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Alerta a clientes » Caso do Santander vira debate político

Correio Braziliense

Publicação: 29/07/2014 09:00 Atualização:

A decisão do banco Santander de demitir os responsáveis por um texto divulgado a clientes na semana passada, com o alerta de que uma eventual vitória de Dilma Rousseff teria efeitos negativos na economia, em vez de acalmar os ânimos, engrossou ainda mais a pauta econômica da corrida ao Palácio do Planalto - confirmando que, a menos de três meses das eleições, o mercado financeiro entrou de vez no debate eleitoral.

Ontem (28), a própria presidente ameaçou tomar atitudes mais duras contra a instituição que, segundo ela, interferiu de maneira “inadmissível” no sistema político. Pressionado, o banco já havia se desculpado publicamente na sexta-feira (25). Além disso, executivos se apressaram a entrar em contato com autoridades para negar que o informe, incluído no extrato bancário de clientes com salário superior a R$ 10 mil, estivesse em sintonia com o pensamento do Santander.

No sábado (26), em evento no Rio de Janeiro, o presidente da instituição, o espanhol Emilio Botín, afirmou que “um analista enviou o informe sem consultar quem deveria”. Era a confirmação prévia das demissões. Durante o fim de semana, militantes se digladiaram nas redes sociais, inclusive com petistas propondo um boicote ao Santander. O presidente do PT, Rui Falcão classificou o caso como “terrorismo eleitoral”. Ontem, em entrevista a veículos de comunicação, a própria presidente fez questão de manter alta a temperatura em torno do episódio.

Dilma deixou respostas em aberto, mas partiu para o ataque. Definiu o pedido de desculpas do Santander como “protocolar” e adiantou que adotará “posição clara” em relação ao banco, sem descartar a possibilidade de processá-lo. “A pessoa que escreveu a mensagem fez isso sim (interferência na atividade eleitoral), e isso é lamentável. Isso é inadmissível para qualquer candidato. Seja eu ou qualquer outro”, comentou Dilma, que, apesar de convidada com antecedência, não foi ao III Encontro Internacional de Reitores Universia, organizado pelo Santander.

No Brasil, justamente para participar do evento, Emilio Botín também não contou nem com a presença do vice-presidente, Michel Temer nem com a do ministro da Educação, Henrique Paim. Em um clima muito diferente do programado, coube à assessoria do banco informar que “todas as pessoas (envolvidas no episódio) serão demitidas e que (o caso) ainda está sendo apurado”. Principal adversário de Dilma na campanha, o candidato Aécio Neves (PSDB) criticou a reação do governo. Para ele, o informe do Santander “apenas explicitou o ceticismo dos analistas com a situação da economia”.

Hipocrisia

Equipes técnicas dos bancos se assustaram com a notícia das demissões. No Santander, ninguém ousar falar mais nada. Alguns economistas até concordam que a mensagem trouxe “posicionamento muito forte”, mas reforçam a avaliação quase consensual no mercado financeiro: associar uma eventual reeleição de Dilma a uma piora da economia não era novidade alguma.

Seja por meio de relatórios, seja a partir do comportamento da Bolsa, investidores manifestam essa convicção desde que as pesquisas eleitorais começaram a ser divulgadas. Todas as vezes em que as sondagens mostraram o enfraquecimento da presidente, as ações subiram. Quando ocorria o contrário, o mau humor voltava.

A decisão de demitir analistas não agradou ao presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon), Paulo Dantas, que soube da notícia quando estava em viagem à Alemanha. “O teor da análise divulgada aos clientes de um banco estrangeiro foi absurdamente inoportuno pelo momento em que vivemos, mas não justificava demissão alguma. Fiquei bastante preocupado”, disse ao Correio o chefe da entidade responsável por, entre outras atribuições, zelar pelo livre exercício da profissão de economista.

Conselheiro do Cofecon, o economista Júlio Miragaya é outro que discorda das demissões. Ele avalia que o comunicado do Santander transparece um viés político, mas classifica como “hipocrisia” a postura do banco. “Ao demitir, eles quiseram pegar alguém para Cristo. Mas o que os analistas fizeram foi interpretar o pensamento do banco para o qual trabalham”, opina.

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