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Expansão » Aumenta o número de pessoas migrando para o interior do país Problemas das grandes cidades acabam levando profissionais a buscar os municípios menores, revertendo fluxo migratório

Estado de Minas

Publicação: 03/03/2014 11:47 Atualização:

As grandes metrópoles estão começando a perder o encanto aos olhos dos brasileiros. Animados com a expansão do crescimento rumo ao interior do país, e com a consequente melhoria das condições de vida fora do eixo central , e desanimados com a violência, o trânsito ruim, a necessidade de vencer longas distâncias e o alto custo das despesas no dia a dia dos centros urbanos, já há quem dispense trabalho na cidade grande em favor de municípios menores.

O movimento já se reflete em mudanças nos fluxos migratórios do país. Estudo elaborado por Cláudio Dedecca, professor titular de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp) para a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), mostra que entre 2000 e 2010, a migração dentro dos estados passou de 65% do fluxo total para 72,2%. Nesse período, a migração para o Sudeste caiu de 1,8 milhão de pessoas para 575 mil pessoas.

O engenheiro e empresário Alan Fonseca e sua mulher, a fisioterapeuta Sabrina Mendonça Fonseca, são naturais de Lavras, no Sul de Minas. Ela se mudou para Belo Horizonte para estudar e ele veio para a capital mineira depois de se formar em Santa Rita do Sapucaí, também no Sul do estado. Casaram-se e hoje têm dois filhos, um menino de 2,5 anos e uma menina de 11 meses. Cansados da agitação de BH, eles resolveram abandonar seus empregos e voltar para Lavras, onde abriram um emporium que comercializa carnes e cervejas especiais, entre outros produtos gastronômicos, a Mercearia Apaixonados por Churrasco, com investimento de R$ 200 mil.

Alan Fonseca conta que antes de se decidir, procuraram o Sebrae e passaram seis meses realizando estudos de mercado e o plano de negócio para a empresa. “A gente acreditava que esse era um negócio que cabia em Lavras porque a população tem alto poder aquisitivo e, além disso, não há concorrentes no ramo. Aqui na cidade só tinha um lugar que vendia carne embalada, mas mesmo assim as únicas opções eram bife ancho e baby beef.” Segundo ele, a mercearia está funcionando há um mês com excelente aceitação. Já são 120 rótulos de cerveja, variados cortes especiais de carne, além de carnes exóticas e massas congeladas. “Largamos uma vida de 12 a 15 horas de trabalho por dia em Belo Horizonte. A classe C está consumindo mais. Em outros tempos, fazer isso seria uma loucura”, acredita.

Sem sentido
De acordo com Cláudio Dedecca, professor titular do Departamento de Economia da Unicamp e autor do estudo sobre migração, o movimento dos Fonsecas em direção ao interior não é inesperado. “Os dados do censo de 2010 mostram que a pressão para que as pessoas migrem está diminuindo. A caudalosa migração interna que havia no Brasil na década de 1980 perdeu sentido porque um conjunto de ações levaram renda e trabalho para as cidades de menor porte”, explica.

Por outro lado, o tamanho das famílias também reduziu, o que favorece a acomodação de seus membros no local de origem. Além disso, de acordo com ele, o crescimento econômico experimentado de 2003 até agora no Brasil, ainda que tenha perdido fôlego, ocorreu de forma descentralizada. “Antes, a economia crescia muito mais nos grandes centros”, lembra.

A psicóloga Cristiane Coelho nasceu em Guanhães, no Vale do Rio Doce, formou-se em Campinas e mudou-se para Belo Horizonte, onde viveu, estudou e trabalhou durante cinco anos. Na capital mineira, ela dividia o apartamento com seu filho, Bernardo Baraldi, de 12 anos. Durante esse período, fez cursos de especialização em sua área, abriu consultório e trabalhou numa clínica de psicologia. “A vida começou a ficar muito cansativa. Não estava dando tempo nem de olhar o dever de casa do meu filho e eu já não tinha mais tempo para fazer os cursos que queria”, diz.

Diante dessa situação, a opção foi voltar para Guanhães. A oportunidade de emprego na região apareceu mais rápido do que ela imaginava. “Assim que resolvi voltar, fui avisada de que havia uma vaga para psicólogo numa prefeitura vizinha. Passei por um processo de seleção e fui contratada”, comemora. Hoje, Cristiane trabalha muito, mas tem tempo de acompanhar as atividades escolares do filho, que pode sair sozinho na rua, ir à padaria, ao clube e à casa dos amigos.

Mudança de ares e de áreas
O pedreiro Franciano Bernardes nasceu em Recreio, na Zona da Mata Mineira. Saiu de lá, viveu 10 anos em Portugal, onde trabalhava na construção civil (com arquitetura marroquina), e voltou para o Brasil em 2010. Depois que chegou, trabalhou na Rede Ferroviária, e vivia viajando de um lado para o outro.

Há um ano, fez um curso profissionalizante no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e trocou um salário de R$ 1,6 mil, que ganhava num emprego que o obrigava a estar constantemente longe da mulher e dos filhos, pela profissão de pedreiro autônomo, com rendimentos de R$ 1,2 mil. “Tenho casa própria. Valeu a pena reduzir o salário para ficar mais próximo das minha família. O curso do Senai ajudou muito nessa decisão”, afirma.

Enquanto isso...
...propostas dispensadas

Somente em Arinos, no Noroeste de Minas, que fica a 750 quilômetros de Belo Horizonte e a 200 quilômetros de Brasília, o Programa Escola Móvel formou 450 pessoas, 40 como pedreiros. Esses 40 trabalhadores receberam proposta de uma empresa que os levaria para a capital do Brasil com emprego garantido, mas eles recusaram. É que depois do curso os profissionais começaram a ganhar dinheiro na própria cidade onde vivem, trabalhando por contra própria ou na indústria. De acordo com Cláudio Dedecca, da Unicamp, a rentenção no interior ocorre de maneira mais significativa entre a população de renda mais baixa, o que indica que há fatores relevantes que a justifiquem.

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