Israelense Pesquisa diz que tomar sol em dias alternados faz bem à saúde da pele Intercalar a exposição é suficiente para ativar a produção de melanina, pigmento que protege a epiderme dos raios UV e de cânceres

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 27/10/2018 17:38 Atualizado em: 27/10/2018 17:41

FOTO: Valdo Virgo/CB/D.A Press) (FOTO: Valdo Virgo/CB/D.A Press))
FOTO: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
Danos provocados na pele pelo Sol são comprovados pela ciência, como os melanomas, câncer com alta incidência mundial. Um estudo israelense mostra que a exposição controlada aos raios solares também pode ter consequência protetiva ao corpo: a produção de melanina. Em experimentos com células de pele humana e camundongos, os pesquisadores observaram que o contato com a luz ultravioleta (UV) a cada dois dias produz a pigmentação mais escura sem provocar danos ao DNA, uma das causas dos tumores. Os resultados publicados na revista Molecular Cell poderão ajudar no desenvolvimento de tratamentos anticancerígenos mais eficazes.

Segundo Carmit Levy, geneticista molecular da Universidade de Tel Aviv, em Israel, e autora principal do estudo, o impacto da periodicidade dos raios solares sobre a pele é um tema pouco explorado nos laboratórios médicos. “Tínhamos muita curiosidade, pois a maioria das pessoas estuda o efeito da dose de UV, e não a frequência”, conta.  A cientista explica que a pele responde à luz UV de duas formas. Na primeira, ela inflama e desencadeia uma resposta imune que repara a quebra de DNA induzida pela radiação. Dessa forma, as células para proteção de camadas subjacentes mais delicadas são multiplicadas, um efeito chamado resposta de estresse. A outra forma é a produção da melanina, um pigmento de cor marrom a preta presente na pele, nos olhos e nos cabelos que age como protetor solar natural.

As respostas de estresse à luz ultravioleta se iniciam em minutos, enquanto a produção de melanina pode levar horas ou dias para começar. No experimento, Levy e sua equipe expuseram camundongos à luz UV em períodos distintos: todos os dias, em dias alternados e a cada três dias. Dois meses depois, eles mediram a quantidade de melanina produzida e contaram o número de quebras de DNA nas células da pele das cobaias. O ciclo de 48 horas de exposição, o alternado, resultou na coloração mais escura das células e minimizou os danos provocados pela radiação.

Em uma segunda etapa, a equipe analisou células humanas pigmentadas derivadas de uma linhagem de células cancerígenas. Eles descobriram que o ciclo de 48 horas de estimulação das células com raios UV produziu maior pigmentação nas células humanas, minimizando os prejuízos da radiação. “O mesmo efeito visto nos ratos. Foi uma descoberta surpreendente, não esperávamos”, frisa Levy.

Joaquim Mesquita, coordenador nacional da Campanha de Prevenção contra o Câncer da Pele da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), destaca que o estudo traz dados novos em relação ao ciclo da melanogênese — de formação da melanina — no organismo dos animais, mas destaca que mais pesquisa são necessárias para que as descobertas possam ser confirmadas. “Temos que observar se o mesmo se repete em humanos. Caso se confirme, vemos que essa exposição de 48 horas seria um limite ideal para a produção da melanina sem causar danos como a quebra de DNA, um dos fatores relacionados ao câncer de pele”, pondera.

O especialista explica que o pigmento serve como um protetor da pele. Por isso, a menor incidência de tumores de pele em negros. “Existem exceções, claro. Bob Marley morreu por causa do melanoma”, ressalta. Para Mesquita, se confirmada em humanos, a pesquisa poderá ajudar ainda em estratégias de bronzeamento. “Com base nessas descobertas, seria interessante uma pessoa se bronzear com um intervalo de tempo, não em dias seguidos”, explica.

Aprofundamento
 
Os pesquisadores ainda não sabem explicar por que o relógio biológico da melanina dura 48 horas, mas levantaram algumas hipóteses. “Sabemos que a vitamina D, produzida pela pele quando exposta ao Sol, é estável no sangue por 48 horas. Talvez haja uma ligação entre esses mecanismos”, sugere Levy. Ele e a equipe darão continuidade ao trabalho para sanar essa e outras dúvidas. “Continuaremos a estudar esses ciclos e gostaríamos de entender melhor o efeito da exposição aos raios ultravioleta nas proteínas de nossas células e na corrente sanguínea. Acho que existem mais ‘relógios’ em nosso corpo para descobrir.”

Por enquanto, a descoberta de um temporizador de sistemas de proteção da pele sinaliza que o tempo é importante provavelmente em muitos outros sistemas do corpo, segundo Levy. “Acreditamos que, ao dar um medicamento ou uma combinação de drogas a um paciente, deve-se considerar o momento da aplicação do remédio, já que cada droga terá seu efeito. Desse modo, após a aplicação de um primeiro medicamento, o segundo deve ser usado em seguida em um momento exato”, detalha.

Mesquita também acredita que a pesquisa precisa ser aprofundada, pois novos estudos podem ajudar a gerar estratégias preventivas.“Acho que existam outros relógios biológicos relacionados ao funcionamento do organismo. Ao entender esses ciclos, podemos conseguir desenvolver maneiras de prevenir, que é algo que priorizamos. Evitar a doença causa menos sofrimento e é mais barato”, diz.

“Sabemos que a vitamina D, produzida pela pele quando exposta ao Sol, é estável no sangue por 48 horas. Talvez haja uma ligação entre esses mecanismos”
Carmit Levy, geneticista molecular da Universidade de Tel Aviv e autora principal do estudo



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