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Descontrole inflacionário » Indexação resiste e realimenta carestia

Correio Braziliense

Publicação: 02/06/2014 09:00 Atualização:

IGP-M, INPC, IPCA, INCC, salário mínimo. Depois de quase 20 anos do Plano Real, a economia brasileira ainda não conseguiu se libertar dos reajustes de preços baseados em índices econômicos. É o fenômeno da indexação, que pode ser mais facilmente percebido quando o custo de vida se torna persistentemente alto, acendendo a memória inflacionária do país. Essa herança ruim dos tempos de hiperinflação continua presente na economia porque boa parte dos valores usados no dia a dia, é indexada, desde o aluguel até a mensalidade escolar.

O impacto desse mecanismo pesa mais forte no bolso do consumidor quando o custo de vida se afasta do centro da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), atualmente de 4,5% ao ano. Nessa situação, passa a ser mais comum calcular os reajustes de produtos e serviços com base no período anterior, alimentado um ciclo econômico ruim. “A indexação é um componente de nossa inflação que traz a memória para o futuro. Os preços aumentam hoje porque subiram ontem. É uma inflação que pode ser também de expectativa”, explica Virene Roxo Matesco, professora de MBA em Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV). A cultura da indexação é defensiva e forte no país que, ao longo de muitos anos, desenvolveu mecanismos para lidar com a pressão dos preços. “Esse tipo de inflação é muito ruim. Ela acontece também quando um segmento passa a fazer reajustes por prevenção porque tem a expectativa de que os custos vão subir.”

Sopa de letrinhas

Os indicadores econômicos são muitos no Brasil. O Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), por exemplo, é bem conhecido da população porque é utilizado na correção de contratos de aluguel. O Índice Geral de Preços Disponibilidade Interna(IGP-DI) é referência para a dívida pública. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) é usado em campanhas salariais.

O vice-presidente do Conselho Regional de Economia de Minas Gerais (Corecon-MG) e professor da PUC-Minas, Pedro Paulo Pettersen, destaca que, a rigor, a economia brasileira nunca deixou de ser indexada. “As dívidas dos estados foram renegociadas com base no IGP-DI. O próprio salário mínimo, que tem grande impacto na folha do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e nas remunerações de categorias como a dos trabalhadores domésticos, também é usado como referência.”

Ele destaca que a indexação se tornou uma ferramenta de proteção contra alta dos preços e, contraditoriamente, fomenta a inflação. Um dos riscos da economia indexada, segundo Pettersen, é ela se tornar resistente aos choques do Banco Central, que eleva a taxa de juros para segurar o ímpeto do custo de vida.

Virene Matesco, da FGV, aponta que, ao atrelar o salário mínimo a um indexador (IPCA mais o crescimento do PIB), o governo disseminou a indexação ainda mais. “Isso é uma memória inflacionária que desejamos romper.” Ela lembra que, com maior ou menor intensidade, o mínimo influencia grande parte da economia, até preços livres, como os de mensalidades escolares, alimentos, roupas e lazer.

Ferramenta social

A política de valorização do salário mínimo reduziu as desigualdades sociais. Mas deve mostrar nova trajetória nos próximos anos, quando for revisada em 2015, e reduzir a indexação da economia. Para o economista e professor da Universidade de Brasília (UnB) Roberto Piscitelli, a partir de 2016, o reajuste do salário mínimo deve adotar uma fórmula “menos amarrada”, assim como deve ocorrer redução gradual da meta inflacionária.” Ele aposta que a tolerância em relação ao centro da meta deve ser reduzida de 2 para 1,5 ponto percentual a partir de 2016. “O país não é o paraíso que o governo diz, nem o inferno que a oposição pinta.”

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