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Dinheiro » Temor de calote leva instituições financeiras a restringirem empréstimos

Estado de Minas

Publicação: 12/07/2014 08:31 Atualização:

A ameaça de que o país enfrente uma recessão a partir de 2015, com forte queda do emprego e tarifaço de preços administrados, já provoca estragos no sistema financeiro nacional. Diante do risco real de que uma parte de seus clientes entre para a fila do desemprego, bancos privados e até públicos estão reduzindo a oferta de crédito e barrando qualquer tipo de operação com maior risco. De quebra, aproveitaram para elevar as taxas de juros cobradas nos financiamentos a famílias e a empresas, de modo a preservar as margens de lucro numa hipótese de esses empréstimos se tornarem impagáveis.

Após crescer a taxas superiores a 30%, até 2008, a oferta de crédito com recursos livres desacelerou para 5,7%, este ano. Descontada a inflação, que nos últimos 12 meses até junho chegou a 6,52%, significa dizer que o crédito está encolhendo. Para completar, a inadimplência, que atingiu patamares historicamente baixos em 2013, começou a subir este ano. Não por acaso, as famílias que já estavam no aperto têm enfrentado ainda mais dificuldades para conseguir se livrar do cadastro de maus pagadores, conforme mostrou uma pesquisa divulgada ontem pela Boa Vista Serviços.

A recuperação de crédito – medida pelo número de pessoas que conseguiram quitar dívidas não pagas – encolheu 2% no primeiro semestre, na comparação com os seis primeiros meses de 2013. Apenas em junho, a queda foi de 6,5%, um número que apenas corrobora uma tendência de retração do indicador que já dura um ano. Pior para as famílias, que já estão pagando mais caro por empréstimos contraídos este ano, em função da escalada da Selic, que, apesar de ter chegado ao fim em abril, ainda tem provocado estragos no sistema financeiro. Em um ano, a taxa cobrada de quem caiu no cheque especial subiu 25 pontos percentuais. É seis vezes mais do que a alta da taxa básica de juros no mesmo período, que ampliou-se 3,75 pontos entre abril de 2013 e maio.

A fatura a mais no banco fez os brasileiros retirarem recursos guardados na poupança para quitar as dívidas contraídas. No primeiro semestre deste ano, a captação líquida da caderneta (retiradas menos depósitos) despencou 66%, o menor desempenho desde 2011. “Quando você tem uma queda dos depósitos e crescimento dos saques, evidentemente que você pode ter uma parte que está migrando esses recursos para outros investimentos mais rentáveis, como fundos de investimento”, comentou o economista Gilberto Braga, professor de finanças do Ibmec do Rio de Janeiro.

Ele diz que o que tem observado é que boa parte dos brasileiros está sacando dinheiro para pagar as contas do dia a dia, e não para ter rendimento melhor. “São pessoas que compraram demais e adquiriram novos hábitos de consumo. Agora, que a renda está menor, ele vai ter que cortar despesa. Mas, se ele não quiser cortar o iogurte, o requeijão cremoso, ele vai ter que pagar mais caro. Se a renda não acompanha essa intenção de consumo, ele vai torrar da poupança mesmo”, disse.

Vários fatores explicam esse mau momento para o crédito. Entre os principais, os especialistas apontam a desaceleração da massa real de salários; o endividamento elevado das famílias, e a alta do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Financiamentos, só com garantias
Em meio à escalada das incertezas, os bancos colocaram o pé no freio. Em conversas reservadas, os executivos das principais instituições financeiras dizem que a ordem que impera nas agências é emprestar apenas para clientes que apresentem garantias de pagamento. Não por acaso, até maio, sete de cada 10 operações bancárias contabilizadas pelo BC foram empréstimos consignados, modalidade em que as parcelas do financiamento são descontadas diretamente da folha de pagamento.
“Os bancos estão olhando com lupa para quem vão emprestar dinheiro, porque sabem que o cliente que está empregado hoje, e que tem capacidade de pagar, pode amanhã estar na fila do desemprego, o que invariavelmente o levará a não conseguir honrar com o financiamento contraído”, assinalou André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos.
FAMÍLIAS NA MIRA Diante da maior cautela, o BC teve de revisar as estimativas de crescimento da oferta de crédito. A modalidade com recursos livres, justamente a que as famílias utilizam para comprar bens mais caros como carros, geladeiras e equipamentos eletrônicos, deverá registrar a menor expansão. O crescimento antes estimado em 10% para 2014 foi revisado para 7%, no início de junho.
Quem mais deve contribuir para essa desaceleração são as instituições privadas, que estão assustadas com o quadro econômico a partir de 2015. A estimativa é que elas ampliem o volume de crédito este ano a um ritmo de 6%, abaixo, portanto, da previsão de alta da inflação até dezembro, de 6,47%. Até março, quando o BC fez a primeira projeção desse tipo para o ano, a aposta era de uma alta de 9%.
FALTA OTIMISMO Para o economista-chefe da Boa Vista Serviços, Flávio Calife, o cenário mais restritivo para o crédito se deve a um pessimismo generalizado com a economia e com as mudanças que o governo deverá por em prática a partir de 2015, seja qual for o candidato escolhido para comandar o país nos próximos quatro anos. “A gente está num momento em que alguns ajustes vão ocorrer, então isso faz com que todo mundo fique mais cauteloso. Com os banqueiros, não seria diferente”, disse.
Calife acredita que os reajustes já previstos nos preços administrados pelo governo, como água, luz, tarifas públicas e combustíveis, ditarão o tamanho do esforço que será feito em 2015. A isso, emendou o economista, somam-se outras pressões, como nas contas públicas, que deverão também passar por um saneamento, e também o menor desempenho do Produto Interno Bruto (PIB), em função da arrumação que o país enfrentará ano que vem. “A expectativa que a gente tem para 2015 é ainda pior do que para 2014, em função, sobretudo, da quantidade de mudanças que necessárias para resolver todos os problemas da economia”, disse. “Ou seja”, emendou Gilberto Braga, “o brasileiro vai continuar pagando caro por empréstimos por um bom tempo”, assinalou.

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