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Estudo Especialistas criam laboratório do sono dentro de casa Pulseira usa algoritmo para relacionar os movimentos do braço com os ciclos do descanso e fornecer resultado com a mesma precisão de um exame de polissonografia

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 19/02/2018 16:00 Atualizado em: 19/02/2018 16:11

O exame mais usado é a polissonografia, capaz de detectar distúrbios como a apneia e o sonambulismo. Foto: Reprodução/Pixabay
O exame mais usado é a polissonografia, capaz de detectar distúrbios como a apneia e o sonambulismo. Foto: Reprodução/Pixabay

Para medir com precisão a qualidade do sono de um indivíduo, é preciso levá-lo a um laboratório, conectá-lo a equipamentos especiais por meio de fios e tubos e observar como ele dorme por dois ou três dias. O exame mais usado é a polissonografia, capaz de detectar distúrbios como a apneia e o sonambulismo. O método, porém, é caro e demorado, e a informação coletada em condições de laboratório pode não representar o que acontece em um local cotidiano, como a própria cama. Por isso, a polissonografia é ideal para diagnósticos, mas não para estudos em larga escala sobre o tema, análise atualmente restrita a questionários.

A fim de facilitar a análise, pesquisadores de universidades dos Estados Unidos e da Alemanha criaram uma forma de observar as fases do sono por meio de informações coletadas por uma pulseira eletrônica. O equipamento, parecido com os smart watches disponíveis no mercado, capta pequenos movimentos do braços e da mão do usuário. Um algoritmo consegue correlacionar esses dados com o ciclo do sono, que se repete de quatro a cinco vezes por noite, e fornece resultados equiparados ao do monitoramento de laboratório.

“Não havia praticamente nenhuma possibilidade de se conseguir estruturas detalhadas do sono durante um período longo de tempo. Você não pode dar facilmente uma máquina de polissonografia para uma pessoa levar para casa e colocar perto de sua cama”, destaca Till Roenneberg, pesquisador da Universidade Ludwig-Maximilians de Munique e um dos criadores do dispositivo, detalhado recentemente na revista Current Biology. 

Os cientistas analisaram um banco de dados coletados por pulseiras eletrônicas, chamadas actímetros, de 574 pessoas com idade entre 8 e 92 anos, contendo estudos realizados entre 2006 e 2014. A princípio, era difícil reconhecer os ciclos do sono a partir dos dados, mas a equipe percebeu que, se eles focassem na inatividade dos usuários, em vez de seus movimentos, o padrão se tornava muito mais claro.

A imobilidade está ligada às fases mais profundas do sono, enquanto os movimentos ocorrem nas fases mais leves e na REM, quando surgem os sonhos. Na última, as extremidades sofrem espasmos frequentemente, o que é captado pelas pulseiras. “Foi surpreendente o quanto as estruturas se clarearam”, conta Roenneberg.

Larga escala

Para confirmar os resultados, os pesquisadores observaram 10 participantes saudáveis, de ambos os sexos, usando as pulseiras e submetidos à polissonografia. Concluíram que a técnica criada é capaz de registrar precisamente as fases do sono e pode ser usada sozinha em pesquisas de grandes populações. “É uma coisa muito simples, uma tecnologia que você pode vestir”, afirma Amauri Araújo, neurocirurgião do Hospital Santa Lúcia e membro da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia. “Acho que o grande mérito do trabalho é justamente a capacidade de fazer estudos em larga escala”, complementa.

Cláudia Barata Ribeiro, fisiatra e neurologista do Hospital Santa Lúcia e da clínica Rehab, ressalta que a proposta de usar um algoritmo para correlacionar dados relativos às fases do sono é inédita. “Isso é muito diferente da polissonografia, que vê muitos outros fatores, como o nível de oxigênio, que indica se um paciente pode ter apneia”, compara. A médica acredita que a tecnologia será muito útil para pesquisas, mas não para o diagnóstico. “Com ela, você poderá descobrir por que algumas pessoas só precisam dormir quatro horas e se elas realmente conseguem. Essas informações a gente só consegue hoje por questionários”, ilustra.

O próprio artigo menciona que ainda são necessários mais estudos para o uso em pessoas com algum distúrbio do sono. Mas os criadores do dispositivo acreditam que, com os resultados futuros, será possível ter precisão ainda maior do que a atual. Eles cogitam, por exemplo, a capacidade de analisar o impacto do horário das escolas e do trabalho e do uso de remédios no sono do usuário.

Amauri Araújo, porém, vê um problema com esse tipo de pesquisa. O neurocirurgião afirma que é preciso tomar cuidado com o tipo de dados que esses aparelhos coletam. “Você tem uma pulseira que pode ter um acelerômetro, que pode ter um GPS. Aquela informação que é coletada é muito vasta. São como os dados coletados do seu celular. Você pode ter acesso a informações até íntimas, e a pessoa não faz ideia”, justifica. O neurocirurgião também acredita que essa tecnologia pode abrir caminho para pesquisas muito interessantes, mas defende que os participantes saibam o que está sendo coletado e o que será feito com a informação.


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