Saúde Homens têm medo e resistem à ideia de que irão envelhecer Pesquisa mostra que boa parte da população masculina brasileira não se cuida ou só presta atenção à saúde tardiamente.

Por: Alice de Souza - Diario de Pernambuco

Publicado em: 30/07/2018 15:16 Atualizado em: 30/07/2018 15:30

Na orla de Boa Viagem, o mestre de obras Gercino e o amigo praticam caminhada todo dia. Crédito: Nando Chiappetta (Nando Chiappetta)
Na orla de Boa Viagem, o mestre de obras Gercino e o amigo praticam caminhada todo dia. Crédito: Nando Chiappetta

Um em cada quatro pernambucanos será idoso até 2060. As projeções de envelhecimento da população, elaboradas pelo IGBE impõem a necessidade de repensar os hábitos de vida da população e até de refletir sobre o próprio conceito de envelhecimento. Sobretudo entre os homens, que vivem sete anos a menos do que as mulheres e não costumam cuidar da própria saúde. Uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia Seção São Paulo (SBGG-SP), em parceria com a Bayer, mostrou que, embora 43% dos homens brasileiros enxerguem a velhice como ameaça, quase metade não se cuida para chegar até ela. 

Realizado em oito capitais, o estudo mostrou que 94% dos homens recifenses têm uma percepção errada sobre quando começa o envelhecimento. Embora o organismo comece a envelhecer aos 28 anos, 48% acreditam que isso só ocorra depois dos 60, o que retarda os cuidados com a própria saúde e pode trazer consequências irreversíveis. “O jovem precisa entender que vai envelhecer e fazer uma espécie de poupança da saúde com foco em chegar bem nessa fase”, explica a médica e membro da sociedade, Maisa Kairalla.

Uma das formas de habilitar esse “crédito” é praticando exercícios e mantendo uma alimentação saudável. É possível afastar os principais medos relacionados ao avanço da idade, segundo a percepção deles. Mais da metade dos homens recifenses, por exemplo, acredita que ficará dependente de outras pessoas, 13% têm medo de ficarem sós, outros 13% de perderem o apetite sexual e 11% de terem alguma doença. “O processo de adoecimento faz parte, porém é preciso fazer a prevenção para evitar comorbidades. Hoje se fala em envelhecimento bem-sucedido, aquele com maior independência e qualidade de vida”, explica Maisa.

Pelo menos no quesito cuidado, os homens recifenses saltam na frente diante das outras capitais pesquisadas. Cerca de 53% deles afirmam que se alimentam bem e praticam exercícios físicos regularmente. Sempre que pode, o mestre de obras José Pedro da Silva, 69 anos, percorre a orla de Boa Viagem inteira de bicicleta com os netos. “Toda tarde também venho caminhar uns três quilômetros. Mas confesso que não me preocupo muito com a alimentação”, disse. 

O amigo dele, o pedreiro Gercino Monte, 80, faz parte de uma geração que deixou para cuidar da saúde já depois do envelhecimento. “Quando eu trabalhava, não tinha tempo. Não ia para médico, não fazia exercício físico. Depois que a minha esposa ficou doente e eu me aposentei, é que comecei a caminhar”, diz. Esse é um perfil que vem mudando, diz Maisa, mas não na proporção ideal, principalmente quando considerado o cuidado com as doenças que mais acometem os homens, como o câncer de próstata.

Embora sete em cada 10 homens recifenses conheçam alguém que já teve câncer, sendo o mais citado o de próstata, um terço não faz ideia de como se trata a doença e 2% sequer sabem que existe tratamento. Seis em cada 10 nunca realizaram um exame de toque retal, o que pode ser um reflexo da falta de prevenção. 

“Ao contrário de outros tumores que têm múltiplas formas de prevenção, para o câncer de próstata o importante é a detecção precoce. Por isso, é importante que os homens a partir dos 45 anos procurem o urologista anualmente”, explica o presidente da Sociedade Brasileira de Urologia – Seccional Pernambuco, Roberto Lucena.

Casos de câncer sem diagnóstico

Um em cada nove homens será diagnosticado com o câncer de próstata ao longo da vida, sendo que seis entre cada 10 diagnósticos ocorrerão depois dos 65 anos. O segundo tipo de neoplasia que mais acomete eles tem uma correlação com o envelhecimento. Somente para este ano, em Pernambuco, são estimados três mil novos casos. A cada 36 minutos, um homem morre por causa de câncer de próstata no país. Isso acontece porque 20% dos diagnósticos são dados em estágio avançado. Se descoberto precocemente, as chances de cura são de 90%.

O problema é que muitos homens ainda evitam fazer os exames de prevenção, por medo ou tabu, mesmo que segundo a pesquisa da SBGG-SP 64% dos homens brasileiros tenham medo do câncer. “No acompanhamento com o profissional é que será definido, inclusive, que tipo de exame o paciente fará. Nem sempre é preciso fazer todos”, explica o presidente da Sociedade Brasileira de Urologia - Seccional/PE, Roberto Lucena.

Mesmo com a tecnologia avançada e as múltiplas formas de reduzir os danos de uma cirurgia tradicional, nem sempre é preciso fazer intervenções na próstata. “Existe um pequeno grupo de tumores que são indolentes, não tendem a evoluir. É possível fazer uma vigilância ativa, acompanhar o paciente fazendo exames escalonados, sem a necessidade de um tratamento definitivo”, explica Lucena. Isso é possível em 10% dos casos.

O corretor de imóveis Ary Januário, 64 anos, sabe bem o impacto do câncer de próstata. “Tive a doença duas vezes. Na primeira, consegui me recuperar em 10 meses. Na segunda, fiquei com sequelas. Meu pai morreu da doença e minha família sempre bateu na tecla da importância da prevenção. Por isso, a minha recomendação é se cuidar”, afirma.


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