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Internet Pesquisa tenta identificar ações cerebrais ligadas à crença em fake news Uma delas é o realismo ingênuo, que leva o homem a pensar que percebe o mundo exatamente como ele é

Por: Paloma Oliveto - Correio Braziliense

Publicado em: 26/02/2018 07:16 Atualizado em:

Foto: Arte/CB (Foto: Arte/CB)
Foto: Arte/CB


Em uma cena da recém-estreada série da Netflix Everything sucks, que se passa nos anos 1990, o personagem Oliver está em busca de substâncias legais que “deem barato” e apela para uma internet ainda discada — e sem o todo-poderoso Google — para descobrir o que fazer. Um site sugere comer noz-moscada. Os amigos duvidam. Ele, então, sai com esta: “Mas se está na net, é verdade”.

Acreditar em tudo que circula on-line está mais na moda do que nunca. Não que o fenômeno das fake news tenha surgido com a World Wide Web. Que o digam os muitos documentos deixados pelo orador e político romano Cícero, cuja pena afiada fazia circular, há mais de 2 mil anos, notícias como a de que seu desafeto Claudio entrou vestido de mulher na casa de César, quando só havia damas no local. Mas a velocidade de espalhamento de informações fez da internet — e, mais especificamente, das redes sociais — o mais poderoso veículo de disseminação de notícias falsas. Diante da perplexidade causada pelo potencial de manipulação do fenômeno, a ciência quer entender o que leva as pessoas a acreditar cegamente no que é divulgado e procura meios de combater o problema.

Se na época de Cícero quase nada se sabia sobre o funcionamento do cérebro humano, hoje o conhecimento de mecanismos-chave da cognição avançou. A neurociência dá algumas pistas sobre a confiança que alguns indivíduos depositam em notícias como a de que a candidata às eleições presidenciais norte-americanas de 2016, Hillary Clinton, abusou sexualmente de crianças em rituais satânicos ou de que o bicarbonato de sódio cura qualquer tipo de câncer (informação que, segundo as fake news, seria abafada pela indústria farmacêutica).

Embora, até onde se saiba, o homem seja o único animal racional na natureza, o cérebro humano não foi feito, em princípio, para pensar muito. Quando desafiado pelo desconhecido, costuma utilizar atalhos para processar o que não entende. “Mais do que tolerar a incerteza, tendemos a preencher vazios, mesmo se isso resulta em incorreções. Quando estamos diante de algo que não compreendemos, uma resposta errada pode parecer melhor do que resposta nenhuma; um modelo incorreto do mundo soa melhor que nenhum modelo”, define Steven Brown, psicólogo da Universidade de Glasgow, na Escócia, que pesquisa os impactos da revolução digital.

O especialista diz que, no geral, as pessoas creem que o que ouvem e veem são um reflexo da realidade. Isso se chama realismo ingênuo (ou do senso comum), um conceito da psicologia social segundo o qual o homem tende a acreditar que percebe o mundo tal qual ele é. Ou, como disse Oliver, de Everything sucks: “Se está na net, é verdade”. “Muito do que vemos ou ouvimos é ambíguo e os humanos tentam dar sentido às coisas, de forma que se sentem com mais controle de seu ambiente”, justifica Brown.

Viés

Bem antes que as fake news estivessem no centro do debate da sociedade da informação, psicólogos já estudavam os padrões das crenças humanas, e uma das investigações mais seminais nesse sentido foi realizada em 1954 com estudantes universitários de Darthmouth e Princeton. O experimento conhecido por They saw a game (Eles viram um jogo) consistiu em exibir um vídeo de uma partida decisiva de futebol entre os times das duas universidades, ocorrido dois anos antes. Foi um jogo difícil e repleto de faltas, com diversos pênaltis, lesões e um nariz quebrado.

Depois da exibição, os jovens foram convidados a dizer sua percepção sobre a partida. Embora o jogo fosse o mesmo, as impressões mostraram-se completamente opostas. Os estudantes de Darthmouth “viram” o adversário cometer duas vezes mais infrações que o próprio time, e vice-versa. Quando apresentados aos resultados da enquete, novamente os universitários acreditaram que os colegas da outra instituição estavam errados.

Os estudos sobre o realismo ingênuo têm ligação com outro fenômeno da mente humana: o viés de confirmação, uma tendência a dar por certas informações que confirmam opiniões existentes e desacreditar daquelas que dizem o contrário do que se pensa. Assim, é fácil para um republicano fã de Donald Trump dar crédito a uma notícia que afirma que o ex-presidente Barack Obama nasceu no Quênia e rechaçar indícios de que russos foram contratados pelo magnata para disseminar fake news na campanha presidencial. “O risco do viés de confirmação é que isso nos permite facilmente descartar os fatos porque sempre há informações alternativas para confirmar um viés. Então, se alguém apresenta um contra-argumento, é da nossa natureza descartá-lo como falso”, alerta Bruce Hull, professor da Universidade de Virginia Tech, para quem Trump é um “mestre” do viés de confirmação.

