• (0) Comentários
  • Votação:
  • Compartilhe:

Dia de trabalho » Carnaval: o "décimo terceiro" dos catadores Enquanto todos caem na folia, para os catadores de material reciclado essa é a melhor época do ano para faturar

Rosa Falcão

Publicação: 28/02/2014 10:38 Atualização: 28/02/2014 10:57

Marta é catadora desde os 15 anos e vai estrear no carnaval. Foto: Nando Chiappetta/DP/D.A.Press
Marta é catadora desde os 15 anos e vai estrear no carnaval. Foto: Nando Chiappetta/DP/D.A.Press
Os catadores de material reciclável esperam o ano inteiro para chegar o carnaval. Não é para brincar, mas para ganhar dinheiro. Nos quatro dias de Momo eles faturam o equivalente ao décimo terceiro salário. São montanhas de alumínio, PET, plásticos e vidros retiradas das ruas. Bom para o meio ambiente e melhor ainda para o bolso dos trabalhadores. Associados às cooperativas ou avulsos, eles saem com os big bags (sacos de gigantes) para coletar o lixo espalhado pelos foliões. Não reclamam do sol, da chuva ou do cansaço. Afinal, o “dinheirinho” extra é bem vindo para pagar dívidas, comprar roupa e sapato novos para os filhos, e até melhorar as condições de moradia.

Marta Pessoa da Silva, 30 anos, abre um sorriso quando fala do carnaval. Ela mora na comunidade Caranguejo Tabaiares, próxima à Estrada dos Remédios. Há dois meses ela entrou na cooperativa Pro Recife. “Fui nascida e criada no lixo. Trabalhava desde pequena com a minha tia. Este é o primeiro carnaval que eu vou para a rua. As pessoas falam que dá para tirar dinheiro bom com as latinhas”, alimenta a expectativa. Quando pergunto o que vai fazer com a renda extra a resposta está na ponta da língua: “Vou pagar as dívidas para sair do sufoco, e o resto comprar as coisas para os meus cinco filhos”.  

A Pro Recife é uma das quatro cooperativas associadas à Central de Cooperativas de Recicláveis de Pernambuco (Cecorpe) que fechou uma parceria com a Prefeitura de Recife para fazer a coleta de material reciclável durante o carnaval. A prefeitura vai disponibilizar quatro estações de coleta para os catadores armazenarem o material coletado. “A idéia é envolver catadores cooperados e cadastrar o pessoal avulso para que eles consigam vender o material por um preço justo”, comenta Jane Cristina Gonçalves Correia, assessora sócio-ambiental da Emlurb.

Roberta de Santana Pessoa, 42 anos, presidente da cooperativa Pro Recife está animada para colocar o bloco na rua durante o carnaval. “É o primeiro ano que a gente vai trabalhar numa parceria com a prefeitura. Vamos levar seis catadores para o desfile do Galo e para o Recife Antigo. Quando a gente se organiza consegue o melhor preço de venda”, diz. Segundo Roberta, as latinhas de alumínio são a mina de ouro dos catadores. As fábricas pagam R$ 3,20 por um quilo do material.
 
De acordo com José Cardoso, dirigente da Cercope, este ano as cooperativas vão negociar o material reciclável direto com os fabricantes, para fechar a cadeia da logística reversa. O plástico será vendido à Frompet e o alumínio às fábricas da Latasa e da Novelis. As embalagens são recicladas e se transformam em matéria-prima.

Olinda tem coleta no sítio histórico

A prefeitura de Olinda se articula há cinco anos com a Associação dos Recicladores de Olinda (ARO) para fazer a coleta seletiva durante o carnaval. Uma turma de 14 mulheres vai trabalhar este ano no sítio histórico, nos quatro dias de folia. A prefeitura disponibiliza o transporte para levar as catadoras até a cidade alta no horário da noite. Será feita a coleta de plásticos, vidros, papelão e alumínio. Quando enchem as bombonas a turma retorna à Aguazinha, onde fica o galpão da ARO para armazenar o material.

Tereza Angelo, coordenadora da coleta seletiva em Olinda, diz que a novidade este ano é a parceria com os camarotes que ficam nos casarões do sítio histórico. Segundo ela, o material coletado durante o dia nos espaços privados será separado e entregue aos catadores à noite. “Assim, evitamos que esse material seja jogado indevidamente nos aterros

Maria José de Santana, 49 anos, mais conhecida como Nina, preside à ARO. Ela coordena o trabalho das catadoras no carnaval. Elas já iniciaram a coleta seletiva nos dois desfiles das Virgens. “O que dá mais dinheiro é a latinha e a garrafa PET. Acho que cada catadora pode tirar até R$ 1.000”, estima. Como é a melhor data do calendário para os catadores, eles esquecem o calor e o cansaço. “A gente já está acostumado com a rua. É muito cansativo, mas a gente nem sente”.

A Associação Meio Ambiente Preservar e Educar (Amape) lidera uma campanha nos bairros de Casa Amarela e Casa Forte para barrar o trabalho infantil no carnaval. “Distribuimos uma cartilha incentivando à população entregar as latinhas aos catadores adultos”, diz Sérgio Nascimento, presidente da ONG. Ele estimula a
articulação dos blocos com as associações e cooperativas de catadores, para colocá-los como atores da festa. 

Esta matéria tem: (0) comentários

Não existem comentários ainda

Comentar

Para comentar essa notícia entre com seu e-mail e senha

Caso você não tenha cadastro,
Clique aqui e faça seu cadastro gratuito.
Esqueci minha senha »



Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.