USP Células-tronco podem recuperar a qualidade visual dos idosos Pesquisa realizada por universidade brasileira confirma eficácia do autotransplante de medula no tratamento da degeneração macular

Por: Maria Julia Petroni - Jornal da USP

Publicado em: 18/07/2018 08:39 Atualizado em:

Foto: National Eye Institute of the NIH / Creative Commons
Foto: National Eye Institute of the NIH / Creative Commons
O autotransplante de células-tronco derivadas da medula óssea, realizado por meio do procedimento de injeção intraocular, mostrou melhora da visão e maior estabilidade na fixação em pacientes com degeneração macular relacionada à idade. O resultado positivo atingiu, principalmente, aqueles menos comprometidos, e ainda, mostrou melhora da qualidade de vida desses pacientes. O procedimento fez parte do estudo da oftalmologista Carina Costa Cotrim do Serviço de Retina e Vítreo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP.

Participaram do procedimento dez pacientes com mais de 50 anos que apresentavam a degeneração macular seca avançada. O material da medula de cada paciente foi coletado no próprio Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, por meio de punção do osso da bacia, procedimento considerado simples pelos especialistas. “A medula óssea aspirada é rica em células que podem se transformar em outras células e também apresentam grande potencial em liberar  fatores de crescimento que melhoram o ambiente da retina e resgatam aquelas células doentes.”

O material coletado foi processado e as células-tronco isoladas nos laboratórios do Hemocentro do Hospital das Clínicas da FMRP e injetado em uma quantidade de 0,1 ml no olho de pior visão.  Após a injeção, os pacientes foram acompanhados de três em três meses até completar um ano. Nesse período, diz a pesquisadora, passaram por  procedimentos como medida da melhor acuidade visual corrigida, microperimetria, eletrorretinografia, autofluorescência, angiofluoresceinografia e tomografia de coerência óptica para avaliar a função visual e, também, responderam questionários para avaliar a qualidade de vida.

Segundo Carina Cotrim, o estudo é uma análise inicial para o uso dessas células no tratamento da Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI) na forma seca, uma doença incapacitante, que leva à cegueira e afeta 8,7% dos idosos no mundo. “Até o momento, não existe nenhum tratamento efetivo e, portanto, é de grande importância estudos nessa área”, ressalta a pesquisadora.

Durante todo acompanhamento, afirma a cientista, o tratamento mostrou-se seguro e  o exame de angiofluoresceinografia não apresentou crescimento de vasos indesejados ou tumores na retina. “Houve melhora da visão da maioria dos pacientes tratados assim como maior estabilidade na fixação. Os idosos com menor grau da doença, ou seja, menor atrofia, apresentaram melhor evolução que aqueles com maior atrofia.

Para ela, a explicação para esse dado está no possível resgate funcional das células que ainda não morreram, mas não funcionam devido ao sofrimento. “Na avaliação da qualidade de vida, houve melhora significativa com ênfase na melhora da visão de cores e na saúde mental desses pacientes já aos seis meses de acompanhamento.”

Carina Cotrim lembra que diversas células-tronco estão sendo estudadas para as doenças oculares em todo o mundo. Células semelhantes às utilizadas em seu estudo também foram avaliadas pela pesquisadora Susanna Park na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, e também mostraram resultados animadores. A pesquisadora lembra, ainda, que o número de pacientes na pesquisa brasileira foi pequeno, por isso novos estudos devem ser realizados para ampliar os testes e confirmar os resultados.

O artigo Uso intravítreo de fração mononuclear da medula óssea (FMMO) contendo células CD 34+ em pacientes portadores de degeneração macular relacionada com a idade na forma atrófica” (Intravitreal use of bone marrow mononuclear fraction containing CD34 stem cells in patients with atrophic age-related macular degeneration) foi publicado na Revista Clinical Ophthalmology, no ano passado e resultado do mestrado de Carina Cotrim. Assinam também o artigo Luiza Toscano, André Messias, Rodrigo Jorge e o professor Rubens Camargo Siqueira, que foi orientador do mestrado, defendido em 2016.


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