• (0) Comentários
  • Votação:
  • Compartilhe:

Financiamentos em baixa » Receoso com o futuro, consumidor agora foge do crédito

Correio Braziliense

Publicação: 29/07/2014 08:37 Atualização:

Receoso de perder o emprego e tentando contrair menos dívidas, o consumidor reduziu seu apetite por novos financiamentos ao menor nível em quatro anos. Dados divulgados ontem pela Boa Vista Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC) apontam uma demanda 2,5% menor no primeiro semestre em comparação a igual período de 2013. Ao longo de 12 meses, a queda foi de 1,4%, mas já é a maior da série histórica iniciada em janeiro de 2010.

A inflação, o crédito mais caro e o menor ritmo de crescimento da renda real são como os principais fatores para a freada. “A desaceleração da economia tem minado as expectativas da população, que está cada vez mais cautelosa em relação ao consumo”, explicou Flávio Calife, economista da SCPC.

No comparativo mensal, de junho sobre maio de 2014, a redução foi de 2,2%. E de junho frente ao mesmo mês do ano passado, a queda foi maior: 6,5%. “Não é um dado positivo do ponto de vista de consumo. Mas mostra uma preocupação maior do consumidor, que está procurando a saúde financeira da família”, avaliou.

Esse é o caso do assistente administrativo Antônio Marcos da Cunha, 41 anos. Com quase um terço do orçamento familiar preso pelas prestações de dois móveis e um eletrodoméstico, ele não tem disposição de se endividar mais. Apesar do desejo de comprar um carro, pretende economizar para dar a entrada em dinheiro e só quando acabar os débitos atuais. “Estou enxugando gastos. Há dois meses, a conta do meu cartão de crédito vinha cerca de R$ 500. Reduzi esse valor à metade”, comemorou.

Para os próximos meses, Calife acredita em melhora da demanda, graças ao pacote de R$ 45 bilhões anunciados na semana passada pelo Banco Central (BC), em favor do crédito. “Esperamos que as instituições financeiras fiquem menos rigorosas e possam, eventualmente, reduzir juros para algumas linhas de crédito”, apostou. Analistas do sistema financeiro avaliam que o incentivo tenha impacto moderado a curto prazo, mas seja decisivo para animar as compras de Natal.

O diretor executivo da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel José Ribeiro de Oliveira, pensa diferente. “A liberação de 50% dos depósitos compulsórios não significa, necessariamente, que todos os R$ 45 bilhões serão injetados na economia”, ponderou. Apesar da chance de corte dos juros no varejo, vê calotes em alta no semestre.

“Com inflação acima do teto da meta oficial, juros elevados e sinais de desemprego, há risco maior de inadimplência. Num ambiente assim, os bancos não vão baixar juros e o volume de crédito não deverá ser ampliado”, apostou. Segundo a Anefac, a taxa de juros média geral para pessoa física em junho foi de 101,90% ao ano, a maior desde julho de 2012.
Novos hábitos

Muitos consumidores sequer cogitam usar do crédito. “Cancelei o meu cartão há quatro anos e não sinto saudade alguma”, revelou a telefonista Ana Rosa da Silva, 37. Moradora de Luziânia (GO). Ela planeja encurtar os 60km de distância entre a casa e o trabalho, no Setor Comercial Sul, se mudando para o DF. Mas só após 2017, quando termina o financiamento do carro, comprado em dezembro. “Honro meus compromissos e opto sempre por ter pelo menos metade do meu salário na conta”, afirmou. A renda familiar de R$ 3 mil está comprometida só com as parcelas do veículo (R$ 670) e do seguro (R$ 270), pagos diretamente no banco.

Há também quem sequer tem a opção do crédito. A dona de casa Maria de Fátima Ribeiro, 40, descobriu ontem no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) que está inadimplente. Com três débitos pendentes que somam R$ 3,3 mil — um bancário e dois com contas de celular —, ela estuda formas de limpar o nome, mas prometeu “não mais depender de crédito algum”.
 

Esta matéria tem: (0) comentários

Não existem comentários ainda

Comentar

Para comentar essa notícia entre com seu e-mail e senha

Caso você não tenha cadastro,
Clique aqui e faça seu cadastro gratuito.
Esqueci minha senha »

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.