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Remédio amargo » Para especialistas, elevação de juros não resolve problema da inflação

Correio Braziliense

Publicação: 23/06/2014 08:45 Atualização:

As últimas duas semanas foram marcadas pela deterioração das expectativas quanto ao crescimento. Já eram ruins as previsões anteriores, e elas caíram ainda mais. Há um mês, o Boletim Focus, do Banco Central (BC), apresentava a estimativa do mercado de alta de 1,62% para o Produto Interno Bruto (PIB), bem abaixo da média esperada para a América Latina, de 2,7%. Na semana passada, porém, as apostas já estavam em 1,24%, com perspectivas de queda da produção no segundo trimestre do ano.

Mesmo assim, a inflação não cede. A estimativa do Focus para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) neste ano está em 6,46% —  eram 6,43% há um mês. Há quem fale em estouro do limite de 6,5%, o teto da meta, dois pontos acima do centro. O mais intrigante é que isso ocorre apesar de o Brasil ter uma taxa básica de juros de 11%, uma das mais altas do mundo.

O início do último ciclo de altas foi em julho do ano passado, quando a taxa subiu de 8% para 8,5%. No princípio, houve recuo no acumulado do IPCA. Mas, neste ano, mesmo com novas doses de altas, a inflação não parou de subir (leia quadro). Para especialistas, a razão disso é impotência do BC para fazer frente à alta do custo de vida sem contar com a ajuda de outros setores do governo. “A política monetária é como um antibiótico. Não adianta o doente achar que vai se curar se não tiver cuidados, incluindo tomar outros remédios prescritos. Se não fizer o que é necessário, o antibiótico acaba ficando cada vez menos eficiente”, explica o economista Claudio Porto, presidente da consultoria Macroplan.

Um dos pontos mais atacados pelos críticos é o excesso de gastos do governo. O Banco Central tem dito, por meio de seus documentos, que a política fiscal é neutra: não ajuda nem atrapalha. “Isso é controverso”, questiona a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif. “Mas, mesmo que fosse neutra, não bastaria. Tem de ser contracionista para fazer frente aos equívocos que resultaram no aumento da inflação”, afirma.

Técnicos do Ministério da Fazenda argumentam que, num ambiente de queda do crescimento, a manutenção da meta de superavit primário em 1,9% do PIB já tem um viés contracionista. O Ministério não se dispôs a comentar, porém, as críticas do mercado. O BC tampouco se manifestou ao ser procurado.

Artifícios

O problema é que há muitas dúvidas sobre a validade do resultado primário (antes do pagamento de juros) apresentado pelo governo, considerando os vários artifícios contábeis usados nos últimos anos. Para o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, a conta real está perto de zero. Na avaliação de Zeina, o problema não está só no orçamento fiscal, mas também, e sobretudo, no parafiscal, considerando os empréstimos de bancos públicos a determinadas empresas. “Não sou contra políticas setoriais, mas tem de haver transparência quanto aos objetivos e resultados. Além de criar assimetrias, esse tipo de incentivo, uma vez implantado, é muito difícil de ser desfeito”, comentou.

O efeito dos gastos públicos está no estímulo da demanda, o que, quando há limitação de oferta, resulta em preços maiores. Mas não é só isso. Cria-se também um ruído na ideia de que o governo trabalha de modo integrado na defesa da estabilidade econômica e, em política econômica, uma grande parte do trabalho está na coordenação das expectativas.

Para o economista Toni Volpon, diretor executivo e chefe de Pesquisas para Mercados Emergentes das Américas da Nomura Securities International em Nova York, o estrago nesse esforço de coordenação já está feito. “As expectativas ficaram desancoradas. Criou-se uma dinâmica que bloqueou um canal muito importante da política monetária. Isso é o que está impedindo a potência das ações do BC”, explica.

Divergência

Assim como Zeina, Volpon aponta a área parafiscal: “Os bancos públicos continuam estimulando o crédito na economia, fazendo contrário dos bancos privados. Há uma enorme divergência. Os juros estão em 11%, mas os bancos estatais atuam como se estivesse em 9%”. Para Volpon, o risco de a inflação romper o teto da meta neste ano pouco importa. “O problema não é a inflação estar em 6%, ou 6,5%, mas sim, que vigora um sistema segundo o qual a inflação deveria estar em 4,5%. O descumprimento é danoso para a expectativa do empresariado e mina a confiança no governo. Isso não chega a criar uma grande instabilidade, mas causa uma deterioração que acaba gerando prêmios de risco cada vez mais altos, danosos ao crescimento da economia”, analisa.

O Brasil vive a situação aparentemente paradoxal de baixo crescimento econômico e inflação crescente — é mais fácil de entender quando uma economia aquecida leva a preços mais altos pelo fortalecimento da demanda. Na raiz dessa contradição, está a piora das expectativas: empresários não acreditam que o governo conseguirá limitar os preços, então remarcam preventivamente para não ficarem reféns dos aumentos de custos. E evitam investir, por não acreditarem que o risco será recompensado. Com isso, o crescimento deixa de ocorrer, a oferta fica estagnada e qualquer incremento na procura por produtos e serviços, ainda que pequena, pressiona os preços.

A falta de investimentos afeta o parque produtivo, mas também a infraestrutura. “A cada ano, há aumento de gargalos no Brasil”, alerta a economista Sandra Utsumi, diretora de Renda Fixa para a Europa do Espirito Santo Investment Bank. Além da ineficiência nos transportes e na telefonia, ela aponta para outro problema que perpassa todos os setores: a precariedade da educação básica. Assim, apesar de populoso, o país tem poucas pessoas qualificadas. “Quem tem boa formação consegue melhores salários. E, com uma renda maior, se dispõe a pagar mais por produtos e serviços, alimentando a inflação”, explica. “O Brasil está caro, e não apenas em comparação com os países emergentes. Portugal e Espanha, por exemplo, estão ficando mais atraentes para os investidores”, compara.

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