 | |
| Carlos Rique, do Motel Lemon, discorda da ABMotéis: "É como você ter uma doceria e querer vender almoços" |
Cama redonda, luzes de neon, letreiros chamativos. Se para você, até agora, essas eram as principais características dos motéis, é bom ir mudando seus conceitos. Os estabelecimentos, antes associados a lugares exclusivos para casais em busca de intimidade, agora querem se especializar para oferecer serviços de hospedagem tradicionais aos seus clientes. Tanto que a Associação Brasileira de Motéis (ABMotéis) apresentou ao Ministério do Turismo, no início deste mês, o projeto “Meio de Hospedagem Motel Premium”.
“É um projeto novo, que visa o reconhecimento dos motéis como meios de hospedagem”, explica o diretor administrativo da ABMotéis, Antônio Morilha. De acordo com ele, apesar da tendência ser relativamente nova no país, ela tem grandes chances de dar certo, principalmente com a proximidade da Copa do Mundo e da Olimpíada. “As vagas nos hotéis não serão suficientes. Dessa maneira, os motéis se mostram uma ótima opção, com um padrão de qualidade equivalente ao das grandes redes hoteleiras”, defende.
Os pombinhos que adoram fazer um programa diferente podem ficar tranquilos. Apesar da mudança, os motéis não perderão suas suítes rotativas. “Não vamos perder as características de motel. O projeto prevê que apenas 15% da infraestrutura de cada estabelecimento seja adaptada para receber clientes no sistema de hospedagem tradicional. Além disso, a participação dos estabelecimentos é facultativa”, frisa Antônio.
Entre as modificações que deverão ser realizadas, estão o bloqueio de canais pornográficos, a utilização de uma decoração mais simples, sem cores fortes e apelos eróticos, além da implantação do serviço de quarto, camareira e de uma recepção exclusiva para os clientes, entre outras. “Será um espaço totalmente separado, garantindo privacidade para os clientes”, pontua. Segundo pesquisa realizada pela ABMotéis, os motéis que também investirem nos serviços de hotelaria vão crescer a uma taxa média de 20% por ano, até 2016.
Para que as adaptações sejam realizadas, o setor espera que sejam concedidos os mesmos direitos dos hotéis. “É necessário que haja uma redução nos impostos e que possamos pedir empréstimo junto ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)”, diz Antônio. Além disso, o projeto prevê que os estabelecimentos recebam incentivos fiscais conforme as regras da Copa, para o treinamento e realização de palestras para profissionalizar o setor, a exemplo do que já acontece na rede hoteleira.
 | |
| O estudante Lucas Ayres, 22, já recorreu aos motéis para dormir por insuficiência de vagas na rede hoteleira |
Pessoas como o estudante Lucas Ayres, de 22 anos, poderão ser beneficiadas com o projeto. O jovem, que costuma ir para shows em diversas cidades, já precisou dormir em motel para se hospedar, por conta da falta de leitos na rede hoteleira. “Fiquei oito horas hospedado e paguei o equivalente ao que desembolsaria numa pousada barata”, compara. Apesar do preço relativamente estável, as instalações do estabelecimento deixaram a desejar. “Não tinha o conforto e a qualidade que um hotel ou pousada oferecem”, comenta o jovem. Lucas afirma que voltaria a se hospedar novamente, caso os locais invistam em comodidade e conforto.
De acordo com um levantamento da ABMotéis, existem, hoje, cerca de cinco mil estabelecimentos no Brasil que movimentam, em média, R$ 4 bilhões por ano. O setor gera, aproximadamente, 250 mil empregos diretos e mais de 300 mil indiretos. A expectativa para este ano é que haja um aumento de 20% no faturamento, com alta de 15% no número de clientes. Se considerarmos todos os tipos de hospedagem (como pernoite, diárias ou apenas algumas horas), o setor realiza cerca de 100 milhões de hospedagens anuais.
