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Acúmulo de problemas » Situação crítica do setor elétrico inibe produção industrial

Agência O Globo

Publicação: 04/08/2014 11:37 Atualização:

A forte seca que está reduzindo drasticamente o nível dos reservatórios tem feito as geradoras de energia hidrelétricas acumularem perdas bilionárias neste ano, por estarem produzindo menos energia do que o previsto. Estimativas feitas pela consultoria Safira Energia a pedido do GLOBO dão conta que o gasto extra deve chegar a R$ 15,83 bilhões em 2014, dos quais cerca de R$ 7,86 bilhões entre agosto e dezembro. Especialistas advertem que a situação crítica do setor elétrico - com a forte estiagem e as mudanças regulatórias - inibe os investimentos, não só na expansão do próprio setor, como em outras atividades, aprofundando a queda da atividade industrial.

Como as geradoras têm produzido menos energia do que a contratada, elas precisam recorrer ao mercado à vista de hidrelétricas e termelétricas com energia excedente para comercializar - com preços em alta - para cumprirem seus contratos. O nível dos reservatórios continua baixo, e as usinas térmicas, que têm uma energia mais cara, precisam continuar operando a plena carga. Segundo a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), o valor do megawatt/hora (MWh) está em R$ 817,53 esta semana, perto do teto estipulado pelo governo. Na semana passada, o preço era R$ 593,73. O nó do setor elétrico atinge também as distribuidoras que têm sido obrigadas a comprar parte da energia no mercado livre. Os gastos maiores das distribuidoras já vêm sendo repassados aos consumidores, que vão pagar uma conta ainda mais alta a partir de 2015.

O contrato de concessão com as geradoras envolve o risco do negócio, por isso não há ajuda do governo, como nas distribuidoras, que receberam empréstimos de R$ 11,2 bilhões em abril e vão contar com mais R$ 6,5 bilhões.

De acordo com a Safira Energia, a exposição das geradoras ao mercado à vista se agravou nos últimos meses: em junho foram 3.619 MW médios produzidos a menos pelas hidrelétricas que tiveram que ser comprados pelas geradoras no mercado à vista. Isso representou custo adicional de R$ 1,04 bilhão. Em julho,o custo foi de R$ 1,93 bilhão. Segundo projeções da consultoria, agosto será o mês mais crítico: a exposição das geradoras somando despesas extras chegará a R$ 2,46 bilhões.

“A situação das geradoras começou a se agravar em fevereiro, quando a seca reduziu o nível dos reservatórios, elevando os preços da energia no mercado livre, que atingiram o teto máximo de R$ 822 o MWh”, lembra Mikio Kawai, diretor executivo da Safira Energia.

O presidente da Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica (Abrage), Flávio Neiva, diz que a exposição das geradoras no mercado à vista varia mensalmente. Ele lembra que já chegou a cerca de R$ 2 bilhões em um mês e atualmente está em torno de R$ 1,8 bilhão. Neiva afirmou que as quatro principais associações que reúnem as geradoras de energia hidrelétrica (Abrage, Abiape, Apine e Abragel) estão fazendo um levantamento para avaliar a situação das empresas e apresentar ao Ministério de Minas e Energia e à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

O executivo afirma ainda que há algumas geradoras que vendem sua energia no mercado livre, pois não renovaram seus contratos de concessão com base na Medida Provisória 579 de 2012, como Cemig, Cesp e Copel, entre outras. A regra permitiu a antecipação da renovação das concessões a vencer das empresas do setor elétrico, em troca de redução na tarifa de energia.

“Estamos esperando a liquidação (contabilização) de maio e vamos quantificar a extensão do problema para conversar com o governo sobre o que pode ser feito. As empresas que estão positivas (vendendo energia) não precisam de empréstimo. É preciso ver uma solução para garantir a continuidade e normalidade do mercado”.

Na opinião de Charles Lenzi, presidente da Abragel, que reúne as companhias de geração de energia limpa, as geradoras têm que arcar sozinhas com os custos da energia, não podendo repassar para as tarifas o custo extra, o que ocorre no caso das distribuidoras.

