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HISTÓRIA Mudanças climáticas permitiram evolução dos primeiros Homo sapiens Grandes alterações também ajudaram na formação de características marcantes da espécie, como a coleta de alimentos e o comércio

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 16/03/2018 09:28 Atualizado em: 16/03/2018 09:37

Pesquisadores detectaram, na Bacia Olorgesailie, sinais de atividades ocorridas há 320 mil anos, como a criação e a troca de ferramentas (Foto: Instituto Smithsonian/Divulgação)
Pesquisadores detectaram, na Bacia Olorgesailie, sinais de atividades ocorridas há 320 mil anos, como a criação e a troca de ferramentas

Por volta de 800 mil anos atrás, as várzeas que ocupavam boa parte do território onde hoje é o Quênia começaram a passar por uma transformação dramática. No lugar da umidade persistente, períodos de aridez se revezavam aos de chuva, fazendo com que as planícies inundadas se transformassem em um pasto. Essa mudança exigiu adaptações da fauna local. Ao longo do tempo, animais que demandavam um consumo energético excessivo foram extintos. Por outro lado, os de estrutura física menor emergiram. Passado meio milhão de anos, o cenário era outro. Fértil, com uma grande variedade de alimentos e possibilitando deslocamentos extensos, a região tornou-se ideal para o florescimento de uma nova espécie, que começava a se proliferar no leste africano: o Homo sapiens.

Ao avaliar evidências arqueológicas e naturais da Bacia Olorgesailie, um dos mais ricos sítios com vestígios de ocupação humana da África, pesquisadores descobriram que as alterações ecológicas moldadas, em primeiro lugar, pelas variações climáticas foram essenciais para a evolução do homem moderno e de características culturais marcantes da espécie, como a mobilidade, a coleta de alimentos, a tecnologia e até o comércio. De acordo com os autores da pesquisa, publicada em três artigos na edição desta semana da revista Science, isso implica uma "revisão significativa do comportamento do hominídeo africano na época em que o Homo sapiens se originou".

Terremotos

Liderado pelo Museu Nacional de História Natural do Instituto Smithsonian, o trabalho indica que atividades como comércio, uso de pigmentos coloridos e ferramentas sofisticadas estavam presentes há 320 mil anos, época que coincide com os fósseis do homem moderno mais antigos já encontrados. Até agora, acreditava-se que essas características cognitivo-comportamentais tinham surgido algumas dezenas de milhares de anos depois do surgimento do Homo sapiens, já no neolítico, ou idade da pedra polida.

Segundo Rick Potts, diretor do Programa de Origem Humana do museu, as descobertas realizadas na região de Olorgaesilie indicam que a emergência desses comportamentos coincide com uma grande variação ambiental, marcada não só por alterações no clima, mas em toda a infraestrutura local. “À medida que terremotos remodelaram a paisagem e o clima passou por flutuações entre seca e umidade, a inovação tecnológica, as redes de troca sociais e as primeiras comunicações simbólicas podem ter ajudado os primeiros humanos a sobreviver e obter recursos que precisavam, apesar dessas condições imprevisíveis”, diz. “Isso levou a um conjunto de comportamentos muito sofisticados, que envolveram grande habilidade mental e vidas sociais mais complexas. Talvez isso tenha sido o que nos distinguiu dos outros humanos primitivos”, acredita Potts, principal autor de um dos três artigos da Science.

O antropólogo explica que as primeiras evidências de vida humana na Bacia Olorgesailie datam de cerca de 1,2 milhão de anos atrás. Por centenas de milhares de anos, os hominídeos da região fabricaram e usaram ferramentas de pedra rudimentares conhecidas como handaxes. Em 2002, Rick Potts e Alison Brooks, professora de antropologia da Universidade de George Washington, descobriram diversos instrumentos menores e muito mais bem-acabados nesse local. A datação revelou uma surpresa: elas foram fabricadas entre 320 mil e 305 mil anos atrás, bastante tempo antes do imaginado. Cuidadosamente trabalhadas, as ferramentas foram esculpidas para vários propósitos: algumas se adequavam a projéteis, outras eram perfeitas para cortadoras ou sovelas.

Redes sociais

Essa não foi a única surpresa. Além das peças fabricadas com material local, a equipe de pesquisadores encontrou pontas de pedras do período neolítico feitas com obsidiana, matéria-prima que não é natural da bacia. Também foram detectadas peças maiores e não trabalhadas retiradas de pedras vulcânicas. A avaliação da estrutura química desses artefatos apontou que viriam de diversas fontes obsidianas provenientes de localidades de 25km a 90km distantes de Olorgesailie. Isso sugere a existência de redes sociais na região.

