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FMI » Emergentes não devem contar com ricos para conter turbulência

Agência O Globo

Publicação: 11/04/2014 16:56 Atualização:

Os países emergentes devem erguer e contar com seus próprios escudos para se protegerem de turbulências financeiras provocadas pelo fim gradual dos estímulos que o banco central dos EUA, o Federal Reserve (Fed), tem oferecido à economia americana nos últimos anos. Os efeitos colaterais do processo, chamado tecnicamente de normalização da política monetária, está no cerne das preocupações do Fundo Monetário Internacional (FMI) com as nações em desenvolvimento, pelo seu potencial de gerar volatilidade nos mercados, acentuar desequilíbrios internos e desacelerar o crescimento.

O Fundo recomenda mais coordenação global entre os bancos centrais para mitigar danos. Mas as nações ricas têm sido explícitas na posição de que mantêm seu foco em riscos e necessidades domésticas.

"Sei que isso (a política monetária expansionista americana) é desconfortável para várias economias no mundo. Há efeitos sobre nós também. Obviamente tentamos estar atentos aos efeitos que a política dos países emergentes têm na nossa economia e aqueles que a nossa política tem na economia deles. Mas nosso mandato e nossa responsabilidade são com os EUA", afirmou ontem Charles Evans, presidente do Fed de Chicago, umas das 12 instituições que compõem o sistema monetário americano.

Mais direto impossível, o comentário de Evans foi uma resposta franca às observações do presidente do banco central da Índia, Raghuram Rajan, principal palestrante de uma mesa redonda sobre o tema no Brookings Institution, em Washington.

Ao lado ainda do presidente do Banco Central do Brasil, Alexandre Tombini, e do vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), Vitor Constancio, o indiano defendeu que os custos das políticas monetárias expansionistas dos EUA e da União Europeia já superam os benefícios.

Os alicerces das políticas monetárias expansionistas são taxas de juros próximas de zero e ampla injeção de recursos dos bancos centrais na economia, por intermédio da compra de ativos (o chamado quantitative easing). Ao garantirem liquidez e baixo custo, os bancos centrais esperam reabrir canais de crédito, impulsionando as economias ricas. No entanto, a ação aumenta a atratividade de mercados emergentes, que têm juros mais elevados e perspectivas melhores de retorno sobre os investimentos. Isso os inundou de dólares nos anos recentes.

Na retirada dos estímulos, os ricos voltam a ser atrativos e os investidores ficam mais seletivos quanto aos investimentos nos emergentes, dando mais importância aos problemas econômicos que enfrentam. Desde maio de 2013, quando os EUA anunciaram sua intenção, o mercado tem retirado recursos dos emergentes em grandes volumes, provocando rápido aumento do custo de financiamento e rolagem de dívidas e desvalorizações bruscas das moedas locais. Brasil, Índia, Turquia, Indonésia e África do Sul são consideradas cinco das economias emergentes mais frágeis perante às turbulências provocadas pela normalização tocada pelo Fed.

Para Raghuram Rajan, as políticas expansionistas, ainda que tenham gerado resultado inicial, estão criando distorções na economia global. Do lado dos emergentes, para conter os desdobramentos de grandes fluxos de capitais, estaria estimulando medidas contraproducentes, como travas à demanda doméstica, intervenções na taxa de câmbio e grande acumulação de reservas. Do lado dos ricos, incentivaria a tomada excessiva de riscos, mascarando possíveis bolhas.

"Precisamos avaliar (as decisões de) política monetária à luz dos efeitos agregados de longo prazo para o mundo (...) Estamos sendo empurrados a uma competição expansionista, e isso não é bom. Estamos criando fragilidades financeiras para além de nossas fronteiras (...) Defendo que os países ricos, ao decidirem a saída das políticas expansionistas, levem em consideração os efeitos colaterais imediatos sobre os países emergentes e as reações que provocam. Que (os ricos) aceitem incorporar esses efeitos aos seus mandatos (...) e que comuniquem claramente esta preocupação", defendeu o presidente do BC indiano.

Para Vitor Constancio, do BCE, ao se concentrar nos efeitos colaterais das políticas expansionistas, Rajan, que foi economista-chefe do FMI, minimiza o impacto positivo da ação.

