“Olha Índio, ela ainda toca!” Maria das Graças Marçal, catadora de material reciclável, interrompe o trabalho para mostrar ao colega o seu novo achado. A caixinha de música encardida, garimpada no lixo, ainda toca perfeitamente o Noturno de Chopin. Por alguns minutos o som que vem do brinquedo de plástico interrompe a triagem de material e deixa os catadores com olhos fixos no objeto movido a corda. A caixinha é separada do material reciclável e guardada com cuidado. Será levada para casa. O objeto que encantou os catadores faz parte de um mercado que tem potencial para movimentar pelo menos R$ 8 bilhões ao ano no Brasil, somente com a reciclagem de aço, alumínio, papel, plástico e vidro, segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).
Apesar de ser um negócio de cifras bilionárias, o mercado ainda é pouco explorado. Os aterros sanitários brasileiros são tidos como um dos mais ricos do mundo, já que toneladas de material reciclável têm o lixo como destino no país. Mas ironicamente a falta de matéria-prima é uma coleira apertada que segura uma ávida cadeia de reciclagem, que tem potencial de atingir R$ 20 bilhões ao ano no Brasil, segundo estimativas das entidades com maior atuação nessa área.
Em Belo Horizonte, a coleta seletiva – primeiro passo da cadeia de reciclagem – está estagnada e anda a passo de tartaruga. No ano passado, atingiu 9,07 mil toneladas, contra 10,36 mil em 2011, queda de 12,44%, segundo dados da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU). O número da coleta está praticamente paralisado desde 2008, quando foram recicladas 9,89 mil toneladas de lixo na capital. “Há um projeto no plano do governo para a ampliação da coleta até 2016. Mas o custo é elevado, em torno de R$ 500 a tonelada”, afirma Lucas Gariglio, diretor de Planejamento e Gestão da SLU. Na ponta do lápis, um gasto estimado em R$ 4,85 milhões com o volume coletado em 2012.
Gargalo
Mara Fróis, empresária do setor de reciclagem, está à frente da Green PET, indústria em Vespasiano, na Grande BH. A matéria-prima é a pedra no sapato do negócio, o que impede a indústria de acelerar seu crescimento. “Em todos os países que já visitei, da Ásia à Europa, nunca vi um lixo tão rico quanto o brasileiro. Lá fora eles tiram tudo que podem do lixo”, diz. Para contornar a falta de matéria-prima, a empresária importou no ano passado 320 toneladas de garrafas PET usadas, de Portugal, Estados Unidos e Canadá. “Está difícil importar porque a concorrência com os chineses no mercado externo é muito forte”, afirma a empresária Nos dois últimos anos, toda a produção da Green PET tem sido negociada no mercado interno.
A capacidade da indústria é para beneficiar 300 toneladas ao mês do plástico, usado na fabricação de embalagens para produtos de limpeza. “Não consigo produzir mais de 80 toneladas ao mês por falta de matéria-prima.” Segundo Fróis, a mão de obra é outro fator importante na operação da reciclagem. “Esse mercado também enfrenta uma enorme dificuldade para contratar, há um déficit.”
Na Associação dos Catadores de Papel e Material Reaproveitável de Belo Horizonte (Asmare), o número de catadores permanece estável há cinco anos: gira em torno de 130 pessoas, segundo cálculos do vice-presidente Alfredo Matos. E a renovação da mão de obra vive impasse: hoje, cerca de 50% dos associados têm acima de 40 anos. Ele próprio, aos 55, está há 15 na profissão. Seus cinco filhos estudam e trabalham em outras áreas, como estética e segurança. Matos considera que o crescimento da cadeia da reciclagem é a senha para trazer jovens para o trabalho organizado em associações. “Belo Horizonte precisaria ter indústria de transformação. Assim venderíamos o material direto para o empresário, sem o atravessador. O preço sobe e o interesse pelo negócio também. Além disso queríamos que a Asmare fosse um ponto turístico na Copa do Mundo.”
Nos municípios onde há a precarização do trabalho de catador, falta incentivo e estrutura para assegurar a renda e isso faz com que a juventude não permaneça na atividade, avalia Luciano Marcos da Silva, presidente do Instituto Nenuca de Desenvolvimento Sustentável, uma ONG que auxilia os catadores no fortalecimento do cooperativismo, implantação de coletas seletivas e erradicação dos lixões. Se Belo Horizonte ampliasse a coleta e modernizasse o sistema, diz, poderia ter mais catadores nas ruas. “Como não há incentivo político, o catador é visto como um mendigo, sem autoestima. Com a falta de campanhas de coleta seletiva, o catador vira separador do lixo. E o papel dele não é esse. É fazer a triagem do material que pode ser reciclado”, conclui Silva.
Catadores na base do processo
Do total do lixo reciclado no país, apenas 20% vem de coleta seletiva, segundo o Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), associação sem fins lucrativos dedicada à promoção da reciclagem. Os outros 80% são de canais paralelos, como catadores e sucateiros. “Boa parte do material reciclado não vem da coleta seletiva e sim do trabalho dos catadores. Precisamos de maior engajamento do poder público e da população”, ressalta André Vilhena, diretor-executivo do Cempre. É importante ressaltar que a coleta seletiva é um processo que consiste na separação e recolhimento dos resíduos descartados por empresas e pessoas. Reciclagem é a utilização, como matéria-prima, do produto que seria considerado lixo.
No Brasil, as indústrias de alumínio e de aço são as que mais reaproveitam material de forma sistemática e estruturada. Segundo dados dos fabricantes de alumínio, mais de 500 mil toneladas de latas são recicladas anualmente no país, envolvendo um batalhão de aproximadamente 180 mil catadores que coletam e separam o material. Apenas na compra do material para reaproveitamento são movimentados quase R$ 500 milhões por ano no setor. Na siderurgia, segundo dados do Cempre, mais de 9 milhões de toneladas de sucata de ferro foram usadas para produção de aço em 2011, o que equivale a 25,8% do volume produzido pelas usinas.
Estrutura
No reaproveitamento de outros materiais, muitas vezes falta estrutura. No Norte de Minas, o presidente da Associação de Catadoras e Catadores de Materiais Recicláveis de Montes Claros (Ascamoc), Manoel Messias Santos, ressalta que a entidade luta para construir um galpão de reciclagem. “Precisamos também de balança e de máquina para prensar os materiais, mas não temos recursos”, reclama Santos, que solicita apoio do poder público. Ele cobra da prefeitura a implantação da coleta seletiva de lixo no município. Em Montes Claros há cerca de 500 catadores de materiais recicláveis, sendo que 92 são filiados à Ascamoc.
A reciclagem garante a sobrevivência da família do catador Paulo Henrique Moraes, de 41 anos. “Nesta idade, a gente não encontra mais serviço fichado. Por isso, virei catador”, explica Paulo Henrique, revelando que está na atividade há dois anos. Antes, era funcionário de uma firma de asfalto no município do Norte de Minas. “Hoje, ganho em torno de R$ 700 a R$ 800. Para isso, apanho cerca de 180 quilos de materiais recicláveis por dia”, afirma o catador.
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