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Inflacionados » Serviços consumidos pela maioria da população ficam em média 20% mais caros

Correio Braziliense

Publicação: 24/02/2014 09:54 Atualização:

Todos os anos é a mesma coisa: os impostos, as contas de energia e água, as mensalidades escolares, o plano de saúde e os seguros são reajustados acima da inflação divulgada pelo governo. Quem mais sente no bolso essa distorção é a classe média, que não entende como a taxa oficial pode estar em torno de 6% anuais, quando os itens que mais pesam no orçamento familiar aumentam de 20% a 30% a cada novo exercício.

Hoje, a classe média é a maioria da população brasileira, e a enorme expansão desse público nos últimos anos pode ter sido uma das causas da inflação maior. Na avaliação do subsecretário de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República, Ricardo Paes de Barros, o aumento de pessoas com capacidade de gastar mais criou uma demanda maior por produtos e serviços. E quando há mais procura, sem que haja aumento na oferta, a tendência é reajuste nos preços.

“O sucesso da classe média, que cresce de forma acelerada, criou um boom na procura por serviços, como educação e saúde, e o ajuste para atender essa demanda tem sido muito mais lento”, explica Barros. Para ele, o governo entende como classe média o cidadão com renda per capita acima de R$ 1,5 mil. “É uma parcela de mais de 50% da população, que já tem condições de dar educação melhor para os filhos, cuidar melhor da saúde. A visão de que é apenas um bando de ávidos consumidores é muito míope. Queremos que sejam poupadores e investidores também”, ressalta.

Antes de economizar e investir, porém, a classe média precisa pagar as contas dos serviços que começou a utilizar. Um desafio cada vez mais difícil. Todos os anos, o servidor público Welinson Nunes Menezes, 34 anos, desdobra-se para garantir um bom estudo ao filho João Gabriel, 6. Para levar o menino à escola, contratou um transporte particular. O valor cobrado sobe a cada 12 meses. “Isso reflete diretamente no meu orçamento, porque não é só o transporte escolar que fica mais caro. Em 2012, a mensalidade do serviço custava R$ 110. Neste ano, subiu para R$ 130, alta de quase 20%”, reclama.

O material escolar do filho também causou um impacto em suas economias. “A lista feita pelo colégio custou quase R$ 700. Um aumento de 30% ante 2012. É um absurdo gastar tudo isso para uma criança que não sabe ler direito”, observa Welinson. Para ir ao trabalho, ele comprou uma moto, mas alega que o seguro obrigatório do veículo também está na lista dos itens que não param de sofrer reajustes. Em 2012, pagou R$ 250. “Agora, desembolsei R$ 300. É muito”, afirma. “A remuneração do contribuinte não acompanha a evolução da inflação. Eu trabalho para pagar dívidas, nada mais”, enfatiza.

Distorções

Para o professor e coordenador do Centro de Macroeconomia Aplicada da Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), Emerson Marçal, quanto maior a capacidade de gastos de uma família, mais ela vai consumir serviços. E a inflação desse grupo está de doer há quatro anos. Em 2011, passou de 9%. Desde então, tem ficado sempre acima dos 8%. No IPCA-15 de fevereiro, atingiu 8,94%. “Alguns serviços dão a sensação de desconforto, porque são itens inelásticos, ou seja, por mais que aumente a escola, o pai de família não vai retirar os filhos dela. Por mais que o plano de saúde seja reajustado, ele também não vai cortar o convênio, como trocaria um produto mais caro por outro mais barato na prateleira do supermercado”, explica.

Nas classes de renda mais baixa, o peso dos alimentos é muito maior. “Quanto maior é o rendimento familiar, mais os serviços consomem o orçamento familiar”, diz Alessandra Ribeiro, analista e sócia da Tendências Consultoria. “Quanto mais serviços se consome, mais alta é a inflação”, reitera o economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC) Fábio Bentes. E quanto mais a carestia bate no bolso, mais crédito o cidadão de classe média vai buscar para continuar consumindo. O que tem elevado o
endividamento das famílias brasileiras a níveis preocupantes.

A doméstica Aparecida Tatiana de Souza, 37, ganha R$ 850 por mês. Casada e com dois filhos, a renda mensal da família passa de R$ 3 mil. Mesmo assim, a consumidora precisa parcelar as compras. “Eu comprei uma cama de R$ 799 e dividi em seis vezes de R$ 172. Ou eu compro a prazo, ou fico sem””, desabafa. Ela ainda pretende trocar a televisão de casa neste ano. “Por conta da Copa do Mundo, o preço está salgado. Vou esperar passar os jogos para aproveitar as promoções”, afirma.

Estoques

Já a comerciante Patrícia Cristiane Marra, 37, prefere comprar tudo à vista para evitar dívidas. Ela ganha, em média, R$ 2,5 mil por mês. Sua principal reclamação é o valor cobrado pelos planos de saúde. “Aumentou 20% neste ano. Quando ligamos para agendar uma consulta, há vagas só daqui a dois meses. Não vale o preço que se paga”, ressalta. Patrícia mora com o marido e um filho de 5 anos e conta que prefere estocar alimentos do que comprar diariamente.

“O preço não para de subir. Prefiro comprar em atacado para não ser surpreendida de um dia para o outro”, explica a comerciante. As contas de água e luz também contribuíram para aumentar as despesas da família. “Utilizamos praticamente a mesma coisa e percebemos um aumento de R$ 20 na conta de luz e de R$ 15 na fatura de água”, destaca.

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