Saúde Circunferência abdominal na infância é indicador de complicações futuras Especialistas recomendam que as medidas sejam monitoradas considerando idade e sexo da criança

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 11/06/2018 17:25 Atualizado em: 11/06/2018 17:28

Foto: Reprodução/Internet
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O tamanho da circunferência abdominal não deve ser uma preocupação só de adultos, alertam pesquisadores do Columbia University Medical Center, nos Estados Unidos. Após um estudo com 635 meninos e meninas, eles concluíram que, já aos 3 anos de idade, o problema pode ser considerado um sinal de maior probabilidade de ocorrência, na vida adulta, de doença hepática gordurosa não alcoólica e outras complicações no fígado. Detalhes do trabalho foram divulgados na publicação especializada Journal of Pediatrics.

Os pesquisadores tiveram contato com as crianças no início da infância (quando tinham em média 3 anos) e no meio da infância (em média, 8 anos). Em ambas as situações, registraram peso, altura, espessura das dobras cutâneas e circunferências da cintura e do quadril dos voluntários. Na segunda visita, também foram colhidas amostras de sangue para que a alanina aminotransferase (ALT), enzima do fígado, pudesse ser analisada.

“Verificamos que crianças com maior circunferência da cintura aos 3 anos de idade e aquelas com muito ganho de peso entre 3 e 8 anos eram mais dispostas a ter altos níveis de ALT, uma enzima que é um marcador para a saúde do fígado, inclusive para a doença hepática gordurosa não alcoólica”, conta Jennifer Woo Baidal, autora do estudo.

A cientista conta que, aos 8 anos, aproximadamente 35% das crianças eram obesas e tinham ALT elevado, enquanto somente 20% delas apresentaram peso normal e nível alto da enzima. “Somos os primeiros a estudar as mudanças na obesidade em crianças no início e no meio da infância para mostrar que as consequências negativas na saúde do fígado podem ser aparentes a partir dos 8 anos. A maioria dos estudos parecidos com esse começa com crianças de 10 anos”, comenta.

Baidal chama a atenção para a importância de aprofundar estudos na área, já que complicações hepáticas geralmente não são vinculadas à infância e à adolescência. Especialistas da área têm opiniões semelhantes. “O estudo mostrou que, quando as crianças evoluíram com o excesso de peso de uma idade a outra, todos os fatores de risco aumentaram. Mas nenhum estudo sozinho é 100% verdadeiro”, pondera Ivani Novato Silva, professora do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Além disso, o seguimento dessas crianças ao longo da vida adulta ainda pode trazer novas informações sobre o impacto da obesidade de início precoce”, comenta Renata Machado, docente da Universidade Federal de Goiás (UFG) e especialista em endocrinologia pediátrica.

Sem padrão

Diferentemente dos adultos, em que a circunferência abdominal ideal deve ter 88cm para mulheres e até 102cm para homens, não há um tamanho padrão para as crianças, que estão em fase de crescimento. Dessa forma, o acompanhamento da medida deve ser feito por um médico. A endocrinologista Renata Machado explica que o tamanho adequado varia de acordo com a idade e o sexo.

O que não é relativo, ressalta Ivani Novato Silva, é o cuidado em manter os pequenos saudáveis. “Se durante a infância a família for orientada para que a criança adquira um bom hábito de vida, com alimentação saudável, atividades físicas, pouco tempo de tela — isso inclui computador, videogame, celular e derivados —, a criança vai crescer com hábitos saudáveis e, assim, a obesidade será prevenida”, diz.

Incidente e silenciosa

A doença hepática gordurosa não alcoólica ocorre quando há um acúmulo de gordura no fígado, que pode desencadear inflamação do órgão e danificá-lo. A estimativa é de que 20% da população dos países ocidentais tenham o problema, que pode evoluir para cirrose hepática ou um câncer de fígado. Geralmente, os pacientes não apresentam sintomas da complicação, que pode ser descoberta em exame de sangue rotineiro.

Palavra de especialista

De diabetes a câncer

“Esse estudo reforça que a obesidade deve ser prevenida o mais precocemente possível, a fim de se evitar o desenvolvimento da doença hepática gordurosa não alcoólica. Quanto maior o tamanho da cintura, maiores os riscos metabólicos. A obesidade na infância leva a resistência da ação da insulina, que, por sua vez, aumenta o risco de desenvolvimento de diabetes tipo 2, de dislipidemia — aumento de colesterol e triglicérides — e de hipertensão. A longo prazo, isso se reflete na maior mortalidade por doenças cardiovasculares e câncer.”
Renata Machado, docente da Universidade Federal de Goiás e especialista em endocrinologia pediátrica



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