Cinema Filme da pernambucana Katia Mesel aborda a proibição do parto em Fernando de Noronha Baseado em fatos reais, o curta-metragem Parto Sim! retrata a delicada situação das grávidas que precisam deixar suas casas até a 34ª semana de gestação e ir ao Recife

Por: Marina Simões - Diario de Pernambuco

Publicado em: 07/12/2018 11:55 Atualizado em:

A obra é estrelada por Augusta Ferraz, Laís Vieira e Raquel Ferreira. Foto: Parto Sim/Divulgação
A obra é estrelada por Augusta Ferraz, Laís Vieira e Raquel Ferreira. Foto: Parto Sim/Divulgação

Numa ida a Fernando de Noronha, a cineasta pernambucana Katia Mesel, de 70 anos, deparou-se com uma problemática que atinge as mulheres do arquipélago: elas são proibidas de dar à luz no arquipélago. A partir da constatação, ela desenvolveu o mote do seu mais novo trabalho. O curta Parto sim! terá uma exibição, nesta sexta-feira (7), na mostra Resistência Feminina, do Fest Aruanda 2018, em João Pessoa. O trabalho marca mais um passo na carreira da diretora, que celebra 50 anos de audiovisual. Neste ano, ela foi uma das homenageadas do Cine PE e recebeu o troféu Calunga de Ouro.

O enredo do filme, baseado em fatos reais, retrata a delicada situação das grávidas de Fernando de Noronha, que precisam deixar suas casas até a 34ª semana de gestação e ir para o Recife, onde há oferta de assistência médica adequada. “O cerne do curta é a impossibilidade da mulher nativa ter bebê lá, que é de grande impacto. A partir disso, a gente vai, inevitavelmente, apresentando problemas dos ilhéus nas mais diversas áreas. A gravidez precoce, a adoção e o aborto são mencionados dentro do contexto”, explica. A ideia inicial era produzir um documentário, mas o roteiro foi adaptado para a ficção, com financiamento do Edital Carmem Santos, do Ministério da Cultura (MinC), voltado para cineastas mulheres. 

A obra, estrelada por Augusta Ferraz (Amores de chumbo), Laís Vieira (Repulsa) e Raquel Ferreira (Onde nascem os fortes), aborda a vivência e como as mulheres do arquipélago são tratadas. “Foi a realidade que encontrei por lá. Transferi as falas que ouvi nas pesquisas para a boca das atrizes. Em um diálogo, uma delas diz: ‘Eles tratam melhor as tartarugas do que as mulheres’.” A produção também levanta críticas para a falta de oportunidades de trabalho. “Destacamos as questões femininas. Em observação simples, pode-se perceber que os nativos não têm possibilidade de crescimento. As mulheres não tem opção de trabalho. Ou vão trabalhar como garçonetes ou serviços gerais nas pousadas. É muito difícil encontrar uma guia turística ou instrutora de mergulho, são funções mais voltadas para os homens”, conta.

Os primeiros contatos com nativos se deram em 2005, durante as filmagens do filme O rochedo e a estrela, um documentário de longa-metragem. Apesar de retratar a realidade de moradores da Ilha, a produção foi rodada na Praia dos Carneiros, Litoral Sul de Pernambuco. Segundo Katia, após ter sido acertado o apoio da administração de Noronha e feito a pré-produção, houve uma negativa de isenção da taxa de permanência para a sua equipe. “Foram três meses de negociação. Conseguimos apoio para viagem de pré-produção. Passei uma semana com Avir Shamaim, nosso diretor de fotografia. Um trabalho minucioso todo jogado no lixo”, lamenta.

Questionada sobre o posicionamento da cineasta, a administração de Noronha informou apenas que “a Taxa de Preservação Ambiental (TPA) gera receita para a Ilha de Fernando de Noronha. E o caso da solicitação feita pela produção da equipe não atendeu os critérios para liberação do pagamento da TPA, conforme a Lei 10.403/89”. 
O filme teve parceria com o Projeto Alumiar e está acessível com audiodescrição (AD), Língua Brasileira de Sinais (Libras) e legendas para surdos e ensurdecidos (LSE). O projeto foi rodado em junho e finalizado em novembro. Após a exibição em João Pessoa, a cineasta quer exibir no Recife, neste mês, com festa de lançamento.

PARTO EM NORONHA
O nascimento de crianças não é autorizado no arquipélago por questões de segurança para as mães e filhos. De acordo com a Secretaria de Saúde, o hospital de Fernando de Noronha não tem as condições necessárias para realizar partos. O mesmo ocorre em outros municípios de Pernambuco. Em 22 anos, desde a vigência da determinação, só uma criança nasceu no local. O parto natural ocorreu em maio deste ano, e a mãe alegou não saber que estava grávida.


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