Quanto mais envolvimento com uma convicção, maior será a tendência de considerar verdadeira uma informação que sustente as crenças individuais, ainda que elas não se sustentem na realidade. Em 2012, o psicólogo social Peter Ditto, da Universidade da Califórnia em Irvine, descobriu, em um estudo, que pessoas contrárias às campanhas educativas sobre uso de preservativo são menos propensas a acreditar que a camisinha proteja contra gravidez indesejada e doenças sexualmente transmissíveis. Da mesma forma, indivíduos com escrúpulos morais em relação à pena de morte tendem a crer que essa punição não diminui a criminalidade. “As pessoas misturam julgamento moral e factual”, observa.

Independentemente da posição ideológica, Ditto afirma que, no geral, os indivíduos acreditam firmemente que suas crenças são baseadas em evidências, enquanto que os oponentes ignorariam, propositalmente, a realidade. “Agora, vivemos em um mundo de fatos azuis e fatos vermelhos”, diz, em referência às cores dos partidos Democrata e Republicano, respectivamente. “E isso é um combustível para incendiar o conflito político.”


“Quando estamos diante de algo que não compreendemos, uma resposta errada pode parecer melhor do que resposta nenhuma; um modelo incorreto do mundo soa melhor que nenhum modelo” 

Steven Brown, psicólogo da Universidade de Glasgow, na Escócia


Excesso de confiança na intuição

 A necessidade de ter seu ponto de vista chancelado pode fazer com que as pessoas, consciente ou inconscientemente, se autoenganem, distorcendo fatos que contrariem suas posições. Foi o que constatou o psicólogo social Troy Campbell,  da Universidade do Oregon. O professor de marketing apresentou supostos fatos para voluntários favoráveis e contrários ao casamento entre pessoas do mesmo sexo: algumas informações sustentavam que crianças criadas nesse tipo de família teriam problemas psicológicos; outras afirmavam que uma coisa não tinha nada a ver com a outra. “Quando a evidência estava ao lado deles, os participantes tachavam a informação de verdadeira. Mas quando era contrária a seus pontos de vista, argumentavam que não se tratava de um fato, mas de uma questão moral”, conta Campbell.

Em uma pesquisa divulgada no ano passado pela Universidade Estadual de Ohio, a professora de comunicação social Kelly Garrett mostrou que pessoas que tendem a confiar em suas intuições são presas fáceis das fake news. “A tendência de abraçar notícias falsas e teorias da conspiração é uma ameaça à habilidade da sociedade de tomar decisões com base em informações de qualidade. No geral, estamos prestando muita atenção às nossas motivações políticas e, embora o viés político seja uma realidade, não devemos deixar de investigar outros tipos de vieses”, defende.

Para tentar entender como as pessoas aceitam ideias com pouca ou nenhuma evidência por trás, a pesquisadora examinou dados de três pesquisas norte-americanas que incluíram de 500 a 1 mil participantes. Algumas das afirmações do questionário (com as quais era preciso concordar ou discordar) eram: “Confio nos meus instintos para dizer o que é falso ou errado”, “evidência é mais importante do que algo parecer ser verdade” e “fatos são ditados por aqueles no poder”. As respostas dos participantes foram comparadas com suas opiniões sobre questões como a associação entre vacina e autismo (uma fake news disseminada por um médico que perdeu seu registro) e a conexão entre mudanças climáticas e atividades humanas.

Indivíduos que afirmavam confiar nos instintos para julgar um fato como verdadeiro ou falso eram mais propensos a acreditar em notícias falsas. O contrário foi verdadeiro: aqueles que preferiam se guiar por evidências tinham menos risco de tomar as fake news como certas. “Embora confiar na intuição seja benéfico em algumas situações, isso pode nos deixar suscetíveis à informação falsa”, diz Garrett. Ela destaca a importância da imprensa séria na divulgação de informações de qualidade, pois percebe que as pessoas já não sabem mais em quem confiar. (PO)


“Vacina” contra mentiras

Pesquisadores da Universidade de Cambridge lançaram, na terça-feira, um jogo on-line (fakenewsgame.org) para tentar combater notícias falsas de forma eficiente. O game convida os usuários a criar um meio de comunicação fictício na internet e divulgar fake news, com o objetivo de atrair uma grande audiência. Os jogadores podem recorrer a um exército de contas falsas nas redes sociais, alterar imagens ou difundir artigos pouco rigorosos para alcançar seus objetivos. “Se você sabe como é estar na pele de uma pessoa que tenta ativamente te enganar, sua capacidade de perceber e resistir a tais técnicas aumenta”, afirmou, em um comunicado, Sander van del Linden, diretor do Laboratório de Tomada de Decisões da Universidade de Cambridge, que trabalha com a “teoria da inoculação”. “Nós queremos ajudar a desenvolver ‘anticorpos mentais’ que possam fornecer alguma imunidade contra a difusão rápida de informações falsas”, completou.
 
Palavra de especialista
Atalhos

“Ao mesmo tempo em que tentamos identificar os fabricantes de fake news e encorajamos o público a evitar fontes ruins de notícia, é importante ajudar as pessoas a encontrar boas fontes, nas quais possam confiar. Se jovens adultos não sabem em quem confiar, eles desenvolvem atalhos, como recorrer ao Facebook quando querem saber das notícias. A lógica motivadora é que, se um número suficiente de pessoas está compartilhando uma matéria, então, ela deve ser importante e verdadeira”

Stephanie Edgerly, pesquisadora de novas mídias e audiência do Instituto de Pesquisa Política da Universidade de Northwestern


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