juros e inadimplência, é natural que os bancos estejam mais rigorosos porque os próximos meses podem ser ainda piores”, observou a economista Mariane Hanson, da Confederação Nacional do Comércio (CNC). Hoje, a inadimplência está relativamente comportada, em 6,49% das carteiras. Mas, no mercado financeiro, a aposta é de que o nível volte a subir nos próximos meses.

Em junho, as taxas de juros cobradas das famílias atingiram o maior patamar desde 2012, segundo o Banco Central, chegando, em média, a 43% ao ano. Uma fatura pesada, mas ainda melhor que a de quem recorreu a linhas emergenciais, como o cheque especial. Nessa operação, a taxa média chegou a 171,5% ao ano.

Ao mesmo tempo, a inflação seguiu em disparada, engolindo a renda das famílias. Nos últimos 12 meses, até julho, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o parâmetro oficial do custo de vida no país, avançou 6,5%, alcançando o teto da meta definida pelo governo — de 4,5%, com tolerância de dois pontos para baixo ou para cima. Para piorar, o brasileiro já não tem mais espaço para se endividar. Até março, o comprometimento de renda das famílias chegou a 45,73% — há apenas cinco anos, em 2009, essa parcela era de 35,41%.

Não por outro motivo, diz a economista da CNC, os bancos botaram o pé no freio. “Os bancos trabalham olhando sempre para o futuro. Por isso, estão aumentando as provisões e reduzindo as linhas de crédito de maior risco, que podem vir a dar problemas caso a situação econômica piore ainda mais”, avaliou.

Futuro incerto

O medo de calote é tamanho que estão sendo barrados até mesmo empréstimos a quem não tem histórico de mau pagador. O secretário Raphael Emanuel Tavares, 32 anos, teve o pedido de um cartão de crédito de loja negado em duas ocasiões recentemente. “Não me informaram muita coisa. Apenas que meu CPF (Cadastro de Pessoa Física) não atingiu o limite necessário de scoring (pontuação)”, reclamou.

O Sistema scoring, utilizado pela maioria das instituições financeiras nas análise de crédito, está cada vez mais rigoroso. Sem transparência, a ferramenta gera constrangimentos para diversos consumidores, mesmo para aqueles não estão inadimplentes. Rafael garante que a renda mensal de R$ 1 mil não está comprometida com débitos em atraso. “Nunca tive cartão de crédito nem peguei empréstimo. Sempre fiz pagamentos em débito e dinheiro”, disse.

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