Tratamento Terapia hormonal trata 70% dos casos de câncer de mama em estágio inicial Estudo americano foi realizado com 10.273 pacientes e mostra que é possível evitar, em casos mais comuns de câncer de mama, a ação agressiva da quimioterapia

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 05/06/2018 08:00 Atualizado em:

O tumor não pode ter se espalhado para os gânglios linfáticos, e o médico precisa considerar o risco de recidiva. Foto: Anne-Christine Poujoulat/AFP
O tumor não pode ter se espalhado para os gânglios linfáticos, e o médico precisa considerar o risco de recidiva. Foto: Anne-Christine Poujoulat/AFP
Um estudo apresentado durante o Congresso Americano de Oncologia Clínica (Asco) promete revolucionar a escolha do tratamento de mulheres em estágio inicial de câncer de mama. O TAILORx, realizado pelo Centro de Câncer Albert Einstein de Nova York, concluiu que, para o tipo mais comum do tumor, nem sempre será preciso que a paciente seja submetida à quimioterapia. O tratamento após a cirurgia seria feito apenas pela terapia hormonal, menos agressiva e com reduzido efeito colateral.

Coautora do estudo, a oncologista Kathy Albain diz que, com os resultados, é possível evitar a quimioterapia em cerca de 70% das pacientes diagnosticadas com esse tipo de tumor, desde que ele não tenha se espalhado para os gânglios linfáticos. A estimativa dos pesquisadores é de que, só nos Estados Unidos, cerca de 65 mil mulheres seriam afetadas pelo novo protocolo.

O presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc), Sergio Simon, calcula que, no Brasil, aproximadamente 20 mil mulheres deixariam de se submeter à quimioterapia. “Isso representaria uma grande economia para as fontes pagadoras do tratamento, sem falar nos benefícios para a paciente”, comemora. Para ele, esse foi um dos grandes avanços apresentados durante a Asco, encontro que reúne cerca de 30 mil médicos de todo o mundo, realizado até hoje em Chicago.

A indicação de tratamento, porém, só seria possível após a realização do Oncotype DX, espécie de mapeamento genético que classifica o nível de possibilidade de recidiva da doença. Hoje, esse exame, disponível no Brasil, faz uma análise de 21 genes do tumor. A partir dessa avaliação, é criada uma espécie de pontuação, que vai de 0 a 100.

De 1 a 10, é considerada baixa a taxa de recidiva, e o tratamento é feito apenas com hormônio. De 25 a 100, o índice é considerado alto, e a quimioterapia tem indicação clínica. “Havia, porém, uma área cinza, que ficava entre o 11 e o 24, em que cabia ao médico, em conversa com a paciente, decidir que tratamento usar, se o quimioterápico ou o endócrino”, explica Daniel Gimenes, oncologista-clínico do Grupo Oncoclínicas, em São Paulo.

Os resultados do estudo, explica o médico, mostraram que o tratamento quimioterápico nas pacientes que se encontravam nessa faixa intermediária é desnecessário, bastando a terapia hormonal. “As descobertas terão um impacto imediato na prática clínica, poupando milhares de mulheres dos efeitos colaterais da quimioterapia, como náuseas, vômitos, perda de cabelo, fadiga e infecção”, comenta Gimenes.

Durante os testes, em toda a população estudada com pontuação entre 11 e 25, não houve diferença significativa entre os grupos tratados com e sem quimioterapia. Os resultados mostram ainda que todas as mulheres com mais de 50 anos e pontuação de 0 a 25 podem evitar a quimioterapia e seus efeitos colaterais tóxicos. A mesma recomendação serve para aquelas com menos de 50 anos e pontuação de 0 a 15. “(O estudo) deverá ter um grande impacto entre os médicos e pacientes. Estamos reduzindo a terapia tóxica”, ressalta Kathy Albain.

Alto custo
 
Um dos obstáculos é que o Oncotype DX ainda tem um custo muito alto no Brasil, em torno de US$ 4.500, e não é disponibilizado no Sistema Único de Saúde (SUS). “Também nem todos os planos de saúde cobrem esse mapeamento genético”, ressalta Simon. Disponível desde 2004, o teste é realizado em uma amostra de tecido tumoral.

O estudo também não é preciso sobre os resultados entre as pacientes jovens que se encontram na faixa intermediária de risco de recidiva. “Não há a certeza de que as mulheres com menos de 50 anos que estão na pontuação de 20 a 25 não precisam de quimioterapia. Então, a decisão do tratamento tem de ser individualizada e discutida entre médico e paciente.”

O estudo TAILORx englobou 10.273 mulheres, de 18 a 75 anos, com câncer de mama receptor hormonal positivo, receptor HER2 negativo, o tipo mais comum de tumor de mama. Dessas pacientes, 6.711 tinham o risco intermediário de recidiva, de acordo com a pontuação do mapeamento genético. Elas foram indicadas a receber a hormônio terapia isolada ou associada à quimioterapia. Detalhes do trabalho também foram divulgados em artigo publicado no New England Journal of Medicine. 


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