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saúde Estudo revela marcador de risco de doença cardiovascular associada a diabetes A descoberta poderá ser uma importante ferramenta para rastrear os problemas cardiovasculares de forma antecipada

Por: Agência Estado

Publicado em: 04/04/2018 21:18 Atualizado em:

Foto: Marcos Santos/USP
Foto: Marcos Santos/USP
Um novo estudo realizado nos Estados Unidos, com participação brasileira, revela que os níveis de determinados aminoácidos no organismo podem ser utilizados como marcadores para o risco de desenvolver doenças cardiovasculares. 

De acordo com os autores da pesquisa, publicada recentemente na revista científica Genomic and Precision Medicine, a descoberta poderá ser uma importante ferramenta para rastrear os problemas cardiovasculares de forma antecipada. 

Segundo eles, essas doenças se desenvolvem em longo prazo durante a vida de uma pessoa, de forma silenciosa - isto é, quando aparecem os sintomas, o problema já está em estágio avançado - e por isso é importante descobrir novas ferramentas que ajudem a antecipar o diagnóstico.

Em julho de 2017, o cardiologista brasileiro Paulo Harada, do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica da Universidade de São Paulo (USP), já havia publicado, em parceria com cientistas da Universidade de Harvard (Estados Unidos), um estudo que revelava um novo marcador capaz de prever o risco futuro de diabetes, mesmo antes do exame mostrar glicose alta. 

Desta vez, os pesquisadores analisaram aminoácidos de cadeia ramificada que tem sido apontados como marcadores de risco futuro de diabetes e descobriram que o nível desses aminoácidos também está associado ao risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares em mulheres.

Segundo Harada, a associação é especialmente forte nos pacientes que desenvolveram diabetes ao longo do estudo. "Ou seja, esses aminoácidos demarcaram um caminho comum entre o desenvolvimento do diabetes e das doenças cardiovasculares", disse Harada ao jornal O Estado de S. Paulo.

Os aminoácidos de cadeia ramificada - isoleucina, leucina e valina - são considerados aminoácidos essenciais, porque não são produzidos pelo organismo e precisam ser obtidos na dieta. Embora esses aminoácidos sejam utilizados em nutrição esportiva, segundo Harada, o estudo não permite dar nenhuma recomendação sobre redução ou aumento do seu uso.

"Não sabemos se as alterações nos níveis desses aminoácidos são apenas um termômetro, ou se eles são um fator causal das doenças cardiovasculares. Por isso não há como fazer nenhuma recomendação para aumentar ou reduzir a ingestão desses aminoácidos.Nosso estudo não trata desse aspecto e não permite tirar conclusões sobre isso", alerta Harada.

Segundo Harada, o estudo foi possível graças às novas tecnologias de metabolômica - que é o estudo do conjunto das moléculas produzidas no organismo quando alguma substância é metabolizada.

"Com essas técnicas, podemos analisar centenas, às vezes milhares de moléculas de uma vez, a fim de determinar quais têm alguma relevância. Analisando os aminoácidos de cadeias ramificadas, mostramos que sua ocorrência em altos níveis nos permite prever um maior risco cardiovascular", disse Harada.

Como os pesquisadores também observaram que a associação entre o nível dos aminoácidos e as doenças cardiovasculares é mais forte nos pacientes que desenvolveram diabetes, o estudo também demarcou um caminho comum entre as duas doenças.

"Há uma sobreposição bem evidente entre as duas doenças. De um lado, grande parte dos diabéticos têm risco maior de sofrer de uma doença cardiovascular - que é uma das principais causas de morte nesse grupo. Por outro lado, grande parte das pessoas que têm problemas cardiovasculares também apresenta diabetes", disse.

Como essa associação já era conhecida, ela foi o ponto de partida para o estudo, com foco no aspecto sobre o qual havia poucos dados disponíveis: as doenças cardiovasculares. Segundo Harada, houve uma associação do alto nível dos aminoácidos com risco futuro de enfarte do miocárdio, acidente vascular cerebral e revascularização coronariana. 

"A parcela de 20% dos pacientes que tinham o marcador em níveis mais elevados apresentou também um risco 30% maior de desenvolver essas doenças cardiovasculares em um período de 18 anos, em comparação à parcela de 20% dos pacientes com níveis mais baixos do marcador", afirmou Harada.

Visão privilegiada

Para confirmar se os níveis de aminoácidos realmente estavam funcionando como marcadores para o risco de doença cardiovascular associada à diabetes, os cientistas fizeram ajustes em modelos estatísticos para outros marcadores que servem exclusivamente para identificar riscos cardiovasculares - como PCR e HDL. O teste resistiu ao ajuste e a associação foi anulada.

"Ou seja, descobrimos que esses aminoácidos marcam exatamente esses riscos e não outras coisas. Por isso percebemos que esse marcador tem o potencial para acrescentar algo: está enxergando coisas que outros marcadores não veem." 

Assim como as doenças cardiovasculares, o diabete também é um processo lento e insidioso, que acaba iludindo os exames tradicionais: quando eles detectam o problema, ele já está em estágio avançado. 

"É um processo que se estende pela vida toda e parecia absolutamente silencioso. Mas os marcadores que estamos identificando estão mostrando que há uma forma de rastrear essas doenças de forma bastante antecipada", afirmou o cientista.

Além de Harada, participaram do estudo Joann Manson, Deirdre Tobias, Patrick Lawler, Olga Demler, Paul Ridker, Susan Cheng e Samia Mora.



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