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Ciência Bactérias catalogadas por cientistas podem aperfeiçoar agricultura Cientistas identificam cerca de 500 espécies que estão presentes no solo de todos os continentes. O catálogo inédito poderá ser usado, por exemplo, para melhorar as produções agrícolas

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 20/01/2018 18:37 Atualizado em:

Apesar de serem estudados há décadas, os micro-organismos que vivem no solo são pouco compreendidos devido ao número reduzido de espécies avaliadas por cientistas, diz Delgado-Baquerizo. Arte CB/D.A Press
Apesar de serem estudados há décadas, os micro-organismos que vivem no solo são pouco compreendidos devido ao número reduzido de espécies avaliadas por cientistas, diz Delgado-Baquerizo. Arte CB/D.A Press
Vilhena Soares

O solo contém milhares de micro-organismos, e essas substâncias podem contribuir consideravelmente para a ciência. Com o objetivo de desvendar esse vasto universo biológico, pesquisadores americanos coletaram amostras de terra em vários pontos do globo e esmiuçaram a composição delas. A análise abrangente rendeu um atlas composto por cerca de 500 espécies consideradas estratégicas por serem comuns e abundantes em todo o mundo. Os autores do estudo destacam que o trabalho, publicado na última edição da revista Science, pode ser utilizado para diversas aplicações, como técnicas de aperfeiçoamento da agricultura e a criação de medicamentos.

“Com essa pesquisa, começamos a abrir a caixa-preta e passamos a entender melhor os micróbios que vivem em nossos solos”, diz ao Correio Manuel Delgado-Baquerizo, principal autor do estudo e pesquisador pós-docente do Instituto Cooperativo de Pesquisa em Ciências Ambientais (CIRES, em inglês), da Universidade da Califórnia. O cientista explica que essas bactérias representam uma grande porcentagem da biomassa viva do planeta e são essenciais para os processos realizados pelo solo, como o desenvolvimento de nutrientes.

Apesar de serem estudados há décadas, os micro-organismos que vivem no solo são pouco compreendidos devido ao número reduzido de espécies avaliadas por cientistas, diz Delgado-Baquerizo. “A maioria das espécies permanece não descrita. Não temos registros genômicos existentes. Nos últimos 10 anos, temos trabalhado muito tentando identificar os principais padrões de biodiversidade bacteriana em todo o mundo — por exemplo, tentando descobrir onde a biodiversidade é a mais alta. É incrível o quanto ainda não sabemos sobre os micro-organismos mais dominantes encontrados no solo.”

Na pesquisa atual, Delgado-Baquerizo e colegas coletaram amostras de solo de 237 locais distribuídos em seis continentes e 18 países, abrangendo toda uma gama de climas — desertos, pastagens e zonas úmidas. Em seguida, utilizaram sequenciamento de DNA para identificar os tipos de bactérias encontradas em cada local e determinar quais espécies são compartilhadas em diferentes tipos de solo.

Os pesquisadores descobriram que apenas 2% de todos os grupos bacterianos — ou cerca de 500 espécies individuais — representam consistentemente quase metade das comunidades de bactérias do solo em todo o mundo. “Os resultados foram, de alguma forma, surpreendentes. Um único grama de solo — incluindo aquele do seu jardim — contém tantos milhares de espécies de bactérias quanto as existentes em um deserto, por exemplo.”

Segundo Delgado-Baquerizo, a identificação de um grupo de bactérias como dominante e onipresente auxilia o direcionamento de estudos futuros. “Nossa pesquisa reduz a imensa diversidade de bactérias do solo para uma lista das ‘mais procuradas’, que orientará pesquisas sobre o estudo e a manipulação de micro-organismos que afetam o ciclo de nutrientes, a fertilidade do solo e outras funções ecológicas importantes”, explica.

Novas práticas

Marcia Reed Coelho, pesquisadora da Embrapa Agrobiologia, no Rio de Janeiro, também acredita que os resultados do estudo podem contribuir para novos trabalhos científicos. “É um tipo de pesquisa trabalhosa, que envolve análise de um grande número de amostras, mas que é importante. Ter um grupo de organismos para serem analisados como base pode ser de grande ajuda para pesquisas futuras. É como se fosse feito um referencial para a pesquisa em micro-organismos do solo”, destaca.

A agricultura, segundo a especialista, deve realmente ser uma das áreas mais beneficiadas pelo atlas. “Podemos saber quais micro-organismos podem otimizar o plantio e, dessa forma, manipular a terra da melhor forma; fazer com que pastos tenham maior eficiência, evitando, assim, desmatar além do necessário”, ilustra. “Assim como a medicina mostrou como a microbiota humana é importante para a saúde dos homens, ela também pode influenciar consideravelmente as plantas.”


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