“As distribuidoras pagam mais agora, mas recebem no ano seguinte, após a revisão tarifária. No caso das geradoras, isso não ocorre. Por isso, vamos apresentar o estudo para o governo em meados de agosto. É preciso rever o modelo”, diz.

Para Luiz Fernando Vianna, presidente da Apine, dos produtores independentes, o setor vive uma fase delicada. Ele confirma que, por conta do risco de seca, os custos para as geradoras neste ano devem ficar acima dos R$ 15 bilhões. O contrato de concessão com as geradoras envolve o risco do negócio, por isso não há ajuda do governo, como nas distribuidoras.

A AES Tietê afirmou, em seu relatório, que terá de comprar este ano de 800 GWh a 1.000 GWh de energia no mercado de curto prazo para cobrir sua exposição. Com tal previsão, o impacto negativo líquido esperado em 2014 pode ser de R$ 350 milhões a R$ 500 milhões", informou. Já a CPFL ressaltou que "comprou energia para entrega a partir do segundo trimestre". Segundo especialistas, a maioria dos grandes geradores, principalmente as empresas do grupo Eletrobras, está recorrendo ao mercado à vista: Furnas confirmou ter uma exposição de 200 MW. A maior parte das geradoras de energia do país, aliás, é de estatais.

Mas um possível socorro às geradoras é motivo de polêmica entre os especialistas. Kawai, da Safira, é contra o governo socorrer as geradoras assim como fez com as distribuidoras:

“O mercado de geração é bem competitivo e livre. Portanto, as geradoras estatais ou privadas, se optaram por vender um volume tal da energia que têm, assumem o risco. Sou contra qualquer auxílio do governo federal para salvar as geradoras.”

O analista da RC Consultores Marcel Caparoz explica que o problema enfrentado pelas distribuidoras alcançou as geradoras porque o consumo continua maior em relação à oferta, obrigando a geração termelétrica a operar a pleno vapor, o que eleva os preços no mercado à vista:

“Essa situação diminui a confiança no setor elétrico, e inibe os investimentos. O empresário não sabe quais as condições futuras que vai enfrentar quando seu negócio ficar pronto e entrar no mercado. O intervencionismo estatal e as mudanças de regras dificultam os grandes agentes. Isso está acontecendo no setor elétrico e em toda a economia.”

A curto prazo, segundo o economista da RC Consultores, a única solução é chover para permitir o aumento da geração de energia hidrelétrica:

“Só assim vão conseguir cumprir contratos. Como acho que não vai chover o suficiente, vai ter que ter algum tipo de socorro para as geradoras, para não estressar mais o fluxo de caixa das geradoras.”

Para o professor Edmar de Almeida, do Grupo de Economia da Energia do Instituto de Economia da UFRJ (GEE-UFRJ), o governo federal provocou desorganização econômica no setor a partir da renovação das concessões de geração:

“Enquanto o mercado livre estiver com o preço da energia tão alto como agora, ocorre uma violenta transferência de recursos de uns agentes para outros. Alguns estão ganhando muito dinheiro e outros estão perdendo muito, e quem vai pagar por tudo isso é o consumidor.”

Segundo o professor, além de ter "que se rezar para chover", a única saída para evitar a desorganização total do setor é o consumo mais consciente de energia

Três problemas

A situação vivida pelo setor elétrico é uma combinação de três problemas: interferência política, falta de chuvas e atrasos em investimentos. O início foi em 2012, quando o governo decidiu forçar uma queda no preço da energia para famílias e empresas, com a edição da Medida Provisória 579. Em 2013, o país começou a sofrer falta de chuvas e aumento de consumo - em parte incentivado pelo governo com preço da tarifa menor, redução de tributos sobre eletrodomésticos e o programa "Minha Casa Melhor", para equipar de eletrodomésticos os imóveis do "Minha Casa, Minha Vida". Para piorar, diversas obras do setor elétrico estão atrasadas.

Para dar conta da demanda, foi ampliado o uso de usinas termelétricas, que têm custo de geração de energia mais alto que o das hidrelétricas. Neste ano, a estiagem ficou mais forte, e os reservatórios de algumas hidrelétricas chegaram aos piores índices desde o racionamento de 2001.

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