Descoberta Alimentação alterou modo de falar do homem ao longo da evolução

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 16/03/2019 16:27 Atualizado em: 16/03/2019 16:30

FOTO: Valdo Virgo/CB/D.A Press (FOTO: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
FOTO: Valdo Virgo/CB/D.A Press
Mudanças na mordida humana induzidas pela dieta resultaram em novos sons, como f e o v em idiomas de todo o mundo, segundo um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Zurique. A descoberta, publicada na revista Science desta semana, contradiz a teoria de que a gama de sons produzidos pelo homem permaneceu fixa ao longo da história.

A fala humana é incrivelmente diversificada, variando de sons onipresentes, como m e a, a consoantes raras de cliques (produzidas apenas com os lábios, sem ajuda dos pulmões) em alguns idiomas da África Austral. Acredita-se que essa diversidade tenha sido estabelecida com o surgimento do Homo sapiens, por volta de 300 mil anos atrás.

Porém, o estudo realizado por um grupo internacional de cientistas lança nova luz sobre a evolução da linguagem falada. Ele mostra que alguns sons comuns a muitas línguas modernas são um desenvolvimento relativamente recente, que foi causado por mudanças na mordida induzidas pela dieta no Período Neolítico, pouco antes da idade do bronze.

Enquanto os dentes dos humanos costumavam se encontrar em uma mordida de ponta a ponta devido ao tipo de alimentação — castanhas, ossos, carcaças e carne crua, por exemplo —, iguarias macias, processadas e cozidas, que foram introduzidas mais recentemente, permitiram que o homem moderno retivesse a mordida juvenil que havia desaparecido anteriormente na idade adulta: dentes superiores um pouco mais à frente do que os inferiores. Essa mudança levou ao surgimento de uma nova classe de sons da fala, agora encontrada em metade das línguas do mundo: os labiodentais, ou sons feitos ao tocar o lábio inferior nos dentes superiores, por exemplo, quando se pronuncia a letra f.

“Na Europa, nossos dados sugerem que o uso de labiodentais aumentou drasticamente apenas nos últimos dois milênios, correlacionado com o aumento da tecnologia de processamento de alimentos, como a moagem industrial”, explica Steven Moran, pesquisador da Universidade de Zurique e um dos dois coprimeiros autores do estudo. “A influência das condições biológicas no desenvolvimento dos sons tem sido até agora subestimada”, constata.

Moldes culturais
Em uma teleconferência de imprensa, o coprimeiro autor, Damián Blasi, do Instituto Max Planck de Biologia Evolutiva, destacou que não se trata de uma mudança homogênea. “O processo foi gradual, não determinístico, diverso entre as regiões e as sociedades e, muitas vezes, modulado por fatores culturais e societais, como muitos outros fenômenos que envolvem o comportamento humano complexo.”

O projeto do estudo interdisciplinar de cinco anos foi inspirado por uma observação feita pelo linguista Charles Hockett em 1985. Hockett notou que as línguas que promovem os labiodentais são frequentemente encontradas em sociedades com acesso a alimentos mais macios. “Mas há dúzias de correlações superficiais envolvendo linguagem que são incertas, e o comportamento linguístico, como a pronúncia, não fossiliza”, diz Damián Blasi, do Instituto Max Planck de Biologia Evolutiva.

Para desvendar os mecanismos por trás das correlações observadas, os cientistas combinaram ideias, dados e métodos de diversos ramos científicos, incluindo antropologia biológica, fonética e linguística histórica. “Foi um caso raro de consiliência entre disciplinas”, diz Blasi. O que tornou o projeto possível foi a disponibilidade de conjuntos de big data, modelos detalhados de simulação biomecânica e métodos computacionais de análise de dados intensivos, de acordo com os pesquisadores.

