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Conjuntura » Europa teme uma "crise depois da crise", de imprevisíveis consequências

AFP - Agence France-Presse

Publicação: 17/12/2013 20:01 Atualização:

Podemos esperar uma rebelião popular? Se isso acontecer, não virá “nem dos partidos políticos nem dos sindicatos”, mas sim de pessoas anônimas “que jamais imaginaram fazer tal coisa...”. Este recente comentário do jornal grego Kathimerini se aplica à Grécia, mas ilustra também a ameaça que paira sobre as democracias europeias, onde vários países emergem da recessão sem que isso tenha, no momento, grande impacto nos altos níveis de desemprego e pobreza.

Esta “crise depois da crise” alimenta a demagogia e o populismo, a poucos meses das eleições europeias. Inclusive na França, que não precisou de um plano de resgate internacional como a Grécia, Irlanda, Portugal, Chipre e o setor bancário espanhol, a alta do desemprego, a multiplicação dos fechamentos de empresas e os aumentos de impostos decididos pelo governo socialista geram movimentos de protesto espontâneos e multiformes.

Os esforços do presidente francês François Hollande para reformar com moderação o país são criticados de todos os lados: a França não faz o suficiente, alega, por exemplo, a agência de classificação Standard & Poor's que acaba de degradar a nota do país; faz demais, segundo múltiplas vozes preocupadas com a erosão do estado de bem-estar.  Com isso, a popularidade do presidente está em mínimos históricos e a Frente Nacional, de Marine Le Pen cresce permanentemente nas intenções de voto.

Na Espanha, onde o pior da crise parece ter passado e se esboça um tímido retorno ao crescimento, o desemprego continua sendo devastador, em níveis recorde, especialmente entre os jovens. “Uma melhora? Não vejo”, afirma Manuel Moreno, de 34 anos, que acaba de perder seu trabalho em uma organização humanitária de Madri.

“Durante a crise dos anos 1990, foram necessários 15 anos para ver uma melhora. Com esta crise, que é pior, é possível que não melhore nada em 20 ou 25 anos”, prevê. De fato, não se espera nenhuma queda do desemprego na Espanha - que afeta um em cada quatro pessoas economicamente ativas - antes de 2014, segundo a Comissão Europeia, e 21,6% dos espanhóis correm o risco de cair na pobreza. Uma silenciosa queda aos infernos, enquanto o desalento ganha até as mobilizações de rua.

A mesma desesperança se apoderou da Grécia: no dia 6 de novembro, dia de greve geral, o sindicato GSEE do setor privado tomou a inédita decisão de cancelar sua manifestação em Atenas, por falta de manifestantes. Os dois grandes sindicatos gregos do setor público e privado estão perdendo credibilidade porque são vistos como “representantes do Pasok”, o partido socialista no poder, junto aos conservadores, segundo o cientista político Ilias Nikolakopoulos.

“Morrer de austeridade”

Atenas prevê sair da recessão de seis anos em 2014. Segundo a ‘troika’ de credores (UE, BCE e FMI), isso foi possível graças à extrema austeridade aplicada pelo governo heleno: salários e aposentadorias cortados, alta de impostos.  Contudo, com um desemprego em alta de 27,6% (55% entre os jovens), também não há para os gregos nenhuma melhora a vista.

“Quando a crise da dívida explodiu em 2010, nada mudou durante um ano. Poucas demissões, salários iguais ou até melhores. O mesmo acontecerá com esta suposta melhora econômica. Quando serão vistos os efeitos positivos para as pessoas?”, questiona o jornalista Polydefkis Papadopulos.

“Os gregos se adaptam melhor que os demais, mas há risco de explosão”, alerta. O governo de coalizão só tem quatro cadeiras da maioria no Parlamento. Um sucesso do partido neo-nazista Amanhecer Dourado, em alta nas pesquisas (a 10%) nas eleições municipais e europeias desestabilizaria o sistema político.

Na Itália, que pode sair lentamente da recessão no próximo ano, os populistas também estão emboscados antes das eleições europeias de maio. Em particular, o movimento Cinco Estrelas de Beppe Grillo, cada vez mais mordaz em uma Europa acusada de impotência frente à imigração e o desemprego.

“Uma grande batalha está sendo travada: a da Europa dos povos contra a Europa dos populismos”, alertou o presidente do Conselho italiano Enrico Letta. “Luto por uma Europa que compreenda que se pode morrer de austeridade e que só com a política, ganharão os 'Le Pen' (na França) e os eurocéticos como Grillo em nosso país”, resume Letta.

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