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Política monetária » BC indica que juros ainda vão aumentar

Correio Braziliense

Publicação: 07/03/2014 09:13 Atualização:

Depois de enterrar a promessa da presidente Dilma Rousseff de entregar no fim do mandato o menor juro real da história, o Banco Central indicou que o ciclo de alta da taxa básica ainda não acabou, embora possa estar próximo do fim. Especialistas que analisaram a ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada ontem, esperam pelo menos mais um aperto de 0,25 ponto percentual na Selic. Com isso, a taxa, que foi aumentada para 10,75% ao ano na semana passada, deve subir para 11% em abril, valor superior ao recebido por Dilma ao suceder Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto.

Como já havia feito em documentos anteriores, a diretoria do BC informou que continua preocupada com a inflação. Até janeiro, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) havia acumulado, em 12 meses, uma alta de 5,59%, taxa classificada pela instituição como “resistente” e maior do que a prevista. “Para mim, a sensação é de que vem mais ajuste (de juros) por aí”, disse Mauro Schneider, economista-chefe da CGD Securities.

Os receios da autoridade monetária que justificam a continuidade do processo de elevação da Selic, mesmo que em ritmo menor que o 0,50 ponto percentual que vinha sendo aplicado até janeiro, estão no parágrafo 26 da ata. Nele, o BC explica que “tendo em vista os danos que a persistência desse processo (de inflação) causaria à tomada de decisões sobre consumo e investimentos”, é apropriado manter o aperto monetário em curso.

Em outro trecho, no entanto, a instituição indica que a temporada de aumentos pode estar próxima do fim. O documento lembra que os efeitos do aumento dos juros “são cumulativos e se manifestam com defasagens”. Como é consenso entre os analistas que esse descompasso tem duração de seis a nove meses, boa parte dos ajustes promovido no ano passado começará a ser sentida mais fortemente a partir de agora.

“Estes são elementos que sugerem que o ciclo de alta da Selic não deve se prolongar muito além da próxima reunião do Copom”, observou Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco. “A ata ressalta ainda que a oferta e a demanda agregadas estão se aproximando e que a projeção (de inflação) para 2015 recuou”, argumentou. “O documento deixa dúvidas, mas a probabilidade de encerramento do ajuste aumentou”, acrescentou José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do banco Fator.

Gasolina

A despeito de observar alguma melhora no custo de vida, o BC informou que a previsão para a inflação em 2014 manteve-se relativamente estável, mas acima da meta, de 4,5%, e próxima de 6%. As expectativas para 2015, no entanto, foram revisadas para baixo. A instituição não divulgou as novas projeções, que serão conhecidas apenas no próximo Relatório Trimestral de Inflação, a ser divulgado no fim deste mês.

Na visão do Banco Central, um fator que poderá aliviar o custo de vida são as commodities (produtos básicos com cotação internacional), cujos preços têm aumentado de forma mais moderada. Apesar disso, um indicador da própria autoridade monetária, também divulgado ontem, mostra que esses itens ficaram 4,27% mais caros entre janeiro e fevereiro. Segundo o Índice de Commodities Brasil, os responsáveis pela elevação foram os produtos agropecuários, que subiram 5,77% no período, e os usados para produzir energia, com alta de 3%. Na prática, os números indicam que em algum momento gasolina, gás e alimentos ficarão mais caros para o consumidor, caso o processo não seja revertido.

Por isso, a despeito do otimismo dos diretores do BC, Schneider, da CGD Securities, mantém previsão de que o IPCA terminará este ano em 6,2%, perto o teto da meta, de 6,5%. “Não vejo motivos para reduzir essa projeção. Ela reflete as condições mais desfavoráveis para reduzir a inflação”, afirmou. “Desacelerações momentâneas dos índices de preços não mudam esse cenário, que está ligado aos fundamentos da economia. Hoje, há mais risco de alta da inflação do que o contrário”, analisou.

Gastança

Segundo o economista, a persistência das taxas elevadas do custo de vida, mesmo depois de altas seguidas da Selic, que passou de 7,25% ao ano em abril do ano passado para 10,75% em fevereiro último, não pode ser encarada como um problema apenas do Banco Central. Para ele, o Ministério da Fazenda não tem facilitado a missão da autoridade monetária, já que os gastos crescentes do setor público têm funcionado como combustível para a carestia. “Independentemente do que o BC faz no momento, há uma política fiscal que emite sinais, na melhor das hipóteses, dúbios”, disse.

Na visão dele, ao apresentar a meta de superavit primário equivalente a 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2014, a Fazenda, momentaneamente, convenceu o mercado de que o governo estava disposto a dar uma guinada na gastança. Porém, a decepção veio rápido, com a divulgação dos dados de janeiro, que ficaram abaixo da expectativa. “Além disso, os preços dos combustíveis estão reprimidos, o custo da eletricidade aumentou e há uma série de outros fatores que jogam contra o trabalho do Banco Central”, alertou.

Para André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, a decisão do BC de reduzir o ritmo de aperto monetário de 0,50 ponto percentual para 0,25 entre janeiro e fevereiro foi “desastrada”. Ele explicou que a mudança não ajudou a ancorar as expectativas de inflação em patamar mais próximo do centro da meta, de 4,5%. “Não sou adepto de homeopatia. O melhor teria sido subir a Selic em 0,50 ponto percentual”, defendeu. “O BC deixou tudo em aberto e não conseguiu comunicar nada concreto.”

No front externo, o BC chamou a atenção para o desempenho econômico dos mercados emergentes, Brasil incluído. Em um trecho da ata, a instituição destaca que o crescimento dessas economias está aquém do esperado. Em contraponto, a atividade global está mais intensa em países desenvolvidos. O documento lembra ainda que há evidências de tensão e volatilidade nos mercados, o que pode ser observado no sobe e desce das cotações de moedas frente o dólar.

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