remédio Remédio da hepatite pode eliminar o chicungunha, diz estudo Testes com células humanas têm resultados promissores também contra a febre amarela. Pesquisadores da Universidade de São Paulo estimam que o medicamento comece a ser usado, em no máximo três anos, para evitar epidemias

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 08/11/2018 08:31 Atualizado em:

A falta de vacinas faz com que o combate ao vírus transmitido pelo Aedes aegypti ocorra apenas com medidas de prevenção. Foto: AFP PHOTO / NICOLAS DERNE
A falta de vacinas faz com que o combate ao vírus transmitido pelo Aedes aegypti ocorra apenas com medidas de prevenção. Foto: AFP PHOTO / NICOLAS DERNE
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) descobriram que o medicamento sofosbuvir —  prescrito para tratar a hepatite C crônica — consegue, em testes com células humanas, eliminar o vírus da chikungunha e da febre amarela. Segundo a equipe, a substância tem potencial para ser usada no combate às doenças em pouco tempo. Isso porque ela já é usada clinicamente, o que encurta algumas testagens científicas. A expectativa é de que o remédio consiga ajudar a evitar epidemias previstas para os próximos dois anos. (Leia Para saber mais).

Detalhes sobre a ação do sofosbuvir foram divulgados no portal de estudos científicos F 1000 Research.  Em entrevista à agência de notícias da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Rafaela Milan Bonotto, uma das autoras do estudo, conta que os resultados do experimento com células humanas infectadas pelo chicungunha são surpreendentes e animadores. “A droga mostrou-se 11 vezes mais efetiva contra o vírus do que contra as células”, compara. Um estudo com análises relativas à febre amarela será divulgado brevemente.

Apesar dos resultados iniciais positivos, Rafaela Milan Bonotto adianta que mais pesquisas são necessárias para entender como se dá o efeito antiviral da substância. “Ainda não sabemos, com precisão, como a droga atua em termos moleculares. O que constatamos foi o resultado macroscópico: a eliminação do vírus e a preservação das células”, diz. No caso do tratamento da hepatite C, também causada por um vírus, o sofosbuvir inibe a proteína que sintetiza o genoma viral. “Pode ser que ocorra o mesmo com o chicungunha, mas o mecanismo de ação ainda precisa ser elucidado”, complementa a pesquisadora.

Economia
Outra vantagem do uso do medicamento é a possibilidade de ganhar um novo recurso para combater o chicungunha sem a necessidade de um grande investimento de tempo e financeiro. “O processo para a obtenção de um fármaco é extremamente demorado e caro. O tempo entre o início da pesquisa e a disponibilização do produto no mercado é de, em média, 12 anos. O custo é da ordem de US$ 1,5 bilhão ou mais”, detalha, também à agência Fapesp, Lucio Freitas-Junior, um dos autores do trabalho, professor da USP e orientador de Bonotto, que recebeu bolsa da Fapesp para conduzir o estudo durante o doutorado.

A estimativa do professor e de Rafaela Milan Bonotto é de que o remédio da hepatite C seja usado com nova aplicação em, no mínimo, 12 meses. “O sofosbuvir é uma droga que passou por todo o processo de aprovação para uso humano. Isso possibilita que ela possa vir a ser utilizada contra a chicungunha em um a três anos. O custo seria muito menor, estimado em cerca de US$ 500 mil”, explica Lucio Freitas-Junior.

Os cientistas creem que as descobertas resultem em novos estudos para o desenvolvimento de mais tratamentos. “Não há vacina desenvolvida, e as ferramentas para diagnóstico ainda precisam ser otimizadas. O sofosbuvir é algo concreto que pode se tornar uma ferramenta poderosa para lutar contra esse vírus. Os resultados de nossa pesquisa possibilitam que as instituições eventualmente interessadas deem início aos ensaios clínicos”, ressalta o professor.

Para Lucio Freitas-Junior, a chicungunha, bastante semelhante à dengue, merece atenção especial devido às possíveis sequelas da infecção. Não são poucos os casos de pessoas que têm a doença e são acometidas por dores articulares debilitantes, com o risco de interferir nas atividades profissionais e até na locomoção.

O vírus da chicungunha tem o mosquito Aedes aegypti como o vetor, assim como o da dengue e o do zika. Juntas, as doenças contabilizaram 269,4 mil casos suspeitos e 117 mortes de 1º de janeiro a 11 de agosto deste ano, segundo o Ministério da Saúde. A dengue responde por 75% dos casos. Em relação à chicungunha, foram 68,8 mil registros, sendo o Rio de Janeiro o estado com a maior incidência.

Brasil em alerta
Um surto de chicungunha poderá atingir o Brasil nos próximos dois anos. O alerta foi feito em junho pelo presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, Maurício Lacerda Nogueira, tendo como base um estudo da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) feito em parceria com o Instituto Butantan. O trabalho sinaliza a região Nordeste e a faixa litorânea do Sudeste como as áreas possivelmente mais afetadas, mas não as únicas.

“Hoje, vivemos uma situação em que todos os lugares do mundo se tornaram muito próximos. Saímos de São Paulo e, em menos de 24 horas, podemos estar no leste da Ásia. Milhões de pessoas estão indo e vindo a todo momento. E, eventualmente, algumas delas chegam doentes. Então, vivemos com o zika a ‘tempestade perfeita’. E vamos viver ainda a ‘tempestade perfeita’ de chicungunha. Podemos mitigar, mas não há nada que possamos fazer para evitar”, justificou o especialista em uma entrevista a Agência Fapesp de notícias.

“Ainda não sabemos, com precisão, como a droga atua em termos moleculares. O que constatamos foi o resultado macroscópico: a eliminação do vírus (da chicungunha) e a preservação das células”
Rafaela Milan Bonotto, uma das autoras do estudo


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