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Pessimismo » Números da economia colocam confiança em xeque

Victor Martins -

Publicação: 08/12/2013 15:00 Atualização:

Cinco anos depois do estouro da crise que jogou o mundo na recessão, as estatísticas do Brasil frustram tanto quanto decepcionaram entre 2008 e 2009. A disparada do dólar e dos juros, considerados indicadores de risco, expõem, além da desconfiança instalada na economia, a falta de disposição de credores do governo e do país em financiar nossos desequilíbrios. E, pior, deixam claro que a bandeira verde e amarela entrou em uma crise não declarada. Diante desse quadro, a ameça de piora da nota soberana parece iminente.

O custo da dívida para o governo, a exemplo do registrado no auge da crise imobiliária iniciada em solo norte-americano (veja quadro), começa a bater em patamares elevados no Brasil e corre o risco de ultrapassar os 60% do Produto Interno Bruto (PIB). O preço de financiar o rombo fiscal também se elevou demasiadamente. A NTN-B com vencimento em 2050, o título público mais comprado pelos fundos de pensão, está sendo negociada, no mercado secundário, a 6,6% ao ano — o maior valor desde que o papel começou a ser emitido, em 2010. No mercado de juros futuros, as taxas se aproximam das de 2009, quando os contratos com vencimento em dois anos pagavam 10% ao ano.

A diferença entre 2013 e 2009, porém, é que agora os fundamentos da economia são piores. O superavit primário (economia para pagar os juros da dívida) deve ser o menor da década, estima-se que ele fique em torno de 1,7% do PIB. O valor é inferior até mesmo ao de quatro anos atrás, quando o Brasil amargou uma recessão de 0,3%, as empresas pararam de dar lucro e a arrecadação de impostos federais derreteu. Esse volume de poupança é insuficiente ainda para colocar a dívida bruta em trajetória de queda e colabora para distanciar o Brasil de seus pares, outros emergentes que, na média, têm uma dívida equivalente a 35% das riquezas que produzem em um ano. "Para o nosso nível de renda, o Brasil tem uma dívida elevada, 68% do PIB em 2012 pelo critério do FMI, e pagamos uma conta de juros alta, 5% do PIB", calcula Mansueto Almeida, economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

O rombo nas contas públicas, até outubro em 3,66% das riquezas do país, também superou o buraco do auge da crise. Para alguns analistas, caminha para os 4%. "Os gastos públicos aceleram, e de forma generalizada. As despesas de custeio e transferências seguem como principais fatores de pressão. Mas as despesas com subsídios, funcionalismo e investimentos também crescem mais rápido na margem", relata Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco. Esse cenário ainda alimenta a inflação e, mesmo com o baixo crescimento, o que na teoria deveria amenizar o custo de vida tem deixado os preços no limite de tolerância. "Comparada a outros países, a questão fiscal é um limitador para o crescimento. O governo está gastando muito, mas não em investimentos que levariam ao aumento do crescimento potencial do Brasil", observa Newton Rosa, economista-chefe da SulAmérica Investimentos.

CORDA BAMBA
Sem a colaboração da política fiscal, a correção dos desequilíbrios fica quase que exclusivamente a cargo do Banco Central. Em 2013, a instituição subiu os juros básicos (Selic) de 7,25% ao ano, em abril, para 10%, em novembro. E deve continuar esse aperto pelo menos até 10,25% ou 10,50%. Esse processo, porém, encontra barreiras na fragilidade da economia. Essa fraqueza, em algum momento, deve bater no emprego. "Não é possível manter o mercado e trabalho robusto com um crescimento tão baixo e já se veem sinais de deterioração, mas esse processo é lento", argumenta Mauro Schneider, economista-chefe do CGD Securities.

As contas externas também não colaboram para o cenário. A balança comercial, quase deficitária, os gastos recordes dos brasileiros no exterior, as remessas de lucros e dividendos de multinacionais e as despesas com o aluguel de navios estrangeiros para exportar a produção brasileira vão gerar, em 2013, um rombo recorde, de 3,67% do PIB. Esse buraco, porém, não deve ser coberto pelo ingresso de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED), considerado o melhor capital para equilibrar esse tipo de déficit.

A lista de pontos fracos é grande. Começa, na avaliação de economistas, pelo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) aquém do potencial e em nível insuficiente, caso se mantenha nesse ritmo por um longo período, para manter a economia entre os Brics e, ainda, para financiar melhorias sociais. Para o banco Morgan Stanley, o Brasil entrou no grupo dos cinco frágeis, formado por Turquia, Índia, Indonésia e África do Sul.

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