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Cinema Filme pernambucano Aquarius retrata o Recife de forma afetiva e crítica Longa-metragem de Kleber Mendonça Filho tem premiere nacional na cidade

Por: Júlio Cavani - Diario de Pernambuco

Publicado em: 20/08/2016 10:01 Atualizado em: 19/08/2016 22:23

Edifício Oceania, na Avenida Boa Viagem, serviu de locação para o filme com Sonia Braga. Foto: Victor Jucá/Divulgação
Edifício Oceania, na Avenida Boa Viagem, serviu de locação para o filme com Sonia Braga. Foto: Victor Jucá/Divulgação

"Recife tem um coração", afirma a letra de uma música de Reginaldo Rossi que está na trilha sonora do filme pernambucano Aquarius, exibido pela primeira vez no Brasil neste sábado, às 19h30, no Cinema São Luiz, depois de concorrer à Palma de Ouro no Festival de Cannes, entre outras conquistas em mostras internacionais.

O cineasta Kleber Mendonça Filho fez questão de fazer o lançamento nacional do longa-metragem na cidade onde tudo foi filmado, como um gesto simbólico de retribuição. Os ingressos para a sessão já estão esgotados, mas o público não precisa esperar tanto, pois a estreia no circuito cinematográfico está marcada para o dia 1º de setembro.

"Capitania que deu mais lucro", diz outro verso da mesma canção cantada por Rossi, chamada Recife, minha cidade. Aquarius retrata a capital pernambucana de forma afetiva e ao mesmo tempo crítica. Hierarquias e desigualdades sociais herdadas da época das capitanias hereditárias e do coronelismo, afinal, ainda persistem na política recifense e nas relações urbanas do cotidiano.

Mar de Boa Viagem e do Pina preenche a tela com impacto das cores. Foto: Victor Jucá/Divulgação
Mar de Boa Viagem e do Pina preenche a tela com impacto das cores. Foto: Victor Jucá/Divulgação

Interpretada por Sonia Braga, que estará pessoalmente hoje na pré-estreia, a protagonista é Clara, a última moradora de um prédio de três andares localizado na Avenida Boa Viagem, no bairro do Pina. Uma construtora deseja demolir o edifício para erguer um novo empreendimento imobiliário no local, mas a personagem não vê motivos para sair do lugar onde passou a vida. Ela é dona do apartamento e tem o direito de permanecer, mas começa a sofrer diferentes formas de pressão e a receber ofertas que não a interessam. Ao levar essa situação ao extremo, o filme mostra como o poder econômico tenta transformar a cidade à força, como se o Recife tivesse um "dono".

Na vida real do Recife, a história foi diferente. O Edifício Caiçara, que fica bem próximo ao prédio onde foram feitas as filmagens, foi demolido neste ano, apesar de protestos baseados em noções de patrimônio histórico e harmonia urbana. Em compensação, o Edifício Oceania, prédio utilizado em Aquarius, já ficou famoso e há quem faça fotos e pose para selfies em frente a ele.

Além das praias do Pina e de Boa Viagem, outras locações do Recife que aparecem em Aquarius são Brasília Teimosa, o Clube das Pás, o Restaurante Leite, o Cemitério de Santo Amaro e outros ambientes filmados com enquadramentos mais fechados, que não necessariamente serão reconhecidos pelo público recifense.

Cena passada no Clube das Pás é uma das mais animadas. Foto: Victor Jucá/Divulgação
Cena passada no Clube das Pás é uma das mais animadas. Foto: Victor Jucá/Divulgação

Antes de entrar no Restaurante Leite (um patrimônio histórico do Recife), a personagem vivida por Sonia passa em frente à Praça Joaquim Nabuco, no bairro de Santo Antônio, pela calçada de uma loja de eletrodomésticos onde antes funcionava o Cinema Moderno. A escolha não parece ter sido à toa, até porque Kleber desenvolve, neste momento, uma série de TV sobre antigos cinemas de rua.

A presença de Brasília Teimosa também funciona como reflexão sobre as contradições sociais da cidade. Na comunidade, Clara vai a uma festa de aniversário da família da empregada (interpretada por Zoraide Coleto). O filme mostra como uma mesma orla tem trechos reservados a diferentes classes sociais.

As praias do Pina e de Boa Viagem nunca foram filmadas de forma tão bela como em Aquarius, com uma valorização do azul e do verde da natureza. A direção de fotografia é assinada por Pedro Sotero e Fabrício Tadeu, os mesmos que trabalharam com Kleber em O som ao redor (2012). Para tomar banho de mar, entretanto, Clara prefere antes pedir ajuda ao bombeiro Clodoaldo (vivido por Irandhir Santos), que trabalha como salva-vidas, pois tem medo dos tubarões. O que seria uma paisagem natural relaxante, portanto, ganha um elemento de tensão ocasionado por um problema ecológico provocado pelos valores econômicos da mesma sociedade que destrói o Recife de "encantos mil" da canção de Reginaldo Rossi.

POR ONDE O FILME JÁ PASSOU
No Festival de Cannes, Sonia Braga ganhou prêmio paralelo de Melhor Atriz da Sociedade Internacional de Cinefilia pela atuação em Aquarius. O filme ainda foi premiado no Festival de Sydney (Austrália), no Transatlantyk Festival (em Lodz, na Polônia) e no Festival de Cinema de Lima (Peru), onde recebeu o Prêmio Especial do Júri e o Troféu de Melhor Atriz para Sonia. Passou por mostras em Jerusalém (Israel), Munique (Alemanha), Nantes (França), Auckland (Nova Zelândia), Melbourne (Austrália), Breslávia (Polônia), Sarajevo (Bósnia e Herzegovina) e Karlovy Vary (República Tcheca).

POR ONDE VAI PASSAR
Na França, a estreia está marcada para o dia 28 de setembro. O lançamento em mais 60 países também já está confirmado, tanto nos cinemas quanto na Netflix. Na próxima semana, o filme abrirá o Festival de Gramado, que homenageará Sonia Braga, e será projetado na inauguração de um cinema em Niterói (RJ). O longa também foi selecionado para os festivais de
Toronto (Canadá) e Nova York (Estados Unidos),
que estão entre os principais da América do Norte e são importantes prévias do Oscar.

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