Região promissoraO Nordeste exerce um papel de destaque no crescimento do setor moteleiro. De acordo com Antônio Morilha, os altos índices da economia regional e o clima favorecem o fortalecimento dos motéis tradicionais e são favoráveis à implantação do sistema de hospedagem. “A região tem crescido bastante nos últimos anos, com a ida de grandes investimentos e o aumento da renda da população. Além disso, o clima quente atrai mais turistas, o que acaba se refletindo também no aumento de hospedagens, principalmente em Salvador, em Fortaleza e no Recife.”
 | |
| O professor de hotelaria Elidomar Alcoforado diz que essa adaptação surgiu por conta de eventos como o carnaval e o São João |
Para o professor do departamento de hotelaria da UFPE Elidomar Alcoforado, essa tendência nos motéis é reflexo da insuficiência de leitos na rede hoteleira. Além do efeito “Copa”, ele acrescenta ainda que a região tem grande potencial também em eventos sazonais, como o carnaval, o São João e também durante o verão. “Se compararmos as outras regiões durante essas épocas, percebemos que elas não são tão movimentadas como o Nordeste. É um grande diferencial nosso”, finaliza.
Apesar das boas expectativas, esse novo formato de motel não é visto com bons olhos por todos os empresários. De acordo com o proprietário do Motel Lemon, Carlos Rique, investir numa nova proposta de estabelecimento não vale a pena. “Acredito que não é algo que vá dá certo. Será preciso investir um valor muito alto e o retorno não seria o esperado”, opina. Ainda de acordo com ele, modificar um motel para realizar hospedagens seria uma mudança muito grande, e o empresariado acabaria perdendo o foco do seu negócio. “É como você ter uma doceria e querer vender almoços”, compara.
Já o administrador dos motéis Nexos, Eros e Via Norte, Carlos Melo, acredita que para aderir a nova tendência é preciso aumentar o número de incentivos. “Precisamos de benefícios fiscais. Há muitas restrições para a construção de motéis, e isso prejudica o mercado”, reivindica.
No ano passado, o empresário inaugurou o Nexos Motel, localizado em Piedade, na Região Metropolitana do Recife. O empreendimento, que já traz tendências do novo conceito de motel, com suítes sem apelo erótico e uma arquitetura diferenciada, é voltada para um público com alto poder aquisitivo. Por sua localização estratégica, é utilizado por muitos executivos que trabalham em Suape. “Tenho vários clientes que ficam hospedados por 15, 20 dias”, comenta Carlos. Ainda segundo o empresário, os outros empreendimentos (Eros e Via Norte) estão recebendo melhorias na cozinha para atender à nova demanda.
 | |
| O empresário Marcos Queiroz, do Fidji, Goa, Cristal, Rhodes e Praia Hotel, não acredita que a Copa possa beneficiar o setor moteleiro |
“Hoje já há uma grande procura por hospedagens durante os grandes eventos, como shows, congressos e também durante o carnaval”, afirma o empresário Marcos Queiroz, responsável pelas marcas Fidji, Goa, Cristal, Rhodes e Praia Hotel. Ele não acredita que a Copa possa beneficiar o mercado moteleiro. “As pessoas estão criando muitas expectativas em torno de algo que dura 30 dias. Não acredito que vá haver uma mudança tão significativa assim.”
O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis de Pernambuco (ABIH-PE), Eduardo Cavalcanti, garante que os turistas não terão problemas de hospedagem em 2014. De acordo com ele, a quantidade de leitos está acima da solicitada pela Fifa, órgão que organiza o Mundial de futebol. “A entidade pede que haja 10 mil leitos para suas operadoras. Hoje, temos 14 mil”, contabiliza. Ainda segundo o presidente da ABIH, há 36 mil leitos num raio de até 100km da Arena Pernambuco, como estipulado pela Fifa. “Mas se o Recife receber jogos de seleções grandes, como Portugal e Espanha, há o risco de não ter hotel para todo mundo”, adverte.
Esta matéria tem: (0) comentários
Não existem comentários ainda