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Estudo Papel de plantas na regulação do ciclo hídrico é maior do que o imaginado Pesquisadores defendem que o impacto da vegetação na oferta futura de água seja incorporado a estudos sobre mudanças climáticas

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 07/04/2018 10:48 Atualizado em:

Análise mostra que efeitos desencadeados nas plantas pela alta concentração do carbono impactam no ciclo da água. Foto: Acervo Ibama
Análise mostra que efeitos desencadeados nas plantas pela alta concentração do carbono impactam no ciclo da água. Foto: Acervo Ibama
Com um mundo cada vez mais sedento, o futuro da água está nas mãos da vegetação. Um estudo da Universidade de Colúmbia, em Nova York, mostra que as plantas desempenham papel dominante no ciclo hídrico da Terra e que caberá a elas regular e dominar o estresse crescente imposto sobre rios, nascentes e mananciais. O trabalho, conduzido pelo engenheiro ambiental Pierre Gentine, foi publicado na revista Proceedings of National Academy of Sciences (Pnas).

“Nossa descoberta de que a vegetação desempenha um papel fundamental na resposta hidrológica terrestre e no estresse hídrico é de extrema importância para prever adequadamente estiagens e disponibilidade de água”, afirma Gentine, que pesquisa a relação entre hidrologia e ciência atmosférica, a interação Terra e atmosfera e o impacto desse binômio nas mudanças climáticas. “Essa constatação pode mudar nossa compreensão sobre as alterações no estresse hídrico continental no futuro”, observa.

A equipe de Gentine é a primeira a isolar o papel da vegetação no complexo de respostas do aquecimento global, que inclui variáveis do ciclo da água como evapotranspiração (quando a água proveniente de plantas e do solo nu evapora da superfície), umidade do solo e escoamento. Ao estudar especificamente a relação entre a cobertura vegetal e o aumento global de CO2, deixando de lado a influência direta dos gases de efeito estufa nos recursos hídricos, os pesquisadores conseguiram identificar que, mais que coadjuvante, a vegetação é o fator dominante para explicar o futuro estresse hídrico.

“As plantas são realmente o termostato do mundo”, diz Léo Lemordant, aluno de doutorado de Gentine e principal autor do artigo. “Elas estão no centro dos ciclos de água, energia e carbono. Enquanto absorvem carbono da atmosfera para se desenvolver, liberam água que retiram dos solos. Fazendo isso, também resfriam a superfície, controlando a temperatura que todos nós sentimos. Agora sabemos que principalmente as plantas — e não simplesmente a precipitação ou a temperatura — nos dirão se viveremos em um mundo mais seco ou mais úmido”, afirma.

Impacto fisiológico

No estudo, Gentine e Lemordant utilizaram modelos de fisiologia da vegetação e de resposta atmosférica às mudanças climáticas, usando depois uma análise estatística atualizada, disponibilizada pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU). Os resultados indicaram que as mudanças nas principais variáveis do estresse hídrico são fortemente modificadas pelos efeitos fisiológicos da vegetação, em resposta ao aumento de CO2 nas folhas.  “Isso ilustra com profundidade como os efeitos fisiológicos desencadeados pela elevação de concentração do dióxido de carbono impactam o ciclo da água. A resposta fisiológica do CO2 tem um papel dominante na evapotranspiração, um efeito importante no escoamento a longo prazo e uma grande influência na umidade do solo”, observa Lemordant.

Segundo os autores, o estudo destaca o papel fundamental da vegetação no controle da futura resposta hídrica do planeta terrestre e enfatiza que os ciclos continentais de carbono e água estão intimamente associados à terra, devendo ser estudados como um sistema interligado. Os resultados, diz o artigo, também enfatizam que os hidrólogos devem colaborar com ecologistas e cientistas climáticos para prever melhor os recursos hídricos.“O trabalho ressalta uma necessidade urgente de estudarmos melhor a forma como as plantas responderão ao aumento do dióxido de carbono atmosférico. A vegetação pode ter um grande efeito no clima da Terra, e temos de entender melhor como elas responderão ao dióxido de carbono, ao aquecimento e a outras formas de mudança global”, avalia James Randerson, professor da Universidade da Califórnia, em Irvine, que não participou do estudo.

“Os efeitos fisiológicos da biosfera e as interações relacionadas à biosfera/atmosfera são fundamentais para prever o futuro estresse hídrico continental, representado pela evapotranspiração, pelo escoamento a longo prazo, pela umidade do solo ou pelo índice de área foliar”, diz Gentine. “Por sua vez, o estresse hídrico da vegetação regula em grande parte a absorção de carbono da terra. Isso não pode ser avaliado isoladamente”, sustenta. Agora, os pesquisadores pretendem desvendar ainda mais os efeitos fisiológicos das plantas em resposta à mudança do clima. “A resposta da vegetação é complexa”, afirma o pesquisador.



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