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Jovens brasileiros mergulham no próprio negócio Adesão de menores de 24 anos ao MEI cresce 71% no país entre 2011 e 2013. Em Minas, 24,4% têm menos de 30 anos

Carolina Mansur

Publicação: 23/02/2014 10:14 Atualização:

De garçom, Otávio Alves Maia, de apenas 21 anos, se transformou em dono do próprio negócio. “Queria ter alguma coisa minha, quando percebi que em toda casa havia gesso e procurei aprender sobre reboco, parede, teto rebaixado, comecei a prestar o serviço por conta própria”, lembra. Mesmo contra a família, que preferia que ele tivesse emprego com carteira assinada, ele abriu, há dois anos, a Gesso Maia, em Montes Claros. “No início, tinha que divulgar meu trabalho de porta em porta e, como comecei com 19 anos, as pessoas não davam muito crédito”, conta. Para sobreviver com a renda de sua empresa, optou por se tornar microempreendedor individual (MEI). “O MEI deu outra cara para o meu negócio. Com CNPJ, as pessoas confiam mais ao deixarem um trabalho comigo”, lembra.

Molas propulsoras da economia, jovens como Otávio têm empreendido em negócios que passam por comércio e serviços. No país, entre 2011 e 2013, a quantidade de jovens com até 24 anos que se tornaram MEIs – aqueles que faturam até R$ 60 mil por ano – passou de 205 mil para 350 mil, aumento de 71%, segundo pesquisa recente do Sebrae. Em Minas, os microempreendedores individuais de 21 a 30 anos já aparecem em segundo lugar no ranking, com 24,4% do total de negócios, cerca de 98 mil, do total de 401 mil. Em primeiro lugar, aparecem os microempreendedores de 31 a 40 anos, com 32,44% das empresas, um total de 130 mil. Em terceiro lugar, os com idade entre 41 e 50 anos, com 23,72%.

Depois de se formalizar, Otávio aproveita a prosperidade do negócio e a agenda cheia para alçar voos mais altos. “Planejo abrir minha primeira loja até o meio do ano”, confessa. A ideia é se juntar a um sócio e inaugurar um espaço com depósito e escritório, onde será possível oferecer aos clientes mão de obra especializada em construção e material. “Quero reunir pintores, pedreiros e gesseiros e oferecer os serviços e a compra do material no mesmo local”, adianta. Para ele, a decisão é acertada, já que trabalhar por conta própria é mais rentável. “Se eu estivesse trabalhando com carteira assinada, estaria desperdiçado. Também trabalharia muito, mas ganharia pouco e não teria tantas perspectivas para o futuro”, garante o empresário, que planeja, inclusive, começar um curso de engenharia civil até o ano que vem.

Escolaridade

O estudo realizado pelo Sebrae mostra ainda que empreendedores com até 24 anos apresentam um nível escolar bem superior à média do total do público do MEI – que já contabiliza 3,5 milhões desde a criação da figura legal. Ao todo, 52% dos microempreendedores individuais jovens fizeram o ensino médio ou técnico completo e outros 30% iniciaram, pelo menos, um curso superior. Quando consideramos os microempreendedores individuais de todas as faixas etárias, a média cai para 44% entre aqueles com ensino médio ou técnico, e de 19% para os que iniciaram uma faculdade.

Mara Zeit, gerente de atendimento ao empreendedor do Sebrae-MG, explica que o crescimento ocorre puxado por uma mudança no comportamento desses jovens e facilidades para abertura do próprio negócio. “Se no passado muitos buscavam apenas a estabilidade, emprego fixo, agora há uma tendência para o jovem se dar o direito de experimentar como é ser empresário”, diz. Ainda de acordo com ela, a escolha por segmentos como comércio de roupas, alimentação, serviços da área estética e de beleza e os relacionados a setores de forte expansão, como o da construção civil, ocorre em função de riscos menores, como menos dependência de estoques e matéria-prima, além de uma oportunidade de retorno imediato.

Úrsula Paula Santos Viegas, de 25 anos, e o marido Guilherme Augusto Barbosa Damasceno, de 27, também reforçam os números. Depois de trabalhar como vendedora de jóias, e ele como motoboy, optaram por abrir o Sanduíche do Guilherme há um ano. “Já tivemos trailler e conciliávamos com outro emprego, mas queríamos ter mais tempo com nossas filhas e resolvemos abrir mão do emprego de carteira assinada pelo sonho de sermos donos da nossa empresa”, comenta ela. Hoje, o casal já contratou um funcionário e conta com os serviços de dois motoboys. “Com CNPJ e nossa maquininha ficou mais fácil ter próprio negócio do que trabalhar para outra pessoa”, comenta.

Facilidade e rapidez


Entre as alavancas que impulsionam o ingresso dos jovens nessa modalidade de negócio, o professor de empreendedorismo do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), João Bonomo, destaca o desembaraço burocrático e a facilidade de registro da empresa. Outro fator, segundo ele, é o avanço no número de empreendedores, independente de faixa etária. “Temos os jovens se interessando por ter seu próprio negócio, mas também pessoas da terceira idade”, comenta. No entanto, ele pondera que, no caso dos empresários com até 30 anos, pesa a possibilidade de empreender como opção de carreira. “Não é mais um sonho, é um fato, já que os processos seletivos de grandes corporações estão extremamente concorridos”, considera.

De acordo com o especialista, empreender também tem sido visto pelos jovens como alternativa de realização pessoal e financeira “num momento onde o potencial criativo está nas alturas”. “Eles não têm apego institucional e procuram auto-realização. Essa é uma geração que já teve certa experiência no mercado e sabe avaliar se determinada carreira é atraente ou não”, explica. De acordo com ele, para que os negócios administrados por jovens progridam, o professor lembra que é preciso trabalhar a capacidade para frustrações, a flexibilidade, controle da ansiedade, saber gerenciar situações contraditórias e ter base de relacionamento forte.

O técnico em informática Vinícius Santos Fabri, de 24, que também é proprietário da Fabri Moda e Design, que vende itens personalizados pela internet, optou por ter o próprio negócio depois de encontrar um mercado fechado em Barbacena, município com pouco mais de 128 mil habitantes, no Campo das Vertentes. “No início, eu queria ter um negócio na área de tecnologia, mas após realizar uma pesquisa de campo, percebi que esse mercado já estava saturado em minha cidade”, conta. Com mais de 500 pedidos mensais, ele diz que a proposta é ampliar o negócio para o ambiente físico até 2015. A ideia é abrir uma loja de roupas e produtos personalizados. “Pretendo consolidar a clientela e, assim que conseguir superar a renda que tenho hoje, posso pensar em abrir mão do meu trabalho”, planeja.
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