"Essas inovações comportamentais podem ter representado muito bem uma resposta às rápidas mudanças no ambiente", disse, em nota, Tyle Faithy, curador de arqueologia no Museu de História Natural de Utah e coautor de um dos artigos. "Uma resposta como essa deve ter ajudado as populações humanas a suportar mudanças climáticas e ambientais que provavelmente contribuíram para o fim de outras espécies na região", acredita.

Outra importante descoberta da equipe foram rochas pretas e vermelhas (manganês e ocre, respectivamente) associadas a evidências de que haviam sido processadas para serem usadas como pigmento. "Não sabemos a coloração que eles utilizaram, mas podemos dizer que é um indício de comunicação simbólica complexa. Assim como hoje as roupas ou bandeiras levam cores que expressam identidade, esses pigmentos podem ter ajudado as pessoas a manter vínculos e a formar alianças com grupos distantes", suspeita Potts. "O transporte de obsidiana e a coleta e processamento de pigmentos implica o desenvolvimento de redes sociais que conectavam membros de nossa espécie por longas distâncias. Essa prática é uma das características da nossa espécie", ressalta Alison Brooks.

Isso levou a um conjunto de comportamentos muito sofisticados, que envolveram grande habilidade mental e vidas sociais mais complexas. Talvez isso tenha sido o que nos distinguiu dos outros humanos primitivos, afirma Rick Potts, diretor do Programa de Origem Humana do Museu Nacional de História Natural do Instituto Smithsonian.

Sequenciado mais antigo DNA de fóssil africano

Ossos estavam no Marrocos: indícios de interação com o Oriente Próximo (Foto: Abdeljalil Bouzouggar/Divulgação)
Ossos estavam no Marrocos: indícios de interação com o Oriente Próximo


Uma equipe internacional de pesquisadores liderada por Johannes Krause e Choongwon Jeong, do Instituto Max Planck para Ciência da História Humana, na Alemanha; e por Abdeljalil Bouzouggar, do Instituto Nacional de Ciências de Arqueologia e do Patrimônio, no Marrocos, sequenciou o mais antigo DNA nuclear de um fóssil africano. O material genético tem cerca de 15 mil anos e pertenceu a indivíduos da idade da pedra polida. Os cientistas descobriram que essas pessoas, que viviam onde hoje é o Marrocos, tinham uma herança genética em parte similar à das populações do Oriente Próximo e em parte associada à de grupos da África Subsaariana.

O norte da África é uma área importante na história da evolução da espécie humana. A geografia faz do local uma interessante área para estudar como humanos saíram de lá. Embora parte do continente africano, o Deserto do Saara acaba sendo uma barreira para viajar para lá, desde o sul. Similarmente, o norte é parte da região mediterrânea, mas, no passado, o mar pode ter sido um impeditivo para a interação com outros povos também. "Uma compreensão melhor da história do norte-africano é crítica para compreender a história da nossa espécie", explica Saaïd Amzazi, um dos coautores do trabalho, publicado na Science.

Os pesquisadores estudaram um sítio funerário na Gruta dos Pompos, no Marrocos, local associado à cultura ibero-americana da idade da pedra lascada. Acredita-se que esse povo foi o primeiro na área a produzir ferramentas de pedra mais elaboradas, chamadas microlitos. "A gruta é um lugar essencial para a compreensão da história humana no nordeste da África, já que humanos modernos frequentemente habitaram essa caverna, de forma intensiva, durante períodos prologados, desde meados da idade da pedra. Cerca de 15 mil anos atrás, há evidência de uso mais intensivo do local, e os ibero-maurisianos (nome do povo que morava lá) começaram a enterrar seus mortos na caverna", conta Louise Humphrey, do Museu de História Natural de Londres.

Avanço

Os pesquisadores analisaram o DNA de nove indivíduos de Taforalt, no Marrocos, usando sequenciamento avançado e métodos analíticos. Conseguiram retirar dados mitocondriais de sete dos fósseis e o genoma completo de cinco deles. Devido à idade das amostras e à pobre conservação característica da área, esse é uma grande vitória, disseram os pesquisadores. "Esse é o primeiro e mais antigo DNA de nossa espécie recuperada na África", disse Abdeljalil Bouzouggar. De acordo com ele, cerca de dois terços da herança genética dos indivíduos associa-se às populações contemporâneas do Levante e um terço é mais similar à dos africanos subsaarianos, particularmente os ocidentais.

A alta proporção de ancestralidade do Oriente Próximo mostra que a conexão entre o norte da África e o Oriente Próximo começou muito antes do que se acreditava anteriormente. Embora as associações entre essas regiões tenham sido mostradas em estudos anteriores para períodos mais recentes, não se acreditava que os humanos estivessem interagindo por essas distâncias durante a idade da pedra. "Claramente, as populações humanas estavam interagindo muito mais em áreas mais distintas do que o assumido previamente", diz Johannes Krause, diretor do Departamento de Arqueogenética do Instituto Max Planck.
 

 





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