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Inflação » Dez meses acima do teto da meta

Correio Braziliense

Publicação: 20/03/2014 08:48 Atualização:

Apesar do tom enfático ao rebater as críticas de que o governo está sendo leniente com a inflação e de assegurar que o Brasil não está condenado a conviver com um custo de vida superior ao centro da meta, de 4,5%, definido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, ainda não conseguiu livrar o país da praga da carestia.

Desde que ele tomou posse, há 38 meses, as taxas que medem os reajustes têm se mantido próximo de 6% e, por 10 vezes, a inflação estourou o teto da meta de 6,5%. No momento mais favorável para os consumidores, em junho de 2012, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) cravou 4,92%. Mas não houve tempo para comemorar, devido ao forte encarecimento de produtos e serviços.

Não é à toa que o BC está enfrentando sérias dificuldades para pôr a inflação nos eixos. Mesmo tendo promovido, entre abril do ano passado e fevereiro deste ano, um dos maiores apertos monetários da história, com a taxa básica de juros (Selic) saltando de 7,25% para 10,75% ao ano, a carestia se mantém resistente e as expectativas futuras só pioram. Na média, os analistas ouvidos pela autoridade monetária apostam em um IPCA de 6,11% neste ano. Os mais pessimistas apontam para 6,43%, com a possibilidade de, nos próximos meses, a carestia estourar novamente o teto da meta.

“Os números falam por si. Não adianta discurso agora. O ponto é que o IPCA tem ficado muito acima da meta e levado a inflação a um patamar médio de 6%, que deve ficar durante muito tempo até o próximo choque”, comentou o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale. Ele não descarta que o governo, no próximo ano, anuncie um aumento temporário da meta como fez no passado.

Dada a falta de consistência de suas afirmações, a credibilidade do presidente do Banco Central vem enfraquecendo. De acordo com o economista Felipe Chad, sócio da DX Investimentos, o mercado recebeu as declarações de Tombini com ressalvas. Segundo Chad, o presidente do BC só não tem o mesmo problema de confiança no mercado que o ministro da Fazenda Guido Mantega. Isso porque “é mais reservado e fala pouco”. “Ele é um mero técnico e executor das ordens de Dilma (presidente Dilma Rousseff), que é quem tem as rédeas da política econômica”.

O economista-chefe da Divisão Econômica da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e ex-diretor do BC, Carlos Thadeu de Freitas Gomes, acredita que Tombini está fazendo o que está dentro das suas possibilidades em função da política fiscal expansionista do governo. “O BC teve que calibrar os juros de uma maneira que não fosse exacerbada. Eles caíram muito, talvez um pouco demais, e o órgão não pode logo em seguida subir muito e nem pode porque isso não vai adiantar muito. Hoje quem está determinando mais a expectativa de inflação é a política fiscal. É preciso que o governo dê um sinal bem claro de contenção efetiva de gastos. O mercado está esperando isso”, disse.

Para Carlos Thadeu, só quando o governo der sinais mais contracionistas, a política monetária poderá surtir efeito. “Se ela continuar sendo expansionista, o BC sozinho não conseguirá corrigir o aumento da inflação”, alertou.

Apesar dos esforços de Tombini de tentar convencer os senadores de que o Banco Central se esforça para reconduzir a inflação ao centro da meta, o mercado considera que conter a alta do custo de vida não faz parte da prioridade do governo. “Passou a ser agora porque estamos em um ano eleitoral porque o governo não tem a convicção de que inflação baixa é bom, principalmente, para o mais pobre”, disse Chad. “O governo demorou muito para reagir no aumento dos juros e não fez corte de gastos. A máquina está superinchada e a taxa de juros é o único instrumento que ele tem para segurar a inflação”, emendou.

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