RELAÇÕES INTERNACIONAIS O poder: a essência da política internacional

Por: Thales Castro

Publicado em: 20/02/2019 07:47 Atualizado em:

O poder representa, simultaneamente, essência e matéria das Relações Internacionais em qualquer época. Desde tempos remotos, a luta pelo poder (nem sempre pela justiça) tem sido a tônica das ações internacionais – muitas vezes camufladas na forma de atos humanitários e gratuitos. O poder é etéreo e é concreto; sua transcendência é substantiva e adjetiva. Adquiri-lo significa, para muitos atores internacionais, a necessidade consequente de preservá-lo ou mesmo de aumentá-lo; perdê-lo expressa derrotismo estatal com redução de prestígio e de capilaridade.

A natureza do poder possui cinco grandes pressupostos: poder é situacional, é relacional, é dinâmico, é assimétrico e é mensurável. Utilizando tal pressupostos podemos entender quão valiosa a “vontade de potência” (Nietzsche) tem se tornado. Poder é jogo de múltiplos tabuleiros internacionais e não é para todos – cabe salientar. Dadas as suas características, poder é veneno e é cura, simultaneamente. Nesta busca incessante do poder e pelo poder, alianças formais e informais são construídas e desfeitas à conveniência e ao interesse concreto de determinada conjuntura. Coalizões, de fato e de direito, são costuradas e esfaceladas nos fóruns multilaterais e mesmo no relacionamento bilateral entre os Estados com fins calculistas, utilitários e pragmáticos. Não há remorso no manuseio (moral ou amoral) do poder; há apenas consequências.

Percebe-se que a tessitura dinâmica do poder revela as entranhas da alma de grande parte dos seres humanos; disseca os elementos mais internos e escondidos do espírito – ou sendo mais específico: da alma dos Estados e de seus principais líderes – com seus arquétipos. Dessa maneira, não seria exagero afirmar que o poder representa busca fetichista, tendo alojamento no interior dos espaços por onde se desenvolvem as relações sociopolíticas e econômicas. O poder, como essência e como matéria, traz em si as sementes das várias formas de dominação e de controle sobre os indivíduos, sobre resultados esperados e sobre instituições no campo doméstico e no exterior.

Existe uma linha tênue quando estamos analisando as formas de crescimento, em termos de capital de poder, por parte dos países. As forças armadas representam vetor importante neste quesito, mas não somente o vetor militar é, exclusivamente, a única estratégia. Ademais, muitas vezes, o mero crescimento sustentado do produto interno bruto e a elevação dos investimentos estrangeiros diretos (IED), mesmo durante crises econômicas internacionais de um Estado continental (população acima de 100 milhões e área física extensa acima de 3 milhões de km²) aliada a uma liderança consistente é sinal de crescente estatura em termos de quociente de poder. Em vários casos, vitórias em contenciosos bilionários na OMC são exemplos do aumento da correlação no fortalecimento das empresas transnacionais do país. Tanto no campo comercial, com a expansão do mercado consumidor ou com a ampliação da capacidade competitiva externa, quanto no aumento da produção energética nacional tem sido pontos importantes de dilatação do quantum de poder. Além disso, a comprovada liderança em tecnologia de ponta com pesquisas nas áreas de biotecnologia, nanotecnologia, genética, robótica, telemática, química fina, indústria aeroespacial e cibernética, por exemplo, revela aumento da formação do capital intelectual, via investimentos em educação, atraindo interesse externo e maior magnetismo para o país. Assim, a junção do soft e do hard power perfaz a raiz dos ganhos de médio e longo prazos para as grandes nações do futuro.

Os longos ciclos de poder na arena internacional acabam também por revelar a tendência inexorável dos países: sua ascensão, sua maturação, seu declínio e sua queda. Assim aconteceu com Portugal e Espanha em finais do século XV e XVI; com a Inglaterra nos séculos XIX e início do XX; e com os EUA e a União Soviética na segunda metade do século XX. Resta saber como será a sucessão hegemônica neste início de século XXI: será que teremos um condomínio de poder sino-americano na governança das Relações Internacionais? Provavelmente, sim, sem esquecer, contudo, a participação da União Europeia e dos BRICS como atores de grande potência neste admirável mundo novo.

 O importante é perceber que o poder, na esfera externa, não deve ser um fim em si esmo. Ele deve ser instrumento de serviço e de ampliação do bem comum internacional. Tal qual a cabeça de Medusa, assim também é a patologia do poder quando não usado e equacionado de maneira justa e equilibrada. Seria utópico – assim sabemos – sugerir a extirpação do poder nas dinâmicas nas Relações Internacionais, porém é altamente salutar que o jogo seja jogado pelo menos com regras mais claras e coesas e, neste contexto, tem relevo os regimes multilaterais como contraponto. Seria, desta forma, uma maneira amena de domesticação civilizatória do cão raivoso do poder nas entranhas dos Estados Nacionais – será possível? Mais ainda: seria viável?

* Doutor em Ciência Política. Coordenador do Curso de Ciência Política da UNICAP. Cônsul de Malta e Presidente da Sociedade Consular de Pernambuco.


Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.