"O que teria acontecido com as economias avançadas sem a adoção dessas políticas depois de 2009? Acho que o mundo estaria pior do que está hoje. E ainda há uma capacidade ociosa grande nas economias avançadas, além de desemprego elevado, ao contrário dos emergentes. Neste contexto, o que deveria acontecer em termos de coordenação é que os países ricos trabalhem para fortalecer sua demanda doméstica e os emergentes aceitem alguma valorização cambial", defendeu Constancio.

Evans, do Fed, concorda. "Gostaríamos de cooperar o máximo que pudermos. Mas se formos levados à uma experiência de inflação muito baixa, indicativo de demanda fraca e desemprego alto, não estaremos fazendo bem a nenhum país. Quando estamos fortes, e também Europa e Japão estão, é bom para todo mundo", afirmou Evans.

Rajan considera injusta e prejudicial à economia global a mensagem de que "os países ricos vão fazer o que têm que fazer e aos emergentes cabe ajustar-se porque tem mais espaço de ação" - que ele observa mesmo nos relatórios e documentos divulgados esta semana pelo FMI. O Fundo realiza encontro de Primavera até domingo, em conjunto com o Banco Mundial. Ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais se reúnem desde ontem para debater estas e outras questões.

Presidente do Banco Central do Brasil, Alexandre Tombini acredita que os emergentes devem recorrer a instrumentos próprios para fazer frente às turbulências, pois a coordenação entre países ricos e em desenvolvimento está longe no horizonte.

"O pensamento de Rajan é muito instigante e eu compartilho algumas de suas preocupações. Políticas monetárias expansionistas salvaram o mundo, mas depois de um tempo, deve-se considerar os efeitos colaterais. Os emergentes são especialmente afetados, e quanto mais tempo estas políticas permanecem, mais difícil fica sair delas (...) Mas eu sou cético quanto à possibilidade de cooperação integral no plano internacional", afirmou o brasileiro.

Para Tombini, não há "muita novidade" nos efeitos colaterais observados até agora, em relação a outros momentos nos quais houve mudança significativa de políticas em países ricos. O Brasil, disse, aprendeu a lidar com volatilidades do ciclo financeiro, usando como arma a criação de colchões de amortecimento de choques externos nos períodos de bonança. Antes do estouro da grande crise de 2008, o país aproveitou para fortalecer as reservas internacionais, "isolar" a política monetária brasileira e ter maior controle sobre a liquidez doméstica (para evitar pressões inflacionárias e a geração de bolhas de ativos).

Após a quebra do Lehman Brothers e da adoção das políticas monetárias expansionistas pelos países ricos, Tombini reconheceu que o trabalho do BC ficou mais difícil, pois o volume de dólares entrando no Brasil aumentou muito. As operações para acúmulo de reservas não foram mais suficientes e o caminho escolhido foi a implementação de medidas macroprudenciais para limitar a expansão do crédito no mercado, calibrar o fluxo de capitais e aumentar o muro de contenção.

"Construímos um colchão que ajuda neste momento de normalização da política monetária americana", afirmou Tombini.

O economista Eswar Prasad, do Brookings, acha pertinente a preocupação dos países emergentes. Mas observa que a discussão revela que as políticas monetárias são as únicas ferramentas sendo utilizadas hoje no mundo - rico e em desenvolvimento - para lidar com a necessidade de proteger as economias da instabilidade financeira e de retomar crescimento vigoroso.

É uma referência à enorme lista de reformas e ajustes que são recomendados para os EUA, a Europa, o Japão e os países emergentes, reunindo desde consolidação fiscal de médio e longo prazos até investimentos pesados em infraestrutura, passando por mudanças em legislações trabalhista e tributária e aperto de regulação bancária, entre muitas outras, de acordo com a natureza dos problemas domésticos enfrentados.

"A questão aqui é se podemos ter coordenação doméstica, entre a política monetária e outras políticas. Os bancos centrais estão tendo que defender os países quando a política fiscal e as políticas estruturais não só não ajudam como estão empurrando em outra direção. Minha preocupação é que, se as demais políticas forem consideradas dadas, teremos banqueiros centrais lutando as batalhas dos políticos, não muito interessados em mover (outras medidas) adiante", ponderou Prasad.

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