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Pesadelo financeiro » Sonhos da nova classe média viram dívidas

Correio Braziliense

Publicação: 24/03/2014 08:36 Atualização:

Da compra do carro em até 72 vezes sem entrada, sobraram apenas os carnês atrasados. Em muitos lares, os bancos já arrancaram os veículos da garagem. Investimentos de microempresários, animados com a onda de um Brasil que estava dando certo, viraram pó. Ou dívidas. Sonhos de reformar a casa ou viajar para o exterior pela primeira vez tiveram de ser adiados. Endividadas e desorientadas pela inflação, as famílias mais pobres e, sobretudo, as da nova classe média levaram um balde de água fria no último ano. É hora, dizem os especialistas, de colocar o pé no chão e ajustar de vez as finanças.

O cenário de crédito farto, juros baixos e consumidores afoitos se desmanchou. Desde o fim de 2010, a expectativa de crescimento da economia perdeu força. A boa onda que levou os brasileiros a comprarem como nunca não se sustentou. “As famílias estão menos empolgadas. Houve uma mudança drástica de perspectiva”, comenta Renato Meirelles, diretor do Instituto Data Popular, responsável por uma pesquisa divulgada na última semana que mostrou como os brasileiros estão pesquisando e se sacrificando mais para pagar as contas.

Alheios aos números e à interpretação deles, os mais pobres perceberam, muito a contragosto, que a vida não seguiu melhorando no ritmo que se esperava. “Afundamos porque acreditamos demais que as coisas continuariam bem. Foi uma ilusão”, desabafa Luzia Maria Araújo Landim, 61 anos. Em três anos, a loja de cortinas dela, em parceria com a irmã, Maria Luiza, 59, foi do sucesso ao que ela mesma chama de fracasso, embora não deixe de acreditar em uma reviravolta. “Tenho esperança, não posso deixar de ter”, comenta a microempresária.

É com saudosismo que ela lembra de 2009, quando investiu pesado na loja, à época na Asa Sul. Em casa, trocou móveis e eletrodomésticos e colocou três carros na garagem, todos financiados sem entrada — um já foi vendido e os outros dois estão com prestações atrasadas. No dia em que o aluguel do estabelecimento triplicou de preço, Luzia decidiu mudar para um espaço menor em Vicente Pires e a confecção passou a ser feita nos fundos da residência onde mora, em Ceilândia. “Perdemos muitos clientes. Não estou vendo muita saída”, lamenta.

Bancos

Para manter a loja aberta, Luzia precisou pedir socorro aos bancos. As dívidas acumuladas com empréstimos chegam a R$ 50 mil. Dois gerentes estão na cola da família. O telefone da casa foi cortado por falta de pagamento. Desde o ano passado, as irmãs suspenderam viagens e pararam de comprar sapatos. “Agora, a batalha é para limpar o nome”, afirma Maria Luiza, sem perder o bom humor. “A gente não entende o que está acontecendo, mas acredita que as coisas vão melhorar. Temos muita fé”, emenda ela, mostrando as imagens de santos espalhadas pela sala.

A inflação intensificou a ressaca da euforia do consumo. “O que estava restrito ficou ainda mais”, sublinha o economista da Fundação Getulio Vargas (FGV) André Braz, referindo-se ao orçamento das famílias mais pobres. Ao cortarem despesas para não aumentar as dívidas, detalha ele, os brasileiros das classes baixas acabam penalizando o básico: os itens de alimentação, justamente os vilões da carestia nos primeiros meses de 2014. “O jeito tem sido comprar menos, colocar mais água no feijão ou comer menos mesmo”, completa o economista.

Juntos há dois anos, quase a idade do filho do casal, os jovens Matheus Alves Cardoso, 18, e Alessandra de Sousa, 16, sofrem as consequências de um entusiasmo não concretizado. “Parece que da noite para o dia, tudo mudou”, diz o provedor da casa, que conseguiu um emprego no dia em que conversou com o Correio. Sem transporte público fácil onde mora, no Condomínio Sol Nascente, a segunda maior favela do Brasil, ele vai encarar 30 minutos de pedalada, durante a madrugada, até o novo local de trabalho, uma fábrica de embalagens.

Com o salário de R$ 770 mensais, Matheus planeja pagar o aluguel de R$ 300 e, com o restante, garantir o sustento da família e quitar as dívidas. A mais incômoda delas é a da televisão de 24 polegadas, que queimou no quarto dia de uso. “Não tinha dinheiro para consertá-la nem para pagar as prestações. Era a televisão ou a comida: escolhi a segunda opção”, conta o jovem. “Peguei um aparelho antigo emprestado da sogra. É uma tevê de tubo ainda e demora uns 10 minutos para aparecer a imagem, mas é melhor do que nada”, pondera ele.

Recorde

Matheus e Alessandra não sabem que a inflação acumulada nos últimos 12 meses está beirando os 6% nem que o endividamento das famílias com o sistema financeiro bateu recorde no fim de 2013, chegando a 45,1% da renda. Mas não têm dúvidas de que a vida ficou mais cara e difícil. “A inflação castiga os mais pobres”, reforça a economista do SPC Brasil Luiza Rodrigues, destacando como o aumento dos preços dos alimentos corrói o poder de compra das classes baixas. Nas casas com renda até dois salários mínimos e meio, o peso dos gastos com alimentação chega a quase 30%.

No último ano, Realino da Silva Ponciano, 64, diminuiu o ritmo das compras e das vendas. Dono de uma loja de materiais de construção em Taguatinga, ele precisou fechar as portas para não ter prejuízo. Os produtos encalhados estão em uma quitinete, que, antes, ele alugava para turbinar a renda. “O dinheiro parou de circular. Depois de tanto alvoroço em torno do consumo, a situação foi dificultando a cada mês”, recorda o empresário e ex-corretor — os compradores de imóvel, diz ele, desapareceram. “Não tenho dívidas, mas também não tenho dinheiro”, finaliza.

Todo cuidado é pouco

Veja algumas dicas para manter as finanças em dia

» Estabeleça prioridades e avalie se a compra de um produto é realmente necessária

» Pesquise e peça desconto sempre, sobretudo se a compra for à vista

» Toda a família deve se sentir responsável pela saúde financeira da casa. É importante anotar gastos e pagamentos

» Defina limites de gastos para cada categoria de despesa e acompanhe a planilha

» Se já estiver endividado, procure o banco ou o estabelecimento para negociar a quitação do débito. Há a possibilidade de parcelamento, a juros menores

» Para fugir da “bola de neve” dos juros, corte despesas — mesmo que momentaneamente — a fim de pagar as dívidas o mais rapidamente possível

» Se há alguma poupança, talvez seja a hora de utilizar ao menos parte dela para quitar ou diminuir eventuais dívidas com cheque especial e o rotativo do cartão de crédito, cujos juros são os maiores do mercado

Fontes: educadores financeiros

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