pesquisa Nicotina pode levar ao vício em álcool, diz pesquisa norte-americana Em ratos adolescentes, a exposição regular à substância altera mecanismos cerebrais inibitórios e aumenta a ingestão de bebidas alcoólicas. Segundo cientistas americanos, há a possibilidade de o mecanismo também ocorrer com humanos

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 25/09/2018 08:17 Atualizado em:

Em experimentos com ratos, cientistas identificaram que jovens expostos regularmente à nicotina ficam mais propensos a ingerir bebidas alcoólicas em excesso. Foto: Kleber Lima/CB/D.A Press
Em experimentos com ratos, cientistas identificaram que jovens expostos regularmente à nicotina ficam mais propensos a ingerir bebidas alcoólicas em excesso. Foto: Kleber Lima/CB/D.A Press
Combinadas, a dependência em nicotina e a em álcool podem comprometer o funcionamento do sistema cardiovascular, aumentar a vulnerabilidade a cânceres e a ocorrência de inflamações, entre outros malefícios. Um estudo americano traz outro dado que torna esse arranjo de drogas ainda mais preocupantes. Em experimentos com ratos, cientistas identificaram que jovens expostos regularmente à nicotina ficam mais propensos a ingerir bebidas alcoólicas em excesso. Uma mudança em mecanismos cerebrais explica o hábito, segundo artigo divulgado recentemente na revista Cell Reports.

“Estudos epidemiológicos em humanos inspiraram o nosso trabalho. Esses estudos indicam que a exposição à nicotina durante a adolescência leva à maior probabilidade de abuso de álcool, mas as razões e os mecanismos não eram conhecidos. Os estudos em animais ajudaram a responder como e por que a nicotina e o álcool estão ligados, e essas respostas que encontramos são subjacentes ao potencial de avanços terapêuticos”, conta ao Correio John Dani, principal autor do estudo e pesquisador da Universidade da Pensilvânia.

No experimento, os pesquisadores administraram nicotina, por meio de injeções diárias, em ratos adolescentes e adultos. As cobaias tinham à disposição uma alavanca que, ao ser acionada, liberava uma bebida alcoólica levemente adocicada. Ao longo do experimento, os roedores adolescentes passaram a empurrar a alavanca com mais frequência, registrando maior ingestão diária de etanol, quando comparados aos animais do grupo de controle (que não foram expostos à nicotina) e os adultos.

John Dani conta que eles descobriram que, nos ratos jovens, o contato com a nicotina alterou a função inibitória do circuito mesencefálico, que é mediado pelo neurotransmissor Gaba. “Mostramos que algumas conexões específicas do circuito inibitórios se tornam menos inibitórias ao álcool, se tornando conexões excitatórias, devido a  alterações em sinais específicos de Gaba”, detalha o cientista.

Segundo a equipe, essas alterações neuronais ocorrem a longo prazo e foram causadas por um decréscimo na função de um transportador de cloreto denominado KCC2, localizado em neurônios do mesencéfalo. Esse pode ser o caminho para conter a dependência. “A boa notícia — e mais importante — é que encontramos uma molécula crítica, a KCC2, que é um transportador de íons que regula a excitabilidade neuronal. Esse transportador pode ser um alvo para terapias destinadas a ajudar bebedores abusivos a diminuir o uso da bebida”, diz John Dani.

A partir da descoberta da ação da CKCC2, os cientistas pretendem também entender melhor a relação entre o cigarro e outras drogas, como a cocaína e a morfina. “Será que as mudanças nos centros de recompensa induzidas pela nicotina aumentam a probabilidade de o adolescente usar outras drogas que causam dependência?”, adianta o autor do estudo.

Eletrônicos
Hudson Mourão, neurologista do Hospital Anchieta, em Brasília, ressalta que há estudos mostrando que o contato com a poluição e metais pesados pode levar a vícios. O médico acredita que o trabalho americano é o primeiro a mostrar essa relação entre nicotina e álcool. “Embora isso não esteja no estudo, acreditamos que filhos de pais fumantes podem ter maior predisposição ao consumo de bebida alcoólica também, o que entra em concordância com os resultados”, complementa.

Para o médico, caso a pesquisa americana evolua, ela poderá ter impactos expressivos na saúde pública. “Ainda é um estudo inicial, precisa ser mais aprofundado para que outras vias possam ser descobertas, mas, caso isso se confirme com humanos,  poderá, por exemplo, incentivar  políticas públicas para a  proibição do consumo de cigarro em áreas públicas. Se sabemos que a nicotina pode gerar danos desse porte em adolescentes, essa exposição precisa ser evitada”, ilustra.

John Dani acredita que os resultados também chamam a atenção para a necessidade de se discutir o aumento do uso de nicotina por alunos do ensino médio em razão dos cigarros eletrônicos. “Sabemos, por meio da epidemiologia, que os adolescentes que usam nicotina a partir de e-cigarros são mais propensos a progredir para cigarros regulares e também  usar outras drogas que causam dependência”, justifica. “Nossa pesquisa mostra a ligação mecanicista entre o uso de nicotina na adolescência e o potencial para maior uso de álcool. Esses resultados são muito sérios, porque muitas pessoas não percebem que os e-cigarros são perigosos e não apropriados para os jovens. Esse mesmo mecanismo, visto na pesquisa com ratos, muito provavelmente também se aplica aos seres humanos.”

Artérias danificadas
Um estudo divulgado, em julho, no European Heart Journal mostra como o uso regular de álcool e cigarro pode danificar artérias do coração em pouco tempo. Cientistas do University College London (UCL) identificaram que, aos 17 anos, jovens que combinavam os dois hábitos apresentavam rigidez arterial até 10% maior que pessoas na mesma idade e não dependentes. A complicação cardíaca é um indicativo de danos nos vasos sanguíneos e uma preditora de problemas como ataques do coração e acidente vascular cerebral (AVC). Participantes que só bebiam ou só fumavam apresentaram quadros menos graves de endurecimento das artérias.


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