“Nossos resultados lançam luz sobre conexões causais complexas entre práticas culturais, biologia humana e linguagem”, diz Balthasar Bickel, líder do projeto e professor da Universidade de Zurique. “Eles também desafiam a suposição comum de que, quando se trata de linguagem, o passado soa como o presente”. Dámian Blasi disse, na teleconferência, que espera que o estudo estimule uma discussão mais ampla sobre o fato de que alguns aspectos da linguagem e da fala devem ser tratados da mesma forma com que se encaram comportamentos complexos envolvidos tanto com biologia quanto com cultura.

“Nossos resultados lançam luz sobre conexões causais complexas entre práticas culturais, biologia humana e linguagem (…) Também desafiam a suposição comum de que, quando se trata de linguagem, o passado soa como o presente”
Balthasar Bickel, professor da Universidade de Zurique e líder da pesquisa

Cruzamentos genéticos na Península Ibérica
O maior estudo realizado até hoje sobre DNA antigo da Península Ibérica (atual Portugal e Espanha) traz novos conhecimentos sobre as populações que viveram nessa região nos últimos 8 mil anos. A descoberta mais surpreendente sugere que os cromossomos Y locais foram quase completamente substituídos durante a Idade do Bronze.

A partir de 2500 a.C. e continuando por cerca de 500 anos, as análises indicam que ocorreram eventos sociais tumultuados, influenciando a ancestralidade paterna dos ibéricos até hoje. O trabalho — publicado na edição desta semana da revista Science por uma equipe internacional de 111 pessoas, lideradas por pesquisadores da Harvard Medical School —, também detalha a variação genética entre antigos caçadores-coletores, documenta miscigenação de antigos ibéricos com pessoas do norte da África e do Mediterrâneo e fornece uma explicação adicional sobre por que os bascos atuais, que têm uma língua e uma cultura tão distintas, são também ancestralmente diferentes de outros ibéricos.

A equipe analisou genomas de 403 antigos ibéricos que viveram entre cerca de 6 mil a.C. e 1600 d.C., 975 povos antigos de fora da Ibéria e cerca de 2.900 pessoas atuais. As análises mostram que, já em 2500 a.C., os ibéricos começaram a viver ao lado de pessoas que se mudaram da Europa central e levaram, com elas, ancestrais genéticos das estepes russas. Dentro de algumas centenas de anos, os dois grupos se intercruzaram extensivamente.

Escolhas femininas

Casal enterrado na região: o DNA da mulher é ibérico e do homem, da Europa centraL. FOTO: Luis Benítez de Lugo Enrich and José Luis Fuentes Sánchez/Oppida
 (Casal enterrado na região: o DNA da mulher é ibérico e do homem, da Europa centraL. FOTO: Luis Benítez de Lugo Enrich and José Luis Fuentes Sánchez/Oppida
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Casal enterrado na região: o DNA da mulher é ibérico e do homem, da Europa centraL. FOTO: Luis Benítez de Lugo Enrich and José Luis Fuentes Sánchez/Oppida
Para surpresa dos pesquisadores, homens e mulheres dos dois grupos contribuíram com proporções surpreendentemente desiguais de DNA para gerações subsequentes. Antes de os europeus centrais se mudarem, os ibéricos não tinham ancestrais recentes detectáveis de fora da Península Ibérica. Depois de 2000 a.C., 40% dos antepassados gerais dos ibérios e 100% de seus ancestrais patrilineares — isto é, seu pai e o pai de seu pai e assim por diante — poderiam ser rastreados até os grupos que chegaram da Europa central.

“Os resultados foram surpreendentes”, disse Carles Lalueza-Fox, investigador principal do Laboratório de Paleogenômica do Instituto de Biologia Evolutiva e coautor sênior do estudo. “Os dados sugerem que houve uma grande mudança genética que não é óbvia do registro arqueológico”. O que poderia ter instigado uma mudança tão dramática ainda não está claro. Mas os pesquisadores têm um palpite: as mulheres ibéricas podem ter se sentido mais atraídas pelos recém-chegados e preferiram se unir a eles, em detrimento dos locais. 



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