ACERTO DE CONTAS O fenômeno do "Hommo Lattes"

Por: Pierre Lucena

Publicado em: 19/05/2018 09:00 Atualizado em:

Participei de um debate na Sociedade Brasileira de Computação com um professor da PUC-RS e com um ex-Reitor de uma universidade federal. À época, era reitor da UNIFG e acredito ter sido convidado pela minha crítica assumida ao papel escolhido por parte dos profissionais das instituições de ensino superior, que é o de pesquisar em detrimento de ensinar. 

Pois bem, durante este debate todos falavam as “maravilhas” do espaço para produção científica nas universidades brasileiras, quase sempre reclamando da falta de incentivo dos governos com ciência, sequer citando o grande papel exercido pelas nossas universidades, que é a formação das pessoas. Temos centenas de milhares de pessoas formadas contribuindo efetivamente para a sociedade, tanto no setor público como no privado. Mas a verdade é que a cultura das universidades começa a transparecer que o ensino, especialmente na graduação, é algo de menor relevância.

Esta cultura foi se aprofundando nos últimos 15 anos, quando houve uma busca pela participação na pós-graduação dentro das Instituições, montando basicamente uma espécie de baixo e alto clero na academia. A CAPES, que é o órgão governamental responsável pela avaliação dos programas, começou a medir a produtividade de cada um deles, especialmente do professor.  

Nada de errado com isso, já que é bem saudável a busca por qualidade. Mas como todo sistema tupiniquim, começamos a abrasileirar a produção acadêmica. Tivemos uma proliferação imensa de revistas científicas para dar vazão à nova “produção acadêmica”, mas esquecemos do principal: a pesquisa servia para alguma coisa que não fosse para rechear o Currículo Lattes do professor? 

Essa multiplicação de revistas científicas de caráter duvidoso, somados à imensa produção de artigos irrelevantes vindos de teses e dissertações, criou uma grande jabuticaba acadêmica: transformou o objetivo de dar força à ciência em uma imensa produção de papel irrelevante que ninguém sequer lê. A verdade é que uma parte dos acadêmicos se preocupou apenas com a sobrevivência acadêmica, recheando o Currículo Lattes, criando o fenômeno do "Homo Lattes".

E falo isso com experiência pessoal: tenho algumas dezenas de papers publicados que tenho a suspeita de que não serviram para absolutamente nada a não ser para embelezar o meu currículo. Na melhor das hipóteses, ajudaram os estudantes de mestrado e doutorado em finanças a elaborar as suas teses ou a escrever artigos, obviamente para servir ao mesmo propósito. 

E aí volto ao tema inicial, que é a formação das pessoas. Esta deveria ser a função principal de grande parte das universidades. A produção científica relevante no país está sendo feita por ilhas de excelência (como o CIN-UFPE), ou por institutos de inovação ou pesquisa (como a Embrapa e o CESAR), mas não pelo grande conjunto de departamentos espalhados pelas instituições. Seria muito melhor reconhecermos o belo papel do ensino do que a ilusão de que há produção relevante em grande escala sendo feita. A verdade é que a irrelevância é a regra, não a exceção. 

O fato é que a pesquisa não é um jogo local, mas global. E nossas universidades não estão entre as 500 principais do mundo, o que nos leva à terrível conclusão de que nesta arena competitiva sequer podemos nos considerar como baixo clero. Salvo algumas exceções, estamos absolutamente fora do jogo. 

Para finalizar, relembrando o debate em que participei, falei que precisávamos na verdade prestigiar nossos alunos e o ensino, já que éramos professores e esse era nosso grande papel. E falei que em 25 anos de UFPE vivi intensamente o campus, seja como estudante (quando fui Presidente do DCE) ou como professor (quando fui candidato a Reitor e conheci bem a universidade), e só me lembrava de duas coisas muito relevantes, além da formação das pessoas que saíram da universidade para gerar valor para a sociedade pernambucana: o Porto Digital, que foi uma atividade conjunta dos professores do Centro de Informática e o Pacto pela Vida, que tinha sido um projeto praticamente individual do Professor José Luiz Ratton, do CFCH.

Fui interpelado pelo ex-Reitor que citei no começo, que me interrompeu dizendo:
- Claro que tem mais coisa, você que não lembra.
Minha resposta mostrou o tamanho da irrelevância:
- Realmente deve ter, mas eu não lembro.


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