Testes Séries e filmes podem influenciar postura política dos espectadores Séries e filmes podem, até de forma inconsciente, influenciar a postura política dos espectadores, mostra livro americano baseado em 13 pesquisas

Por: Correio Braziliense

Por: Vilhena Soares - Correio Braziliense

Publicado em: 03/09/2018 20:40 Atualizado em:

Com a chegada de serviços de streaming, assistir a uma série por horas seguidas se tornou costume de grande parte da população. Enredos interessantes e, muitas vezes, pitorescos viciam o público, que devora temporadas inteiras em poucos dias, ou poucas horas. Essas histórias, além de distraírem, podem influenciar o ponto de vista político dos espectadores, mesmo que inconscientemente. É o que defende Anthony Gierzynski no recém-lançado livro Os efeitos políticos da mídia de entretenimento: como os mundos imaginários afetam as perspectivas políticas do mundo real.

O professor e chefe do Departamento de Ciências Políticas da Universidade de Vermont, nos Estados Unidos, relata, na obra, que, quanto mais ficcionais, mais as séries e os filmes têm o poder de influenciar os espectadores. E ainda: a quantidade exacerbada de roteiros e a facilidade de acesso a esses produtos têm impulsionado essa interferência.

Segundo Gierzynski, o conteúdo que as pessoas consomem por diversão desempenha papel importante nas atitudes relacionadas à tolerância, diversidade, justiça social, crime e terrorismo. “O estado mental único que ocorre quando somos transportados por histórias e nos identificamos com personagens faz das histórias fictícias — talvez, especialmente as mais desconectadas de nossa realidade atual, como fantasia e ficção científica — um agente mais potente da aprendizagem política do que tentativas explícitas de ensinar valores politicamente relevantes”, diz ao Correio.

O livro relata como o autor, com ajuda de seus alunos, conduziu 13 estudos e experimentos em busca de correlações entre a imersão dos participantes ao assistir programas de tevê e suas filosofias políticas. Os investigadores escolheram filmes e programas com assuntos políticos, como a série Game of Thrones, história épica em que duas famílias poderosas disputam o controle de sete reinos. Gierzynski explica que, nessa série, o bem raramente triunfa sobre o mal. Em vez disso: os vilões parecem desproporcionalmente ultrapassar e, muitas vezes, matar os personagens honrosos. Essas características se mostraram influentes na maneira de pensar dos espectadores, avaliados por meio de ferramentas padrão para pesquisas de ciências sociais, como formulários, entrevistas e dinâmicas de grupo.

Há, inclusive, a possibilidade de eles levarem para a vida real o que concordam ou discordam do que viram no roteiro. “A exposição às lições repetidas de Game of Thrones de que o mundo é cruel e injusto parece ter diminuído a tendência a acreditar no oposto, que o mundo é justo”, relata Gierzynski. Ele explica que uma pessoa que vê o mundo como injusto pode favorecer medidas socialmente corretivas para proteger os direitos humanos e tentar nivelar o “jogo” para os menos afortunados.

Fontes diversas
O novo livro de Gierzynski é uma das poucas obras que exploram a conexão entre entretenimento popular e crenças políticas por um viés científico e uma expansão de um livro laçado por ele em 2013. Em Harry Potter e os millennials: métodos de pesquisa e a política da geração dos trouxas, o autor escreve como descobriu que os livros e os filmes sobre o garoto bruxo influenciam as perspectivas políticas de adultos e como ficou claro para ele que o noticiário deixou de ser a única fonte de perspectivas sobre política. “Isso acrescido à suspeita de que as noções de exposição seletiva e de aceitação não funcionam da mesma maneira para o entretenimento que para notícias”, detalha.

Diante dos resultados, ele e a equipe se perguntaram por que séries e filmes exercem influência na visão política dos espectadores. Gierzynski acredita que, quando as pessoas são envolvidas por narrativas de histórias em meios de entretenimento fictícios, o estado mental delas é qualitativamente diferente do que quando estão processando informações. “Ao sermos transportados para uma história, tendemos a aceitar a realidade dela, nos envolver emocionalmente e no imaginário da história e deixar o mundo real para trás. Isso significa que somos menos propensos a contra-argumentar mensagens enquanto desfrutamos de entretenimento e mais propensos a levar essas mensagens quando deixamos os mundos fictícios”, explica.

Diálogos atuais
Para Rafael Garcia Barreiro, professor do curso de terapia ocupacional da Universidade de Brasília (UnB) no campus de Ceilândia, o estudo americano traz dados interessantes, que corroboram uma discussão atual sobre a relação entre o entretenimento e a política. “Sabemos que, hoje em dia, temos mais artifícios para pensar o tema: debates na internet, nas redes sociais. A Netflix, na época do impeachment da Dilma, publicou mensagens que brincavam, dizendo que o enredo político brasileiro estava mais difícil de entender que a série House of Cards, exibida por eles. Isso mostra o que o autor do livro destacou: que esses produtos têm papel importante na visão das pessoas sobre a política”, diz.

O professor da UnB também acredita que esses diálogos têm se tornado mais recorrentes devido ao fácil acesso a esses produtos culturais, produzidos incessantemente. “A internet trouxe a possibilidade de escolher o que assistir, algo que não tínhamos com a tevê. Acho que, se pegarmos comparativos com o quanto uma novela nos influenciava antigamente, conseguiríamos entender ainda mais como o entretenimento tem agido”, compara. “Se fizéssemos um cruzamento entre essas séries e o que é exposto nas redes sociais, entenderíamos ainda melhor esse cenário. Como na estreia de Game of Thrones, em que as pessoas só falavam sobre isso, o assunto estava no topo das buscas do Twitter.”


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