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Mudanças Ganho em saúde faz valer investimentos no Acordo de Paris A redução na prevalência e na mortalidade por doenças associadas à poluição atmosférica compensa o investimento em medidas para amenizar e combater as mudanças climáticas, mostra estudo espanhol

Por: Paloma Oliveto - Correio Braziliense

Publicado em: 09/03/2018 10:13 Atualizado em:

O impacto seria sentido principalmente em países muito populosos. China economizaria 55% em saúde pública. Foto: AFP Photo (Foto: AFP Photo)
O impacto seria sentido principalmente em países muito populosos. China economizaria 55% em saúde pública. Foto: AFP Photo


Os custos para implementar o Acordo de Paris entre 2020 e 2050 não são baixos e têm suscitado discussões pouco produtivas entre países ricos e em desenvolvimento. Contudo, um estudo publicado na revista The Lancet Planetary Health demonstra que os valores investidos em medidas de mitigação e combate às mudanças climáticas são compensados pela economia global em saúde pública, devido à redução na prevalência e na mortalidade por doenças associadas à poluição atmosférica.

Em dezembro de 2015, o acordo costurado na capital francesa determinou que, até 2050, o aumento médio na temperatura fique até 2ºC acima dos níveis pré-industriais e, desejavelmente, atinja no máximo 1,5°C. Até agora, 195 países assinaram o documento, mas, faltando dois anos para que ele passe a valer, não está claro como as metas serão atingidas, e as discussões sobre financiamento avançaram pouco. De modo geral, estima-se que os custos de implementação do acordo variem de 0,5% a 1% do Produto Interno Bruto global (de US$ 22,1 trilhões a US$ 41,6 trilhões) no cenário dos 2ºC, e de 1% a 1,3% no do PIB no caso da meta mais ousada: de 1,5ºC.

De acordo com o modelo desenvolvido pelos pesquisadores do Centro Basco de Mudanças Climáticas, na Espanha, esse investimento é compensado pela economia com os gastos em saúde pública e perda de produtividade. Eles estimam que, se a meta dos 2ºC for alcançada, os óbitos associados à poluição cairão de 21% a 27% entre 2020 e 2050, e de 28% a 32% no caso da meta de 1,5ºC.

No estudo, os autores combinaram um número de modelos preexistentes para estimar os níveis de emissão, óbitos por poluição (como resultado de doenças respiratória e cardiovascular, derrame, câncer de pulmão, doença pulmonar obstrutiva crônica e infecção aguda do trato respiratório inferior) e seus custos, comparando com os investimentos com mitigação de mudanças climáticas para Estados Unidos, 27 países europeus, China, Índia e o resto do mundo (que foi aglutinado em um só grupo). Os cientistas, então, estimaram os impactos de não se fazer nada em relação ao clima, continuando com as políticas atuais, e de se adotar três diferentes estratégias para implementar e financiar o Acordo de Paris.

Atualmente, os compromissos adotados nacionalmente pelos países que fazem parte da Convenção das Mudanças Climáticas da ONU são estimados em US$ 7,5 trilhões e têm potencial de reduzir em 5% as mortes associadas à poluição atmosférica no mundo entre 2020 e 2050, comparados a não se fazer nada — seriam 122 milhões de mortes se os objetivos nacionais forem colocados em prática, contra 128 milhões, caso tudo continue como está. Nesse cenário, a maior parte do fardo de financiamento ficaria com Estados Unidos e União Europeia (US$ 4,9 trilhões e US$ 2,2 trilhões, respectivamente). Isso corresponde a 95% do valor estimado para a implementação das metas.

Mais vantagens

Dos cenários testados, os esforços para alcançar a meta de 2ºC foram os que resultaram em maior custo-benefício global: nesse caso, a economia com saúde pública seria o dobro dos gastos com políticas de mitigação — enquanto sairiam US$ 22,1 trilhões, US$ 54,1 trilhões seriam poupados. Nos três modelos, os países que teriam maior economia graças aos investimentos com o Acordo de Paris seriam Índia e China (43% e 55%, respectivamente). Isso porque as duas nações concentram a maioria da população mundial, sendo que muitos de seus habitantes estão expostos a níveis de poluição mais altos que o aceitável.

Para os Estados Unidos e a União Europeia, embora a economia com saúde também seja grande, ela, sozinha, não compensa totalmente os gastos com políticas de mitigação. Contudo, Anil Markandya, professor do Centro Basco de Mudanças Climáticas e principal autor do artigo, ressalta que isso é apenas um dos benefícios de se reduzir as mudanças climáticas. “Alcançar a meta de 2ºC traz benefícios consideráveis, tanto à saúde quanto a oportunidades de emprego, redução de perdas e danos de propriedades e redução de perdas agrícolas. Se conseguirmos chegar à meta de 1,5ºC, teremos ganhos ainda maiores”, diz.

O especialista afirma que, embora mais estudos tenham de ser feitos, a expectativa é de que esses resultados já sirvam de estímulo para os países se comprometerem com os objetivos discutidos durante as conferências do clima. “Esperamos que os benefícios estimados em diferentes cenários possam ajudar os formuladores de políticas públicas a adotar estratégias climáticas mais ambiciosas e medidas para reduzir a poluição atmosférica, além de considerar como compartilhar o fardo de reduzir as emissões de gases de efeito estufa.”

Para Philip Landrigan, professor da Faculdade de Medicina Icahn de Monte Sinai, nos Estados Unidos, o estudo tem potencial para isso. “A principal contribuição do trabalho é que ele torna visível os enormes, mas anteriormente escondidos benefícios econômicos da mitigação climática e mostra que esses benefícios são maiores que os custos de prevenção”, opina Landrigan, que não está envolvido no estudo. “Argumentos políticos e econômicos contra a mitigação climática e o controle de poluição geralmente baseiam-se em cálculos deficientes e de curta abrangência, que consideram apenas os custos tangíveis e concretos do controle de emissões. A conclusão cuidadosamente elaborada de que os benefícios à saúde e à economia da mitigação contrabalanceiam significativamente seus custos fornece uma poderosa refutação a esses argumentos.”


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