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Igreja » Presidente da CNBB reforça direcionamento do papa Francisco e defende Igreja mais simples e humana Em entrevista, Dom Raymundo Damasceno explica como a Igreja administra seus recursos e destaca a importância de existirem conselhos paroquiais para acompanhar a gestão financeira

Diego Amorim - Correio Braziliense

Publicação: 26/01/2014 14:01 Atualização:

"O dinheiro é um mau servidor, mas é um bom servo quando se sabe utilizá-lo", Dom Raymundo Damasceno
Assim como o papa e amigo Francisco, o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Raymundo Damasceno, defende uma Igreja mais pobre, liderada por padres sem luxo ou acúmulo de supérfluos. “Mais do que nunca, precisamos dar testemunho e viver somente com o necessário”, diz ele ao Estado de Minas na primeira entrevista em que trata do assunto. O cardeal explica como a Igreja administra seus recursos e destaca a importância de existirem conselhos nas paróquias, constituídos por leigos, para acompanhar a gestão financeira. Dom Damasceno, que também é arcebispo de Aparecida (SP), afirma que não é função do sacerdote cuidar da administração do templo e define o dinheiro como “bom servo quando se sabe utilizá-lo”. Leia os principais trechos da entrevista.

A Igreja do Brasil é rica?
Diria que não. Muitas vezes, as pessoas fazem confusão com aquilo que pertence à Igreja enquanto entidade jurídica, como se todos os templos, as universidades e os colégios fossem do padre ou do bispo. Não são. Administramos os bens da Igreja com o objetivo de evangelizar, mas não somos os donos. Sem esses recursos materiais, claro que teríamos dificuldades de realizar a missão, o que não quer dizer que a Igreja busca aumentar patrimônio ou arrecadar para si mesma.

Então não se faz o dinheiro render?
Procuramos utilizar os recursos da melhor maneira possível. O tamanho da receita varia em cada diocese. A Igreja vive basicamente da doação dos fiéis. Dentro da prudência, fazem-se aplicações pequenas de um montante que pode ser usado mais tarde. A poupança rende alguma coisa, o CDB igualmente. Há ainda imóveis alugados, que dão algum rendimento, e recebemos também a ajuda de igrejas de outros países. Na bolsa de valores, certamente não há aplicações da Igreja Católica do Brasil. Se alguma pessoa física aplica por conta própria, aí não temos esse controle.

A Igreja consegue controlar a destinação desses recursos e evitar um mau uso?
É importante que cada paróquia tenha um conselho responsável pela administração dos bens. Cabe a esse grupo acompanhar a gestão, com foco sempre na evangelização. Os recursos são instrumento, não a finalidade. Qualquer problema nas finanças da paróquia deve ser comunicado ao pároco e, se for o caso, ao bispo. Há uma consciência cada vez maior de que é necessário ter transparência com os recursos da Igreja, mas, em qualquer campo administrativo, ninguém está isento de desvios. Asseguro que são casos raros e, quando identificados, o bispo toma medidas enérgicas para cortar o problema.

Não deveria existir uma formação dos padres nesse sentido?
O padre é fundamentalmente pastor. O bispo também. Se não for assim, as coisas podem acabar se confundindo. O sacerdote pode ter noções de gestão, finanças e administração, mas os leigos da comunidade com essas competências devem ajudar. O padre não pode ocupar todo o seu tempo e toda a sua energia com obras ou com a gestão da paróquia. Ora, a função dele não é essa. A função dele é pastoral, é atender o povo, anunciar o evangelho, ministrar os sacramentos.

Os gestos e as declarações do papa Francisco contrários à ostentação têm influenciado de alguma forma a Igreja do Brasil?
Com certeza. A simplicidade passa por administrar bem os recursos de que dispomos e usá-los com a finalidade correta. O padre deve ter condições dignas para trabalhar e exercer seu ministério, mas isso não significa luxo nem acúmulo de supérfluos. No mundo de hoje, mais do que nunca, a Igreja precisa dar testemunho de mais austeridade, e viver somente com o necessário.

Por que a Igreja tem dificuldade em falar de dinheiro?
Não é bem assim. O dinheiro é um mau servidor, mas é um bom servo quando se sabe utilizá-lo. O perigo está em fazer dos bens materiais verdadeiros ídolos, diante dos quais se prostra. Quando os recursos são aproveitados da maneira correta, eles são um instrumento válido, de suma importância.

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